Cinema: O deslumbre de luz e espaço
O Brutalista conta a história de um arquiteto judeu refugiado, após passar por um campo de concentração. Com tom épico, filme mostra a rudeza que enrijece corpo e alma – e uma perspectiva que apequena personagens, a olhar ao alto: como adoração, submissão ou busca de respostas
Publicado 27/02/2025 às 16:03
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Por José Geraldo Couto, no blog do IMS
Tudo é superlativo quando se fala de O brutalista, de Brady Corbet, que concorre a uma penca de Oscars. “Monumental” é a palavra mais frequente nos comentários, tanto por sua extensão (três horas e meia) como por seu fôlego épico, sua cenografia espetacular e sua significação histórica.
O entusiasmo se justifica. Inspirado livremente na trajetória do arquiteto húngaro Marcel Breuer, o filme conta a história do fictício László Tóth (Adrien Brody), arquiteto judeu de Budapeste refugiado nos EUA depois de passar por um campo de concentração na Segunda Guerra Mundial.
Esse entrecho permite entrelaçar um punhado de assuntos apaixonantes: Holocausto, imigração, construção de um novo mundo no pós-guerra, antissemitismo, luta de classes e, claro, arquitetura, que de certo modo enfeixa todas essas linhas de força.
Arquitetura essencial
Consta que muitos arquitetos atacaram O brutalista com base em duas ordens de argumentos: o filme não seria fiel à biografia de Marcel Breuer; e as obras mostradas não pertenceriam, tecnicamente, ao brutalismo histórico (grosso modo, movimento arquitetônico surgido no final dos anos 1940 que privilegia o “concreto bruto” e deixa à mostra os materiais de sua constituição, como em certas obras de Lina Bo Bardi). Talvez tais restrições, por mais legítimas que sejam, tenham a ver com uma espécie de purismo corporativo e com uma incompreensão das diferenças entre documentário e ficção.
A exaltação da arquitetura se dá por outra via, não acadêmica e muito menos canônica: é a ênfase na relação dos indivíduos com o espaço e com a luz. Logo na primeira aparição do protagonista, ele está em meio a uma multidão que se acotovela para emergir do porão de um navio até avistar o céu e a Estátua da Liberdade, mostrada torta e oscilante em câmera subjetiva. Uma imagem que condensa tanta coisa, a principal delas o mito da liberdade oferecida pela América aos refugiados do mundo. Desde o curta O imigrante (1917), de Charles Chaplin, essa cena foi mostrada, glorificada e ironizada de inúmeras maneiras.
Esse movimento do olhar humano em direção à luz, mesmo nas condições mais duras e dolorosas, será a principal linha de força do filme, retornando de modo explícito e verbalizado na sequência final. É em torno desse eixo que se desenvolve o drama do protagonista em condições muito concretas: a carência material e afetiva, a discriminação social e racial, a dependência química, a potência criadora dos Estados Unidos no pós-guerra, a arrogância agressiva de sua elite econômica, hoje evidenciada no noticiário de cada dia.
Escala imponente
A escala imponente da obra principal de Tóth no filme – um misto de memorial e complexo cultural – dialoga com as gigantescas paredes de mármore bruto de Carrara visitadas pelo arquiteto com seu patrono (Guy Pearce). Tudo induz o indivíduo a olhar para o alto, numa postura de adoração, submissão ou busca de respostas. O filme preserva o mistério, assim como se abstém de revelar o destino do mecenas prepotente. Mais importante é a transformação progressiva do filho playboy (Joe Alwyn) numa cópia perfeita do pai. A dominação de classe se perpetua através das gerações.
O próprio título, mais do que uma escola específica de arquitetura, sugere a brutalidade que cerca o protagonista e acaba por enrijecê-lo (até mesmo literalmente).
Uma particularidade de O brutalista é o fato de ter sido filmado quase todo em VistaVision, um formato de tela panorâmica que roda a película de 35mm horizontalmente, ao contrário do habitual, o que possibilita que cada frame possua oito furos (e não quatro), aumentando a resolução da imagem. O último filme rodado inteiramente nesse formato tinha sido Meus seis amores, de Gower Champion, de 1963.
Além da beleza plástica, da intensidade do drama e da relevância de seus temas, o que ajuda o filme a não cansar nem um pouco a despeito de sua longa duração é a excelente atuação do elenco, com destaque, claro, para o soberbo Adrien Brody, que traduz em cada gesto e expressão facial a dor e a delícia de sobreviver num mundo que conspira de todos os modos para extinguir a vida.