Crianças-nuvens, por Célio Turino
Três irmãs. Nove, oito e seis anos… Imigrantes salvadorenhas nos EUA. Sequestradas e deportadas. Na Casa-Prisão, não sabiam desenhar nuvens… Puderam espiá-las através das grades, ganhando tantas formas. Mas, muitas vezes, o sonho também se esvai com o vento…
Publicado 30/01/2026 às 17:46 - Atualizado 30/01/2026 às 17:49

A história é como nuvem
A história é como nuvem,
balé nos céus que persiste na dança do vento.
Movimento, formas e cores,
sem parar, sem descanso.
Nuvem que se faz e desfaz,
vapor d’água que se forma e muda de forma.
Nuvem que se compõe e desaparece no ar.
Crianças-Nuvem
Crianças adoram olhar as nuvens. Brincam com elas, descobrem formas, inventam imagens, riem. Crianças são como nuvem. Como rio que flui conduzido por sua beira, nuvens se deslocam e são deslocadas pelas margens que são o vento, a umidade, a temperatura e a pressão. Como rio que flui, suas águas jamais são as mesmas. Crianças fazem travessuras como rio em movimento, jamais se deixando prender às beiradas, bordas e margens.
Nove, oito, seis anos de idade…
Três irmãs.
As três irmãs, cuja história conto agora, são filhas de imigrantes salvadorenhos não documentados e viviam no sul do Texas. Muita gente, mundo afora, agora, no início de 2026, tem se indignado e se espantado, se revoltado com as ações da ICE (polícia de imigração e alfândega) contra imigrantes vivendo nos EUA. Puro terror. Porém, lamento informar, essas perseguições não são de agora. Estão mais intensas e performáticas, contra as quais a população decente entre os estadunidenses tem se insurgido. E está pagando com prisões e morte. Até o momento, dois cidadãos dos Estados Unidos da América foram assassinados pelo ICE por conta da solidariedade que prestavam aos migrantes. Dois entre os estadunidenses, porque entre os imigrantes já são mais de cinquenta assassinatos nos últimos meses; de menos repercussão midiática, por migrantes e invisíveis aos olhos do mundo.
Prender, encarcerar e deportar crianças filhas de migrantes é algo corriqueiro naquele país. De muitos anos e governos. Separando as crianças dos pais, inclusive. Foi o que aconteceu com a história das três irmãs. Capturadas, aprisionadas e deportadas para um país estranho a elas, a Guatemala.
Um dia as meninas saíram a fazer travessuras pelas ruas. Como as milhões de crianças em qualquer lugar do mundo. São crianças. São nuvem. Foi quando conheceram a ética e a justiça de um Sistema opressor, racista, explorador, ganancioso, egoísta, implacável.
Três irmãs
As três irmãs foram detidas pela polícia dos Estados Unidos, presas e sequestradas. Deportadas para serem jogadas n’algum canto da América Central. Os pais sequer puderam saber para onde seriam levadas.
Três meninas, três irmãs.
Nove, oito e seis anos…
Abandonadas sem os pais
cujo sonho americano
evaporou feito nuvem.]
Meninas do Não-Lugar,
vapor d’água que se desfaz,
apátridas de nascimento,
não tiveram chance.
Pesadelo de quem acorda assustado em um país igualmente cativo
Como pesadelo de quem acorda assustado, não deixaram rastro, apenas lembrança e dor no peito. Meninas de um sonho sequestrado, expulsas de um país, sem dó ou piedade. Isso aconteceu antes de Trump, acordo dos tempos de Obama. Meninas levadas a um lugar estranho, que sequer era a terra de sua ascendência, trancadas numa Casa de Migrantes.
Guatemala, Terra Maia,
país tão bonito e histórico,
terra de vulcões e lindos tecidos,
colorida parte do mundo
igualmente sequestrada.
Meninas cativas num país em igual cativeiro. Cativos sob o peso de muitos acordos assinados. O sequestro do país aconteceu em um Final de Semana que nunca terminou; Week-End na Guatemala, de Miguel-Ángel Astúrias, vale ler para entender.
Entre os acordos firmados com os Estados Unidos: Casas de Migrantes. Eufemismo para Casas de Detenção em que migrantes deportados pelo Grande Irmão do Norte são jogados e trancafiados. Incluindo crianças. Como as três irmãs dessa história.
Para a deportação não importa o país de origem. Ao migrante capturado, detido, acorrentado, basta ter ascendência na América Central. Esse é o termo do Acordo. À Guatemala cabe se encarregar do cárcere dos sequestrados em troca de aporte financeiro em tostões. No tempo em que escrevo essa história também El Salvador assinou acordo vil com prisão para quarenta mil.
Obra de arte que se cria e destrói
As meninas foram sequestradas e deportadas sem que os pais soubessem. Enviadas à Guatemala, aprisionadas.
Três irmãs.
Nove, oito e seis anos…
Um sussurro do universo,
obra de arte que se cria e destrói.
Com essa história, que já escrevi e contei em outras formas,meu desejo é tocar os corações e as consciências das pessoas. Agora tento novamente no formato de ensaio literário, ou como se queira classificar esse meu jeito de torto de escrever sobre a realidade. O que me importa é que a história circule, toque quem leia e, de alguma maneira, ajude a interromper a infâmia.
Basta um ponto, uma atitude.
Prestem atenção no que pode acontecer.
Basta alguém.
O Ponto de Cultura Frida Kahlo, na Cidade da Guatemala, dirigido por um casal de artistas, Beatriz Sandoval e Ronald Carrillo, obteve permissão para dar aulas de desenho e pintura às meninas detidas na Casa-Prisão.
Um sopro de humanidade,
feito nuvem,
se formou.
Para desenhar há que escolher motivos, as inspirações. A cada nova visita o casal de artistas sugeria um tema, uma fruta, uma flor, uma história de memória. Certo dia o tema foi “Nuvens”. Mas… As crianças não sabiam desenhar nuvens. A imagem havia sido apagada da lembrança. Nuvens se movendo no céu, como vê-las através das grades numa Casa-Prisão?!?!
Ainda assim decidiram desenhar.
O casal levou as crianças para perto das grades nas janelas.
Os pescocinhos se contorceram.
Os olhinhos esticaram.
As cabeças encolheram.
As imaginações alargaram.
– Enxergaram as nuvens!
Lápis e tinta a domar medos
Um balé de liberdade aconteceu,
dança desenhada na cabeça e nos céus,
vento a modelar formas,
lápis e tinta a domar medos.
Até de uma prisão entre grades é possível avistar as nuvens, desenhá-las e pintá-las. O encontro com as meninas deixou marca de beleza e encantamento. Mas se desfez.
Como sonho que se desfaz ao acordar.
Como nuvem que esvai com o vento.
Os desenhos das irmãs esvaíram. Feito nuvem.
Onde estarão agora?
Escutei essa história em 2017, quando em viagem à América Central para escrever o livro “Cultura a unir os povos”, lançado em Castelgandolfo, território Vaticano na Itália, onde os Papas passam os verões e que Francisco, o Papa do sul do mundo, transformou em espaço para encontros e histórias. No Brasil o livro foi republicado sob o título “Por todos os caminhos – Pontos de Cultura na América Latina”, editado pelo SESC. Esta e outras histórias da América Latina está lá.Desde então, sempre que eu avisto nuvens no céu, recordo das meninas que nunca conheci. Também quando vi pela televisão a imagem daquele menininho com cinco anos de idade, gorro de lã azul para se proteger do frio, preso junto ao pai, migrante equatoriano em Minneapolis, tão indefeso.
Onde as meninas estarão agora?
E as tantas mais?
Brincadeira tão singela e tão difícil para alguns.
Imaginar formas e seres entre nuvens de algodão.
– Olhem aquela!
– Parece uma montanha se movendo no céu.
– E a outra?!?!
– Um pássaro tão pequenino…
Sumiu.
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