Quando Clarice Lispector foi uma cronista esportiva

As inusitadas crônicas da consagrada escritora sobre futebol. O dilema entre escolher um time. Um debate com Saldanha sobre a relação entre o indivíduo e o coletivo. E uma entrevista inusitada com o então técnico da seleção: “O que é amor, Zagallo?”

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Por Letícia Marcolan, no LEME

Não é raro encontrar textos sobre futebol escritos por grandes nomes da literatura brasileira. Talvez o exemplo mais emblemático seja o de Carlos Drummond de Andrade, cuja produção sobre o tema foi em parte reunida na obra Quando é dia de futebol (2014). Outros escritores, por sua vez, atuaram como verdadeiros cronistas esportivos, caso de Nelson Rodrigues. Clarice Lispector, no entanto, não se enquadra em nenhum desses grupos: escreveu pouquíssimo sobre o tema. Mas para a surpresa de muitos (e até mesmo minha, uma leitora voraz de Clarice) ela não passou ilesa pelo universo futebolístico.

A autora de romances e contos consagrados, como A paixão segundo G. H. (1964), A hora da estrela (1977) e Felicidade clandestina (1971), também escreveu uma série de crônicas, fruto de sua atividade nos periódicos, especialmente no Jornal do Brasil, entre 1968 e 1973. Uma parte desses textos foi reunida pela primeira vez no livro A descoberta do mundo (1984) e, em 2018, todas as crônicas da escritora foram publicadas em um único volume, que compilou na íntegra a obra de Clarice Lispector como cronista. Essa publicação permitiu o acesso aos textos que tematizam o futebol, que são poucos, mas existem. 

É difícil sistematizar os principais assuntos presentes na atividade cronística de Clarice. A autora é reconhecida por transformar episódios cotidianos em profundas reflexões. O que parece trivial para a maioria das pessoas, para ela não é. Portanto, seus textos abordam uma gama tão ampla de temas que vão da própria atividade da escrita a sentimentos como o medo, a solidão e o amor, passando por personagens como as empregadas domésticas, figuras como Deus, Chico Buarque e Nelson Rodrigues, e questões como a matança de indígenas, amizade, animais e plantas. Além disso, há entrevistas com personalidades como Pablo Neruda, Millôr Fernandes, Tom Jobim e Zagallo, e ainda comentários sobre livros, exposições e conversas com leitores. Enfim, uma variedade de objetos e, entre eles, o futebol também aparece.

No levantamento realizado a partir do livro Todas as crônicas (2018), os textos que abordam o futebol são: “Armando Nogueira, futebol e eu, coitada”, publicado em 30 de março de 1968; “Zagallo”, do dia 28 de março de 1970; “Antes da Copa”, de 7 de novembro de 1970; e, por fim, “A tempestade de 28 de março, domingo”, publicado em 22 de maio de 1971. Todas essas crônicas foram originalmente veiculadas no Jornal do Brasil.

Na crônica sobre Armando Nogueira, jornalista e cronista esportivo, Clarice conta ter sido desafiada por ele a escrever sobre futebol e, assim, sente-se obrigada a expor sua relação com o esporte bretão. Ela começa relatando o dilema que é escolher as cores de um clube (um verdadeiro drama pessoal, como veremos adiante). Como afirma: “não me é fácil tomar partido em futebol, mas como poderia eu me isentar a tal ponto da vida do Brasil?” (Lispector, 2018, p. 90). Consciente do peso identitário que o esporte já ocupava na vida nacional, Clarice percebeu que não poderia permanecer indiferente e, por isso, acabou elegendo o Botafogo de Futebol e Regatas como seu time de coração.

Mas a escolha não foi simples. O motivo? Um de seus filhos era botafoguense, enquanto o outro havia se tornado flamenguista e, por isso, ela confessa sentir-se como se estivesse traindo o filho rubro-negro. Ainda assim, apesar de carregar o peso dessa possível traição, reconhece que já era tarde demais para voltar atrás. Nas suas palavras: “Já então era tarde demais para eu resolver, mesmo com esforço, não ser de nenhum partido: eu tinha me dado toda ao Botafogo, inclusive dado a ele minha ignorância apaixonada por futebol” (Lispector, 2018, p. 90).

O que chama a atenção nessa crônica é que Clarice, embora confesse não entender muito bem o universo do futebol e admita se pegar, volta e meia, fazendo perguntas bobas sobre o jogo, já havia captado um de seus aspectos mais fundamentais: a escolha do clube do coração é irreversível. Como bem observou Carlos Drummond de Andrade (2014, p. 20): “Somos Fluminenses ou Vascos pela necessidade de optar, como somos liberais, socialistas ou reacionários. Apenas, se não é rara a mudança do indivíduo de um para outro partido, nunca se viu, que eu saiba, torcedor de um clube abandoná-lo em favor de outro”. 

Em “Zagallo”, Clarice escreve sobre uma entrevista que realizou com o técnico, na qual transita por temas diversos: tática futebolística, família, carreira como jogador e treinador, o ato de escrever e, até mesmo, o próprio sentido da prática esportiva. Em meio ao diálogo, surge um momento curioso quando Zagallo pergunta se ela estava satisfeita com sua atividade de escritora. Com a sinceridade cortante que lhe é característica, Clarice responde: “Não, mas é o que melhor sei fazer” (Lispector, 2018, p. 290). Mais adiante, é ela quem surpreende o técnico ao lançar uma pergunta inesperada para uma entrevista no mundo dos esportes: “O que é amor, Zagallo?” (Lispector, 2018, p. 291).

Ainda em 1970, Clarice entrevistou João Saldanha, o que gerou a crônica “Antes da Copa”. Dessa vez, nem a escritora e nem o treinador fizeram perguntas que fugissem ao padrão de uma entrevista do mundo esportivo. O que chama a atenção na conversa é o debate entre entrevistadora e entrevistado (que se tornou recorrente após o fracasso da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1966) sobre a relação entre o indivíduo e o coletivo. Com sua perspicácia, Saldanha (2018, p. 340) afirma que não se trata de modelos excludentes, afinal: “só é possível organizar grandes conjuntos com grandes individualidades”.

Por fim, em “A tempestade de 28 de março, domingo”, Clarice escreve sobre um clássico entre Botafogo e Vasco no Maracanã. A angústia da autora em relação àquela partida não se devia ao resultado do jogo, mas ao fato de seu filho ter ido ao estádio naquele dia, quando uma tempestade havia atingido o Rio de Janeiro:

[…] uma das pessoas de minha família telefonou e soube que todos estavam em casa. Meu desejo era telefonar para os amigos e saber se estavam abrigados. Rezei pelo meu filho que eu não sabia como ia voltar. Mas de repente me deu uma grande calma. […] Deixei um bilhete para meu filho e fui dormir. Eu havia confiado em Deus. (p. 404). 

Os escritos de Clarice sobre o universo futebolístico são poucos, mas como em quase toda a sua obra, revelam um olhar singular sobre o tema. Entendo esse olhar clariceano como uma verdadeira aprendizagem (em referência a Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres) para nós, pesquisadores. Que possamos aprender com Clarice:

Às vezes, quando vejo uma pessoa que nunca vi, e tenho algum tempo para observá-la, eu me encarno nela e assim dou um grande passo para conhecê-la. E essa intrusão numa pessoa, qualquer que seja ela, nunca termina pela sua própria autoacusação: ao nela me encarnar, compreendo-lhe os motivos e perdoo. Preciso é prestar atenção para não me encarnar numa vida perigosa e atraente, e que por isso mesmo eu não queira o retorno a mim mesma. (Lispector, 2020, p. 142)

Referências

ANDRADE, Carlos Drummond de. Quando é dia de futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

FLORENZANO, José Paulo. Afonsinho e Edmundo: a rebeldia no futebol brasileiro. São Paulo: Musa Editora, 1998.

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 2020.

LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 2020.

LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 2020.

LISPECTOR, Clarice. Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 2020. 

LISPECTOR, Clarice. Todas as crônicas. Rio de Janeiro: Rocco, 2018. 

LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres. Rio de Janeiro: Rocco, 2020.

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