O covid-19 ameaça os campos de refugiados

Aglomeração, más condições higiênicas e falta d’água, nos campos na Grécia e Oriente Médio, são bomba prestes a explodir. Já há contaminação no Líbano. Precariedade e preconceitos excluem milhares do sistema de saúde

Por Tom Allinson e Mehyeddin Hussein, no DW Brasil

As autoridades gregas expressaram recentemente temores de um surto de covid-19 nas ilhas que abrigam vários milhares de requerentes de refúgio. O comentário do embaixador da Turquia nos Estados Unidos foi que evitar o alastramento do coronavírus nos campos para deslocados na Síria seria uma “missão impossível”.

Analistas advertem que parte da linguagem referente aos refugiados e à pandemia global possa ser uma política retórica ameaçando estigmatizar os que tentam escapar da guerra. “O perigo de que se vá instrumentalizar esse tópico está presente”, afirmou René Wildangel, especialista em políticas do Conselho Europeu de Relações Exteriores.

“O debate [sobre permitir o afluxo de mais refugiados à Europa] já é muito divisório e polêmico. Quem tenha argumentos adicionais afirmando que [o afluxo] é perigoso provavelmente ajudará a desviar o discurso de maneira negativa.”

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E enquanto a questão dos refugiados mais uma vez se transforma numa batata quente política, as precárias circunstâncias dos cerca de 12 milhões de migrantes que escaparam do conflito sírio em direção à Turquia e ao Oriente Médio faz soar o alarme quanto ao grau de preparação dos campos de refugiados da região para enfrentar o vírus.

Segundo o porta-voz da Organização Mundial da Saúde (OMS) Hedinn Halldorsson, não há casos conhecidos nos campos da Síria. Porém todo o país tem “um sistema de saúde fragmentado, praticamente derrotado, portanto é claro que há enormes desafios”, explica.

Há 6,2 milhões de deslocados internos na Síria, e com o recente bombardeio na província de Idlib, no norte do país, 3 milhões de fugitivos estão comprimidos numa região que contava antes 500 habitantes. “Se houver um surto agora, a situação será muito ruim”, antecipa Orwa Khalifeh, da Sociedade Médica Sírio-Americana, que opera em Idlib e está preparando um plano para combater o vírus.

Segundo Halldorsson, pessoas estão sendo treinadas, e laboratórios em Idlib e Ancara estão sendo abastecidos com kits de diagnóstico. Khalifeh, por outro lado, aponta que a falta de unidades de tratamento intensivo na região é um grande problema, e que o diretório de saúde de Idlib não dispõe de hospitais para isolar os pacientes.

ONGs atuantes na região vêm tentando despertar a consciência pública para práticas higiênicas seguras, como a lavagem das mãos. Contudo, “em alguns campos não há água, portanto é um problema”, observa Khalifeh.

Riscos menores na Jordânia

Na Jordânia, onde a situação é mais estável, não foram detectados casos de covid-19, e “não há riscos nos campos, pois as medidas preventivas dentro deles são as mesmas que fora”, relata Mohammad Hawari, porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) na Jordânia,

Segundo ele, programas educativos foram iniciados, e as condições de saúde são boas, embora a aglomeração nos campos possa acelerar o alastramento de infecções. “Os hospitais dentro dos campos estão preparados para reagir a qualquer situação. Vivenciamos crises semelhantes antes, como a da Sars, e os passos [adotados] em resposta foram semelhantes.”

Wildangel, que esteve recentemente no campo de Zaatari, com 80 mil migrantes, conta que lá o risco é menor, “porque eles monitoram muito de perto quem entra e sai, e é muito fácil para seus serviços de saúde avaliarem os riscos, embora as condições não sejam ideais”.

Os campos da Jordânia são administrados segundo a política da Acnur de que sejam integrados em planos governamentais para surtos de moléstias. Essa política sugere que os campos em toda a região só podem ser tão seguros – ou expostos – quanto os países onde se encontram.

Líbano, uma grande tarefa

O Líbano registrou 41 casos de covid-19, e devido à decisão do governo de não estabelecer nenhum campo de refugiados oficial no início da guerra da Síria, é mais difícil os serviços de saúde alcançarem muitos dos 1,5 milhão de migrantes sírios no país – a maior proporção per capita de todo o mundo.

“As centenas de milhares de refugiados vivendo em grandes cidades sob as condições mais patéticas, no Líbano e no Vale do Beca, muitas vezes não estão registrados. Eles não têm acesso a nenhum serviço de saúde, então lá o risco é provavelmente maior”, avalia Wildangel.

Lisa Abu Khaled, porta-voz da Acnur para o Líbano, informa que o Alto Comissariado está desenvolvendo planos de contingência junto ao governo e outras agências da ONU para o caso de um alastramento maior, além de conscientizar os refugiados sobre higiene e precauções preventivas.

Europa, migrantes e a ultradireita

Grupos de ajuda humanitária na ilha grega de Lesbos, onde vão parar muitos dos requerentes de refúgio na União Europeia (UE), anunciaram que suspenderiam seus trabalhos depois do ataque de grupos de extrema direita no início de março.

Desde que um habitante da ilha que viajara para Israel e o Egito apresentou resultado positivo para o coronavírus na última segunda-feira (08/03), os temores de uma eclosão entre refugiados e migrantes têm o potencial de desencadear um debate mais nocivo nos países-membros do bloco.

“A [legenda populista de direita] Alternativa para a Alemanha [AfD] e outros movimentos já estão retratando os refugiados como portadores de todo mal, de doenças e tudo mais. Então, se houvesse um surto assim, estou certo de que ficariam felizes de poder infundir ainda mais medo”, explica Wildangel.

No entanto, “é um pouco tarde demais para culpar os refugiados pelo coronavírus, mesmo para a ultradireita”, ressalva. Outros fatores são mais importantes, como a situação em Idlib e como a UE lida com a Turquia e [o presidente da Rússia, Vladimir] Putin. Tudo isso afeta a discussão mais do que o vírus, eu o vejo mais na periferia do debate.”

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