Irã e Venezuela desafiam embargo dos EUA

Com refinarias paralisadas pelas sanções econômicas – e agora, pela pandemia – Maduro recorre à compra de combustível iraniano. Trump ameaça retaliação, mas petroleiros chegam, e surge uma alternativa ao sufoco de Washington

Por Guillermo D. Olmo, na BBC Brasil

Em plena pandemia, o país sul-americano sofre uma grave escassez de gasolina que tem agravado sua longa crise econômica, e o governo de Nicolás Maduro tem recorrido à ajuda de Teerã para obter combustível em troca de “toneladas de ouro”, segundo o Departamento de Estado americano.

O governo de Donald Trump impõe há anos uma política de sanções que busca forçar a queda de Maduro, a quem acusa de ser um governante sem legitimidade. Essas medidas proíbem, por exemplo, a realização de negócios com a PDVSA, a petrolífera estatal venezuelana.

E é exatamente isso que o Irã, também sujeito a sanções dos EUA, está tentando fazer. Para o governo americano, o país persa é um dos “Estados patrocinadores do terrorismo”.

As tensões entre Washington e Teerã aumentaram nesta semana depois que se descobriu que diversos navios estariam a caminho da Venezuela transportando gasolina.

Uma autoridade americana afirmou à agência de notícias Reuters que os EUA estudavam como responder à estratégia que dribla suas sanções econômicas. Na terça, o Tesouro americano aplicou medidas contra uma empresa chinesa ligada à companhia aérea iraniana Mahan Air, acusada pelos EUA de colaborar com o “terrorismo” e de transportar ouro venezuelano.

Embarcações militares dos EUA têm patrulhado as águas do Caribe, perto da rota provável dos cargueiros iranianos.

Mas o ministro da Defesa da Venezuela, Vladimir Padrino, afirmou na terça (19) que pretende escoltar os navios iranianos quando estes entrarem na zona marítima econômica exclusiva do país.

“Eles serão escoltados por navios e aviões para recebê-los e dizer ao povo iraniano ‘obrigado por tanta solidariedade e cooperação'”, disse Padrino.

Por outro lado, uma agência de notícias vinculada ao governo do Irã afirmou que o ministro das Relações Exteriores, Mohamed Javad Zarif, escreveu uma carta ao secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Antonio Guterres, alertando que qualquer medida dos EUA contra sua remessa de combustível será considerada um ato de “pirataria” e teria consequências.

Para Kasra Naji, correspondente do serviço persa da BBC, “o risco de enfrentamento entre o Irã e os EUA é grande”.

A crise foi tema de debate no Conselho de Segurança da ONU na quarta-feira (20). O embaixador-adjunto da Rússia, Dmitry Polyansky, afirmou esperar que os Estados Unidos se deem conta do “risco de incidentes” ao mobilizarem sua força naval “em uma região perto da Venezuela onde petroleiros iranianos exercem atividade legal”.

Por que Maduro tem recorrido ao Irã?

Durante o governo do então presidente Hugo Chávez, a Venezuela socialista construiu uma boa relação com a república islâmica.

David Smilde, analista do centro de análises Washington Office of Latin America, afirmou à BBC Mundo (serviço da BBC em espanhol) que “a cooperação é natural porque ambos se veem como sócios estratégicos em um mundo multipolar, além de serem dois países alvos de proibições dos EUA”.

“Mesmo sem saber se a Venezuela está pagando em ouro, faz sentido que o Irã coloque em risco diversas embarcações repletas de combustível, já que está também precisando desesperadamente de recursos por causa das sanções americanas”, afirmou Naji, do serviço persa da BBC.

A Venezuela atravessa uma das piores crises econômicas da história recente.

O Produto Interno Bruto (PIB, ou soma de todas as riquezas produzidas no país em um dado período) caiu mais de 50% desde que Maduro chegou ao poder em 2013, e milhões de venezuelanos abandoaram o país. O coronavírus e a queda do preço do petróleo cru pioraram ainda mais a situação na Venezuela.

As sanções econômicas, a administração ruim e a corrupção na petroleira estatal nos últimos anos levaram ao colapso das refinarias, o que levou ao declínio da produção local de gasolina.

Durante meses, o governo venezuelano combateu a escassez trocando petróleo cru por gasolina com seus clientes, como a empresa Rosneft, majoritariamente russa.

Mas em fevereiro e março o governo Trump aplicou sanções contra filiais da Rosneft que negociava a matéria-prima venezuelana em mercados internacionais.

Até que no fim de março a Rosneft anunciou surpreendentemente sua saída da Venezuela. Segundo um funcionário do Departamento de Estado americano afirmou à BBC Mundo, a empresa tomou essa medida “a fim de proteger seus ativos de novas sanções”.

Antonio de la Cruz, especialista da consultoria Inter American Trends, afirma que “entre os acionistas da Rosneft há sócios privados muito importantes que não poderiam colocar a empresa em perigo por causa de negócios com Maduro, e não restou ao líder russo, Vladimir Putin, tomar essa decisão”.

Desde então, há um racionamento severo de gasolina na Venezuela, e muita gente passa a noite em filas enormes para conseguir até 30 litros do combustível.

“Maduro pretende que os iranianos preencham o vazio deixado pela Rosneft”, disse De la Cruz.

O que a Venezuela e o Irã estão tentando?

Há algumas semanas, logo depois do fechamento da Rosneft, surgiram diversas informações de que voos da empresa Mahan Air, também sob sanção dos EUA, estavam chegando ao Estado venezuelano de Falcón com equipamentos e profissionais iranianos a fim de reativar as refinarias do complexo de Paraguaná, o mais importante do país.

Em 28 de abril, o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, cobrou a suspensão dos voos.

O governo venezuelano não deu esclarecimentos sobre o apoio do Irã, mas Eudis Girto, diretor de um dos principais sindicatos petroleiros venezuelanos, afirmou à BBC Mundo que “os iranianos estão trabalhando para religar as plantas, mas há problemas estruturais por causa do abandono que não serão resolvidos facilmente”.

Estima-se que as refinarias de Paraguaná eram capazes de processar, no ápice de seu rendimento, quase 965 mil barris diários de petróleo (quase metade do volume produzido no Brasil).

Especialistas afirmam que uma operação sustentada das plantas será muito mais difícil do que sua reabertura.

Por isso, os cargueiros iranianos lotados de gasolina são vitais para o presidente venezuelano, tendo em vista que essa é a única possibilidade de lidar com a escassez generalizada de gasolina a curto prazo.

Um técnico da empresa Refinitiv, que atua no monitoramento do tráfego marítimo, afirmou à agência de notícias Associated Press que são cinco as embarcações que transportam um carregamento em gasolina e produtos similares cotado em US$ 45 milhões (cerca de R$ 250 milhões).

“Se os barcos chegarem, Maduro terá aberto uma rota de abastecimento que salvará a atual crise de combustíveis”, diz De la Cruz, da consultoria Inter American Trends.

Para o Irã, que sofre com as graves consequências econômicas da pandemia de coronavírus, obter ouro venezuelano permite ao país driblar as sanções e levantar dinheiro para questões urgentes.

De todo modo, ainda há dúvidas em torno da capacidade real do Irã de se tornar um fornecedor seguro para a Venezuela, já que a gasolina é racionada no país persa desde novembro de 2019. O preço interno triplicou e provocou protestos violentos em diversas regiões do território iraniano.

Mais de 300 pessoas morreram durante os atos, segundo a Anistia Internacional.

Qual será a resposta dos EUA?

O embate entre os Estados Unidos e o Irã atingiu seu ápice em janeiro, quando um drone americano matou, em Bagdá, no Iraque, o general Qasem Soleimani, uma das principais figuras da cúpula militar iraniana, gerando temores de retaliações e uma escalada para um conflito militar mais amplo.

Em julho do ano passado, forças iranianas cercaram uma embarcação britânica em águas internacionais no Estreito de Ormuz e derrubaram um drone dos EUA, sob acusação de que ele havia perseguido embarcações iranianas.

Desta vez, o governo do Irã sinalizou, por meio de uma de suas agências de notícias, que se os Estados Unidos interceptarem os navios que navegam em direção à Venezuela o país “estaria correndo um risco muito perigoso”, sugerindo uma nova escalada das tensões.

Smilde, do centro de análises Washington Office of Latin America, considera essa alternativa improvável. “Se os Estados Unidos interceptassem os navios, a tensão com o Irã e a Venezuela aumentaria, com um custo geopolítico bastante alto, com muitos riscos no momento. Trump está enfrentando neste momento críticas à sua resposta à pandemia, a corrida eleitoral, há frentes demais”.

Mas acrescenta: “Trump, entretanto, é imprevisível”.

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