Corbyn: eleições britânicas e o futuro da esquerda

Derrotado, mas confiante, líder do Labour analisa: crise criou a chance de mudanças radicais; mas também o cinismo dos que se conformaram. Saída, num tempo de mídia hostil, implica o paciente trabalho de ouvir e conviver com as comunidades

Por Jeremy Corbyn, traduzido por A Terra é Redonda

Vivemos em tempos altamente voláteis. Dois anos e meio atrás, na primeira eleição geral que eu disputei como líder do Partido Trabalhista, nosso partido aumentou em 10 pontos percentuais sua participação no voto popular. Na quinta-feira, numa noite desesperadamente decepcionante, retrocedemos oito pontos.

Eu pedi um período de reflexão no partido, e não há poucas coisas a considerar. Não acredito que esses dois resultados eleitorais contrastantes possam ser entendidos isoladamente.

Os últimos anos testemunharam uma série de agitações políticas: a campanha pela independência escocesa, a transformação do Partido Trabalhista, o Brexit, a ascensão eleitoral trabalhista e agora a vitória do “Concluir o Brexit” de Johnson. Nada disso é uma coincidência.

O sistema político é volátil porque está falhando em gerar apoio estável ao status quo na sequência do colapso financeiro de 2008. Como líder trabalhista, fiz questão de viajar para todas as partes do país e ouvir as pessoas, e impressionou-me poder observar seguidamente até que ponto a confiança na política está rompida. A diferença entre os mais ricos e os demais aumentou. Todos podem ver que o sistema econômico e político não é justo, não oferece justiça e está contra a maioria.

Isso permitiu a brecha para uma política mais radical e esperançosa, que insiste que não tem que ser assim e que outro mundo é possível. Mas também estimulou o cinismo entre muitas pessoas que sabem que as coisas não estão funcionando para elas, contudo não acreditam que isso possa mudar.

É o que vi mais claramente nas antigas áreas industriais da Inglaterra e do País de Gales, onde a destruição deliberada de empregos e comunidades ao longo de 40 anos cobrou um alto preço. Não é de se admirar que essas zonas tenham oferecido a reação mais incisiva no referendo de 2016 e, lamentavelmente para o Partido Trabalhista, nas eleições gerais de quinta-feira.

Nas cidades onde as siderúrgicas fecharam, a política como um todo não era confiável, mas a promessa de Boris Johnson de “concluir o Brexit” – vendida como um revés para o sistema – era. Infelizmente, esse lema em breve será exposto pela falsidade que é, demolindo ainda mais a confiança.

A despeito de nossos melhores esforços, e de nossas tentativas de deixar claro que isso seria um ponto de inflexão para o rumo comum de nosso país, as eleições giraram principalmente em torno do Brexit.

Um Partido Conservador preparado para explorar as divisões capitalizou a frustração criada por seu próprio fracasso em garantir o resultado do referendo – ao custo de um Partido Trabalhista que procura unir nosso país para enfrentar o futuro.

A polarização no país acerca do Brexit tornou mais difíceis as coisas para um partido com forte apoio eleitoral em ambos os lados. Acredito que pagamos um preço por sermos vistos por alguns como que tentando esquivar-nos dessa divisão ou reeditar o referendo.

Agora precisamos ouvir as vozes daqueles em Stoke e Scunthorpe, Blyth e Bridgend, Grimsby e Glasgow, que não apoiavam o Partido Trabalhista. Nosso país mudou fundamentalmente desde o colapso financeiro e qualquer projeto político que finja o contrário incorrerá em complacência.

O progresso não chega por meio de uma simples linha reta. Embora tenhamos perdido vários assentos na quinta-feira, acredito que o manifesto de 2019 e o movimento por trás dele serão vistos como historicamente importantes – uma tentativa real de construir uma força poderosa o suficiente para transformar a sociedade em favor da maioria, não para uns poucos. Pela primeira vez em décadas, muitas pessoas tiveram esperança de um futuro melhor.

Essa experiência, compartilhada por centenas de milhares de pessoas, não pode ser apagada. Nossa tarefa como movimento, e como um partido que ultrapassou o dobro de seu tamanho, não acabou: temos agora a tarefa urgente de defender as comunidades que estarão sob ataque contínuo do governo de Boris Johnson e do acordo tóxico que ele deseja firmar com Donald Trump.

E devemos garantir que esse sentimento de esperança se espalhe e se aprofunde. Como socialistas, procuramos elevar as expectativas das pessoas. As pessoas em nosso país merecem muito mais – e podem obtê-lo, se trabalhamos juntos para alcançá-lo.

Tenho orgulho de que, em relação à austeridade, ao poder das grandes corporações, à desigualdade e à emergência climática, vencemos o debate e reescrevemos os termos da discussão política. Mas lamento que não o tenhamos convertido em maioria parlamentar para mudança.

Não há dúvida de que nossas políticas são populares, desde a propriedade pública de ferrovias e serviços essenciais até um enorme programa de construção de casas e um aumento salarial para milhões de pessoas. A questão é: como podemos ter sucesso futuramente onde desta vez não tivemos?

Não há solução rápida para superar a desconfiança de muitos eleitores. Tratá-los com condescendência não os conquistará de volta. O Partido Trabalhista tem que ganhar sua confiança. Isso implica o paciente trabalho de ouvir e conviver com as comunidades, especialmente quando o governo intensifica seu ataque. E implica também garantir que a classe trabalhadora, em toda a sua diversidade, seja a força motriz do nosso partido.

Os ataques da mídia ao Partido Trabalhista nos últimos quatro anos e meio foram mais ferozes do que nunca – e, é claro, isso tem um impacto no resultado das eleições. Qualquer um que defenda uma mudança real se defrontará com toda a força de oposição da mídia.

O Partido precisa de uma estratégia mais robusta para enfrentar diretamente essa hostilidade da propriedade e da influência de bilionários e, sempre que possível, transformá-la em nossa vantagem.

Sofremos uma grave derrota, e assumo minha responsabilidade por isso. O Partido Trabalhista em breve terá um novo líder. Mas quem quer que seja, nosso movimento continuará a trabalhar por uma sociedade mais igualitária e justa, e por um mundo sustentável e pacífico.

Passei minha vida fazendo campanha por esses objetivos e continuarei a fazê-lo. A política da esperança deve prevalecer.

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