Raduan Nassar, 90: “Homem da e na palavra”

Retrato do autor de Lavoura Arcaica, que “deixou a literatura para criar galinhas”. Sua poética e ação política combina o espírito de um adolescente revolucionário com a sabedoria das décadas. Fiel a sua independência, nunca cedeu às pressões do mercado

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Por Sabrina Sedlmayer, em A Terra é Redonda

Neste dia 27 de novembro de 2025, o escritor Raduan Nassar completa 90 anos e seu romance mais célebre, Lavoura Arcaica, celebra 50 anos de publicação.

A possibilidade de fazer memória conjunta da sua vida e da sua obra é motivo de celebração e alegria sem bordas, tanto para os seus leitores quanto para os brasileiros que, como ele, se comprometem política e eticamente por uma sociedade menos fraturada e socialmente mais justa.

Em nove tópicos, correspondentes a cada década da sua trajetória, este texto recupera o lugar deste autor na literatura brasileira, mas também alguns dos seus gestos como cidadão brasileiro instigado, inconformista e solidário.

De antemão, o aviso de que o retrato resultante desta retrospectiva será incompleto, porque Raduan Nassar é incontornável.

2025

Em encontros frequentes com o cineasta Luiz Fernando Carvalho (com quem desenvolveu forte amizade desde a feitura do filme Lavoura Arcaica), Raduan Nassar partilhou uma narrativa inédita intitulada As três batalhas. Em regime de coautoria, criaram um roteiro cinematográfico, uma espécie de processo experimental, assim sintetizado pelo cineasta carioca: “partindo do imaginário do escritor para a imaginação cinematográfica”.

Tal fato anuncia que teremos novidades por aí, como também confirma que a obra de Raduan Nassar, mesmo breve (como ele gosta de dizer, um romance, uma novela e alguns contos), nunca cessou de falar.

Exemplo é o manuscrito publicado no mês passado, no número 220 da Colóquio, revista da Fundação Calouste Gulbenkian, intitulado “A congregação dos Descalços”, também inédito, que diz: “Não é bem assim, não cabe tudo num pacto, sem dúvida, que é isto que quer esta Assembleia, mas devo lhes dizer mais demora: o que foi um dia o sal virou hoje geleia geral. Onde está o que corre por fora? Onde está o que costura por dentro? La Dulce exquisitez del fruto prohibido… O adolescente impulsivo, que ainda existe em mim, já o velho, que cada vez mais também existe em mim, bem…” (Nassar, 2025, p. 144)

Difícil não pensar que se trata de uma alegoria para o Brasil: nação que perdeu seus princípios essenciais (o “sal”), caindo em um caos confuso e indistinto (a “geleia geral”). A voz narrativa lamenta a lentidão do sistema político e a perda do sentido de propósito, enquanto o país oscila perigosamente entre a promessa de um futuro impulsivo e o peso paralisante de um passado que não consegue superar.

O “sal”, aqui, é essencial para acompanharmos o argumento: elemento que deve ser usado com parcimônia, é puro e durável. Já o fruto proibido, o seu avesso: efêmero, corruptivo, viciante e destrutivo.

O sal virou geleia geral porque os políticos dessa “Assembleia” (leia-se Congresso Nacional, logo, #piorcongressodahistoria) são descaradamente movidos pela fraude, pelo compadrio, pelo fisiologismo de práticas que, reguladas por uma espécie de pulsão de morte, insistem em correr por fora, pactuar em perversos conchavos corruptivos.

Mas este pequeno manuscrito guarda uma outra chave, que aqui prefiro reter para comemorar o aniversário deste escritor: guarda a “vontade de potência” (Wille zur Macht), força que impulsiona os homens e as coisas para o crescimento, a superação, a capacidade de agir, mesmo que isso implique risco e conflito. É a busca incessante por ir além de si mesmo, e por se colocar no lugar do outro.

Descubro e recebo, lendo este texto que não conhecia, um presente: habita, ainda, um adolescente revolucionário no sábio homem que se tornou Raduan Nassar.

2015

Surpreendentemente, Raduan Nassar é anunciado como ganhador do Prêmio Camões em 2016, ano em que a Editora Companhia das Letras publicou a sua Obra Completa. Em 2016, algo formidável também acontece: os seus livros são traduzidos para o árabe e para o inglês.

Os jurados do maior prêmio da língua portuguesa justificam, assim, a eleição deste autor: “a extraordinária qualidade da sua linguagem”, “a força poética da sua prosa”, mas também o fato extraliterário de o autor “não ceder a pressões do mercado sobre a produtividade e criar a sua obra em total independência aos valores que lhe são antagônicos”, gestos de um “homem da e na palavra”.

Podemos inferir que esta última colocação dos jurados se refere ao fato de, após várias tentativas de negociação com o Governo Federal (e suas Universidades públicas e gratuitas), Raduan Nassar ter conseguido doar, em 2011, a sua fazenda Lagoa do Sino, a saber, 643 hectares, para a Universidade Federal de São Carlos. Sabe-se que não foi um processo simples.

A burocracia da transferência da propriedade e os impostos decorrentes do gesto demonstraram a persistência e o desejo aceso de Raduan em fazer a parte da construção de um país menos injusto. Podemos também nos lembrar de como o autor saiu do seu canto e se posicionou veementemente, publicamente, contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff.

2005

Esta década é marcada pelas versões cinematográficas de sua produção literária, que ajudam a recolocar a obra nassariana no debate e na discussão para além do ambiente acadêmico. (Lembro, aqui, que o primeiro livro crítico sobre a sua obra foi a minha dissertação de mestrado intitulada Ao lado esquerdo do pai, publicada pela Editora da UFMG, em 1997, e, desde então, os trabalhos sobre a sua obra se multiplicaram, tornando-se incontáveis e continuando a proliferar nas universidades brasileiras e internacionais).

A fortuna crítica dos seus livros é, hoje, uma tarefa ardilosa, e pode-se afirmar que a produção ensaística sobre a sua obra possui espessura e qualidade tais como as de Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa e Clarice Lispector, entre outros autores consagrados do cânone literário brasileiro.

1995

O conto mais longo (e cinematográfico) de Raduan é Menina a caminho, publicado em forma de livro em 1997, mas escrito originalmente em 1961. Já o último texto de ficção publicado é o irônico Mãozinhas de seda, cujas farpas são dirigidas aos intelectuais com suas mãos sedosas, sem contato com o real e com o “livrão” que é a vida.

Graças à qualidade intrínseca de seu trabalho, a sua obra é traduzida e lançada em diversos países, conquistando, assim, maior porosidade internacional.

1985

O declarado ceticismo em relação à literatura e a afirmação de que abandonara a escrita nas escassas entrevistas dadas favoreceram uma mitificação em torno da sua figura pública. Raduan Nassar, provocativamente, passa a evocar outros campos semânticos em suas falas: o de animais (galinhas, coelhos, perus) ou alguns tipos de capins (pangola, braquiária, sectária, humidícula).

Essa troca da criação literária pela criação de galinhas pode ter parecido, nos anos 1980, uma espécie de retorno à natureza, um desejo de liberdade e de escolha, algo fomentado, de certa forma, por ele próprio: “Eu sou mais como galinha caipira. Não boto um ovo de dia e outro de noite, sob luz artificial. Não entro muito nessa história de que o escritor precisa se profissionalizar. Mesmo esse conceito de obra… Às vezes em 50 páginas você pode dizer muito mais que em dez livros. Depois, há tantos autores de um único livro que dizem tanta coisa!” (Ciccacio, 1981)

Em 1984, a Editora Gallimard publica, em um único volume, Lavoura Arcaica e Um copo de cólera. Em 1987, a Editora Suhrkamp publica um ensaio inédito de Raduan, datado de 1981, em que discorre sobre a relação enviesada e colonial do Brasil com a Europa.

É deste texto que encontro um fragmento valioso, que poderia muito bem resumir a sua postura diante da vida: “Supondo-se que todo homem seja portador de uma exigência ética, não há como estar de acordo com a dominação de uns sobre outros. Penso, como muitos, que seja possível imaginar caminhos diferentes para as relações entre indivíduos e entre povos, e penso mesmo que não existe nada mais belo e comovente do que perseguir utopias”.

1975

O tempo que dividiu a sua vida em dois blocos (e também a ficção brasileira) foi a publicação, na José Olympio, de Lavoura Arcaica, em dezembro de 1975. De natureza atemporal e atópica, essa narrativa suspende os registros realistas e as experimentações concretistas em voga neste período e, de forma lírica, com um trabalho obstinado com a linguagem e a criação de metáforas únicas, oferece o avesso de “A Parábola do Filho Pródigo”.

Um soco contra o patriarcalismo, o romance traz a voz de um filho que desconfia dos ensinamentos paternos, rompe com os imperativos do trabalho, louva a força de Eros, a paixão e, de forma convulsiva, endemoninhada, nutrida da cólera que inflama, da impaciência dos apaixonados, da ira dos revolucionários, questiona os alicerces da casa e da família, no plano privado, e do patriarcalismo, da interdição do incesto, na cultura, e do imperativo religioso do monoteísmo.

O livro demonstra também o estofo, a erudição do leitor e da biblioteca que Raduan frequentava: Graciliano Ramos, Jorge de Lima, Murilo Mendes, Novalis, a Bíblia, o Alcorão, As mil e uma noites, Francis Bacon, René Descartes, e outros tantos textos são mais que evocados. São ruminados, deglutidos e devolvidos numa dicção a que chamamos, concisamente, de estilo.

Três anos depois, lança Um copo de cólera, novela que tem na palavra, na paixão, o embate entre um casal de amantes: um chacareiro e uma jornalista. Além de haver, no livro, fortes referências à luta da emancipação feminina, localizamos expressões que se relacionam diretamente com o Stimmung da ditadura militar: “despachando com censura, lacrando meu processo, arquivando-o sem consulta, passando enfim no meu feixe de ideias uma sólida argola de ferro”.

1965

Pouco estudado é o envolvimento e a dedicação do Raduan Nassar com o Jornal do Bairro, no qual foi redator-chefe. Corre a notícia que era um revisor obsessivo e absurdamente comprometido com os textos publicados. De 1967 a 1974, se dedica ao ofício que também continha textos de política nacional e internacional. Alguns contos por ele apelidados de “safrinha” foram escritos antes de 1960, como “O Velho” e “Monsenhores”.

Percebe-se, no final desta década, o desejo de se dedicar à escrita literária e o início da elaboração do seu projeto de escrita.

1955

A mudança para a capital, São Paulo, é um importante ponto de inflexão na vida da família Nassar. Raduan começa a cursar Direito, depois Letras Clássicas, em 1955, mas acaba por abandoná-los posteriormente; em 1957 inicia o Curso de Filosofia, também na USP, que concluirá em 1963.

Só me é possível recuperar a adolescência do escritor via ficção imaginativa, por meio da fala do púbere e impaciente André do romance Lavoura Arcaica: “…não eram duendes aqueles troncos todos ao meu redor, velando em silêncio e cheios de paciência meu sono adolescente? Que urnas tão antigas eram essas liberando as vozes protetoras que me chamavam?”

Ou em outro trecho, mais ligado ao corpo e ao despertar sexual (que é central na crise adolescente e na interdição do incesto no romance): “…minha mão, pouco antes dinâmica e em dura disciplina, percorria vagarosa a pele molhada do meu corpo, as pontas dos meus dedos tocavam cheias de veneno a penugem incipiente do meu peito ainda quente; minha cabeça rolava entorpecida…”

1945

Nasce o menino Raduan na pequena cidade paulista de Pindorama, o sétimo filho de Chafika Cassis e João Nassar. Sua própria obra atesta a intensidade desse período: “Era boa a luz doméstica da nossa infância”.

A relevância desse tema surge com intensidade em seus escritos, colocando-o em diálogo com Jorge de Lima ao também se dirigir ao leitor e lhe perguntar: “que culpa temos nós dessa planta da infância, de sua sedução, seu viço e constância?”.

Sabrina Sedlmayer é professora titular da Faculdade de Letras da UFMG.

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