Covid: marketing e realidade da atuação de Doria

Na publicidade, parceria entre ciência e política e valorização do SUS. Mas longe da vitrine do Instituto Butantan, estado é o terceiro em novos casos e mortalidade, tem periferias desassistidas, reabertura irresponsável e UTIs sob tensão

Por Luis Nassif, no GGN

No último ano, a pandemia permitiu o devido reconhecimento à mais relevante e idônea corporação brasileira: a dos sanitaristas, médicos, enfermeiros e técnicos. Nesses anos todos, silenciosamente, invisibilizados pela mídia, lutando contra a falta de verbas, mantiveram estoicamente o grande legado do SUS (Sistema Único de Saúde).

Com a pandemia, foram descobertos pela política e pelo marketing da política. E ninguém os têm utilizado melhor do que o governador João Dória, de São Paulo.

O Instituto Butantã foi salvo do desmonte graças ao Covid-19 e se transformou na vitrine do governador. Todas as pessoas que se destacam no tema, em alguns episódios que seja, ficam na mira do marketing de Dória, do técnico que participava da live do ex Ministro Henrique Mandetta, ao próprio Mandetta e da infectologista mineira.

Tudo bem, tudo pela causa da saúde.

Mas é importante a classe dos sanitaristas fazer valer seu endosso moral ao Plano São Paulo, de combate à pandemia. São bonitos os eventos periódicos de prestação de contas, na qual Dória deixa de lado seu estilo agressivo-birrento e veste o terno do estadista, de fala calma e educada. E é confortador, neste país de Bolsonaros,assistir à parceria entre política e ciência.

Mas, alto lá!. Se endossam o Plano SP, os cientistas têm que se responsabilizar por todos os aspectos do plano e não se limitar a analisar estatísticas que mostram tudo, menos o essencial.

Hoje, a Folha traz uma boa reportagem de Luana Nunes e Lucas Veloso sobre a ficção do plano na periferia de São Paulo – justamente a região mais afetada pela pandemia. Inexiste. Esse trabalho exige gestão, assessoria de especialistas em políticas sociais, aproximação com lideranças comunitárias. Mas está longe do marketing de Dória.

A questão final, com exceção das vacinas, é um Belo Antônio da pandemia, muito bonito e de baixa eficácia.

Confira o conjunto de gráficos abaixo. Ele revela o resultado final.

Resultado 1 – o 3o lugar em novos casos per capita e o 3o em mortalidade.

Resultado 2 – com 21,9% da população total do país, mesmo tendo a melhor malha de cidades e de atendimento hospitalar, São Paulo respondeu por 24,2% das mortes acumuladas.

Na última semana registrou 19,9% de crescimento na média de óbitos. Em 14 dias, a média de casos cresceu 20,4%.

Resultado 3 – hospitais das 17 regiões de São Paulo estão com nível de ocupação superior a 75%.

Resultado 4 –  a média de pacientes em UTIs não para de subir.

assim como as internações em UTIs.

Resultado 5 – há aumento da média de óbitos em 39 regiões da saúde do Estado e queda em apenas 13 regiões

As causas do desastre

As causas do desastre paulista são óbvias, e deveriam merecer profunda atenção dos sanitaristas que avaliam Dória:

1.Falta de articulação com a periferia e com os municípios.

Até agora, o único sinal visível de atuação do estado – além do relevante apoio ao Butantã – tem sido na definição estática do nível de cada região em relação à pandemia. Trata-se de uma operação de gabinete.

É evidente que a eficácia da política depende da concatenação com os diversos atores sociais e políticos. Por exemplo: criação de conselhos com representantes das comunidades de periferia e os municípios; montagem de uma força-tarefa para ir a cada região conflagrada, saber das suas necessidades e prestar ajuda e orientação. Nada disso é feito.

2.Flexibilização irresponsável do isolamento social.

Cada vez que é acossado por Bolsonaro, em relação ao isolamento, Dória vai flexibilizando para garantir apoio político. Flexibilizou o comércio, as Igrejas, muito antes da hora. E com o endosso dos sanitaristas.

3.Falta de cuidado total com a população mais vulnerável

O maior fator de contaminação pelo Covid é o transporte urbano e a necessidade da periferia de trabalhar pela sobrevivência. Não se conhece uma ação eficaz do governo paulista nesta direção. E nenhum trabalho de convencimento das prefeituras, em regiões metropolitanas, para garantir um transporte público mais seguro, e alguma renda para impedir o trabalhador da periferia de se contaminar atrás do pão de cada dia.

Obrigar empresas de ônibus a manter uma frota que impeça ônibus lotados, espalhando virus, significa mexer com a principal fonte de financiamento dos prefeitos. Nesse cumbuca, Dória não mete a mão.

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