Sob Bolsonaro, Funai promove evangelização

No Vale do Javari (AM), coordenador da área de Índios Isolados negocia cargos para facilitar acesso de religiosos aos povos. Proselitismo predatório já conta com apoio de helicóptero. Desmatamento na região mais que dobrou, somente no ano passado

Por Igor Carvalho, no Brasil de Fato

O pastor Ricardo Lopes Dias, que recentemente foi nomeado para o cargo de chefia da Coordenadoria Geral de Índios Isolados e Recém Contatados (CGRIIC) da Fundação Nacional do Índio (Funai), teria convidado lideranças indígenas da Terra Indígena do Vale do Javari para assumir cargos no órgão agora dirigido por ele.

Fontes ligadas à Funai informaram que o missionário chegou a oferecer a Coordenação Regional do órgão em Atalaia do Norte (AM) para indígenas do Vale do Javari, entre outros cargos. A medida seria uma tentativa de amenizar as críticas que Lopes Dias tem sofrido por sua atuação como evangelizador na região durante os anos 1990 e 2000.

O vereador de Atalaia do Norte, Manoel Chorimpa (PROS), da etnia Marubo, confirmou que Lopes Dias “está tentando cooptar algumas lideranças para poder convencer as aldeias [de seu trabalho]”. “Eles estão fazendo essa articulação de forma bem confidencial. Eles estão chamando os jovens, principalmente na etnia Maioruna. Acabamos detectando essa movimentação. É uma questão bem interna”, afirma.

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Ainda de acordo com Chorimpa, o atua coordenador de Índios Isolados está desgastado com os povos no Vale do Javari. “A nomeação dele foi um impacto para o movimento indígena, sabemos do histórico do missionário na região e conhecemos a estratégia dele. Sabemos que a questão de contato com os indígenas que já estabeleceram relação com o país não é o foco dele, ele quer entrar e falar com os isolados”, diz.

Nesta quarta-feira (4), a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) divulgou uma nota denunciando “o aumento do assédio de grupos missionários em nossa região”. De acordo com o movimento, a crescente atuação dos evangélicos na região ocorre no momento em que Lopes Dias é nomeado para a CGRIIRC.

“Jovens estudantes com o objetivo de desestabilizar as ações do Movimento Indígena, dar a largada para uma corrida pela “conquista de almas” por religiosos fundamentalistas e desbloquear os entraves para a exploração comercial de nossas terras por um projeto genocida de Governo”, afirma o documento.

Em seguida, os indígenas acusam Lopes Dias, mais uma vez, por tentativa de aliciar lideranças locais. “Tem exercido direta e indiretamente a articulação, prometendo cargos na Funai local para alguns desses indígenas, causando grande instabilidade nas aldeias e no Movimento Indígena. A nossa preocupação é que essas ações sejam consolidadas, de fato, com o único intuído de ‘abrir as portas’ da Terra Indígena para ações nefastas de proselitismo religioso em todas as aldeias que ‘não foram alcançadas pela bíblia’, inclusive as dos povos isolados, dessa vez, usando-se o órgão indigenista oficial como ponta de lança nessa investida etnocida e genocida”, diz o texto.

Helicóptero para a evangelização

A Missão Novas Tribos do Brasil, entidade que atua com o intuito de evangelizar os povos indígenas no território nacional e para a qual Ricardo Lopes Dias presta serviços, adquiriu um helicóptero R66, que custa R$ 4 milhões, para facilitar o traslado dos missionários até as aldeias.

De acordo com o El Pais, o missionário Edward Luz, da Missão Novas Tribos do Brasil, comemorou a compra em um vídeo enviada para fiéis que trabalham na entidade.

“Nós estamos vivendo um momento muito especial nesses dias, quando única e exclusivamente, pela graça e bondade do Senhor, Ele nos supriu com um helicóptero Robinson 66 que será usado no Acre, precisamente na cidade de Cruzeiro do Sul. Um helicóptero que nos ajudará em todo o processo de chegar com mais facilidade nas aldeias onde não há pista de pouso”, afirma Luz no vídeo.

Desmatamento aumenta em área de povos indígenas isolados

A atuação de evangelizadores na região amazônica em áreas indígenas com povos isolados levou organizações que atuam em defesa da causa indígena a apresentarem na Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) um relatório que alerta para o risco de genocídio dessa população.

O documento elaborado Instituto Socioambiental (ISA) aponta que das 54 Terras Indígenas com registros de povos indígenas isolados (83 registros), 37 delas registram desmatamentos que somaram, até julho de 2019, 336 mil hectares. Em 2019, o desmatamento nessas Terras Indígenas aumentou 113% em comparação com 2018 e 363% maior em comparação com 2017.

O relatório aponta que o desmonte nas políticas ambientais durante o governo Bolsonaro são responsáveis por agravar a situação dos povos isolados e a Fundação Nacional do Índio (Funai) é apontada como o “orgão que apresenta a pior situação” dentro desse quadro.

“As atividades estão praticamente paralisadas com os cortes orçamentários e a alteração de quadros e coordenações. A instituição sofre influência de alas religiosas e ruralistas, como foi o caso da nomeação de um missionário para a Coordenação Geral dos Povos Isolados e de Recente Contato (CGIIRC) e que pode colocar em risco a política de não contato, que nos últimos 30 anos evitou epidemias e massacres dos povos isolados”, diz o relatório do ISA.

O Brasil de Fato comunicou o pastor Ricardo Lopes Dias sobre a denúncia. Porém, o coordenador da Funai preferiu não se manifestar sobre o tema.

“O presidente mandou os missionários”

O líder indígena Davi Kopenawa participou da audiência na ONU onde o relatório foi apresentado. “Aqui vocês tem força pra pressionar o presidente da República que está fazendo muito mal pra gente”, pediu aos presentes na sessão.

“O presidente mandou os missionários para evangelizar meu povo. Os missionários também leva doenças para eles”, afirmou o indígena. “Não estou contente. eu não estou contente com o presidente da República do Brasil, realmente estão querendo acabar com meu povo que está lá morando há muito tempo, há muitos anos”, ressaltou Kopenawa.

Por fim, o líder Yanomami alertou para os riscos da política adotada pelo governo federal na CGRIIRC. “Eu venho aqui para falar da situação do meu povo Yanonami. A lei que o branco escreveu, a lei do Brasil, não está respeitando a própria autoridade brasileira. Não está respeitando os povos indígenas brasileiros. Os indígenas isolados merecem proteção e respeito. Por isso estou falando tudo isso. Eu não vim aqui para falar mal do Brasil. Vim para alertar e informar o que o nosso povo indígena está pensando, querendo. Para autoridades do mundo inteiro não apenas falem do meio ambiente, tem que falar e proteger”, disse.

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