Cinema: “Qualquer maneira de amor vale a pena”
Dois filmes de um mesmo diretor norueguês estreiam no Brasil. Entre sonhos recorrentes com David Bowie aos encontros e desencontros a partir do sexo casual, as duas obras mostram o amor como fundamento moral e universal das mais diversas interações humanas
Publicado 03/04/2025 às 18:46

Por José Geraldo Couto, no Blog do IMS
A trilogia Sex/Love/Dreams, do norueguês Dag Johan Haugerud, é um dos experimentos mais interessantes e encantadores do cinema atual. Os dois primeiros longas-metragens da trilogia (Sex e Love) chegam nesta quinta-feira aos cinemas brasileiros. O terceiro, Dreams, ganhador do Urso de Ouro e do prêmio da crítica em Berlim, ainda não tem data de estreia por aqui.
Os três filmes foram concluídos e apresentados na Noruega no ano passado, antes de percorrer os festivais pelo mundo. Não há relação de continuidade entre eles. São obras totalmente autônomas, cada uma com personagens e situações distintas. As relações entre as três são mais sutis, subterrâneas, e têm a ver com seu tema comum: as fronteiras porosas entre sexo, amor e amizade. Ou antes: o amor como fundamento moral e universal das mais diversas interações humanas, quase como a confirmar o dito da canção: qualquer maneira de amor vale a pena.
Sexualidade em questão
Observemos os dois longas que nos chegam agora. Sex acompanha, em resumo, as dúvidas, angústias e hesitações de dois homens, Avdelingsleder (Thorbjørn Harr) e Feier (Jan Gunnar Røise), colegas numa firma de limpeza de chaminés. O primeiro é perturbado por sonhos recorrentes em que David Bowie o vê como uma mulher. Feier, instigado pela confidência do amigo, revela que, embora tenha sempre sido heterossexual e fiel à esposa, teve uma transa ocasional e imprevista com um cliente.
As duas situações são desenvolvidas gradualmente, sem pressa, mostrando como as inquietações dos dois homens quanto à própria sexualidade acabam se espraiando para suas relações com as respectivas famílias, os amigos, o trabalho. No processo, há um desmonte progressivo de preconceitos e ideias prontas, um alargamento de perspectivas. Como diz um personagem, “há pessoas que ampliam o mundo quando conversamos com elas; outras o apequenam”.
De certa maneira, o filme todo se constrói em conversas que ampliam o mundo, ou pelo menos a maneira como o enxergamos. A prevalência de diálogos íntimos, filmados geralmente em planos contínuos, sem o campo/contracampo da decupagem convencional, poderia remeter aos psicodramas da última fase de Bergman, mas sem o peso dos tormentos metafísicos do diretor sueco. Aqui, tudo é imanente, terra a terra: os relacionamentos, as carências, as dúvidas.
Encontros e desencontros
Se diante de Sex pensamos inevitavelmente em Bergman, Love talvez nos evoque o cinema dos encontros e desencontros de Eric Rohmer, ainda que sem o rigor de teorema dos contos morais do cineasta francês. Aqui, os personagens principais são uma médica, Marianne (Andrea Bræin Hovig), e um enfermeiro, Tor (Tayo Cittadella Jacobsen). Ela é hétero, ele é gay, e ambos buscam relacionamentos sexuais casuais, recorrendo às vezes aos aplicativos dedicados a isso.
Em Love as situações são mais fluidas, a narrativa é mais dinâmica do que em Sex. Boa parte da ação se dá em trânsito, numa barca que liga Oslo a localidades próximas, ou em caminhadas pela cidade. Os encontros fortuitos podem se esgotar em si mesmos ou se desdobrar em descobertas e aprendizados de consequências imprevisíveis. A vida parece escapar por todos os lados, sem que isso seja particularmente dramático ou inquietante.
Um dos encantos dos dois filmes é o fato de apresentarem personagens com ocupações muito concretas, que não determinam, mas balizam seu modo de interagir com o restante da humanidade. Em Love, além da médica e do enfermeiro protagonistas, há um geólogo, uma historiadora, um arquiteto, um psicólogo etc.
Essa atenção aos ofícios – e ao que eles representam para a comunidade – está dada desde as primeiras imagens de ambas as obras: em Sex, um homem escala um telhado para limpar a chaminé de uma casa, entre dezenas de telhados de casas e edifícios; em Love, a médica Marianne comunica a um paciente que ele terá de retirar a próstata.
Há uma curiosidade permanente pelas coisas do mundo: as características geológicas de Oslo, as consequências de uma remoção de próstata para a vida sexual do indivíduo, as políticas públicas de uma prefeitura, a ética das relações médico-paciente, o canto num coral de igreja. Em tudo prevalece um olhar amoroso, sem julgamentos e sem preconceitos, um desejo palpável de melhorar a vida. São, em suma, filmes de amor.
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