Controle da internet, uma nova “corrida espacial”

Ataque dos EUA a Huawei é só o começo de uma disputa maior pelo monopólio da tecnologia 5G. China está na frente — e pode dominar mercado europeu e enfraquecer hegemonia da Casa Branca em capturar nossos dados

Por Luís Leiria, na Esquerda.net

Todos nós já fizemos compras numa loja de chineses. Nos habituamos a encontrar lá uma enorme gama de produtos baratos, de roupa a quinquilharia, sabendo de antemão que a qualidade não é grande coisa mas os preços compensam.

Mais recentemente, a história dos produtos chineses passou a ser outra. Muitos de nós passamos a usar telemóveis fabricados no país asiático que já nada têm a ver com o pechisbeque vendido naquelas velhas lojas. Em vez de cópias baratas e de má qualidade, estes são aparelhos de última geração, alguns topo de gama, bonitos, fiáveis e, ainda assim, mais baratos que um Iphone da Apple ou um Galaxy da Samsung.

Huawei, Xiaomi, OnePlus são algumas destas marcas chinesas. A Huawei é a que mais vende smartphones em Portugal, e para conquistar uma imagem de qualidade que ajudasse a lembrar o nome impronunciável (Huawei significa “realização chinesa”, mas também “ato esplêndido”), fez uma parceria com a lendária Leica, que passou a fornecer-lhe as lentes das câmaras fotográficas incluídas nos seus aparelhos. O nome da fabricante das câmaras que imortalizaram fotógrafos como Sebastião Salgado foi associado ao smartphone chinês, ajudando a promover Huawei como marca de qualidade.

No último mês, porém, a Huawei, que já é a segunda maior produtora de telemóveis do mundo, atrás da Samsung e à frente da Apple, ganhou notoriedade por outros motivos. O governo dos Estados Unidos inscreveu-a numa “lista negra” onde figuram aquelas companhias tecnológicas que Washington considera uma ameaça à sua segurança nacional. Na sequência, multinacionais como a Google ou a Arm anunciaram que deixariam de fornecer o seu software e serviços, no caso da Google, ou os seus processadores, no caso da Arm, ao gigante chinês. Outros fabricantes de microprocessadores, como Intel, Qualcomm, Xilinx e Broadcom, também anunciaram que vão cumprir o bloqueio decretado pelos EUA.

Pânico entre os felizes donos de um smartphone Huawei: vão ficar sem o Android? Como farão se o sistema operativo deixar de funcionar? Deixarão de poder usar o Gmail ou o Google Maps? Terão que correr para trocar de telemóvel antes que o seu modelo Huawei se torne em algo semelhante a um pisa-papéis? Nada disso. Mas já lá vamos.

Atraso tecnológico dos EUA em relação ao 5G

O que importa, para já, saber é o que está em causa neste episódio da guerra comercial entre os Estados Unidos e a China. De repente, esta guerra deixou de ser uma coisa abstrata sobre tarifas de importação, taxas e sobretaxas, e passou a ter um significado bem concreto para todos nós, cidadãos que usam smartphones. E o que está em causa é o futuro da Internet, é quem tem o poder e a tecnologia para começar a assentar as bases da nova Internet, num momento em que se dá um salto tecnológico gigantesco: a passagem do 4G para o 5G.

Donald Trump desfere um ataque demolidor à empresa chinesa porque ela tem pelo menos oito meses de avanço (há quem diga 18 meses) em relação à concorrência no domínio da tecnologia da quinta geração de redes de dados, que vai permitir aceder à net a partir do telemóvel com velocidades de download e upload exponencialmente superiores ao 4G (20 vezes mais) e uma latência reduzida a 1 milissegundo e não os 40 milissegundos do 4G.

Comparando: o 3G permitiu-nos navegar na net e ler textos e ver imagens nos smartphones; o 4G permitiu-nos ver filmes online pelo sistema de streaming; o 5G vai nos permitir entrar num mundo de realidade virtual, ou andar em carros sem condutor que se comunicam entre si para evitar acidentes, controlar à distância todos os equipamentos da nossa casa, ou… bem, um futuro de aplicações que ainda não foram inventadas.

Para o 5G funcionar, será necessário substituir as antenas e os equipamentos base da enorme rede celular que cobre as cidades. Ora quem detém essa tecnologia para o 5G são apenas quatro empresas no mundo: as chinesas Huawei e ZTE, a finlandesa Nokia e a sueca Ericsson. Nenhuma norte-americana. Para a potência hegemônica mundial, ficar de fora desta tecnologia é um desastre e um sinal de decadência.

Disputa comparável à corrida espacial EUA X URSS

A revista Time escreveu recentemente que a corrida ao 5G é a mais importante luta pela supremacia tecnológica global desde a famosa corrida espacial em que os Estados Unidos venceram a União Soviética e puseram na Lua o primeiro astronauta. “O vencedor levará para casa milhares de milhões, senão biliões em lucros e ganhará um poderoso lugar à mesa dos criadores da infraestrutura para os próximos mil milhões de utilizadores da Internet”, diz a reportagem, referindo que no dia 3 de abril, quando a quinta geração de rede de dados por telemóvel começou a funcionar em Chicago e Minneapolis, os cidadãos de Hangzhou, Xanghai e Wuhan já usavam redes 5G há meses. E a experiência com veículos autônomos já decorria em Fangshan.

A Huawei gastou 2 milhões de dólares nos últimos dez anos para garantir a melhor posição entre os arquitetos da nova rede. Já assinou 40 contratos com empresas multinacionais de telecomunicações e despachou para os seus clientes 70 mil estações base de 5G. Enquanto isso, a poderosa empresa norte-americana Cisco concentrou-se na estrutura das redes por cabo e descuidou a tecnologia sem fios.

A Casa Branca argumenta que a Huawei implantou cavalos de troia ou “portas de traseiras” nos equipamentos 5G para abrir o caminho à espionagem chinesa. Num mundo em que a guerra e a espionagem cibernética assumiram já proporções gigantescas, o argumento parece ter algum sentido. Na verdade, os chineses não estariam a fazer mais do que seguir os ensinamentos dos próprios norte-americanos, que puseram de pé desde 2007 um sistema de vigilância mundial, composto por um conjunto de programas, como o PRISM, que contava com a colaboração de empresas gigantes como a Google, Facebook e Apple e permitia à NSA, a Agência de Segurança Nacional dos EUA, espiolhar os mails, os ficheiros, as fotos e os vídeos de qualquer cidadão comum? Não foi nos Estados Unidos e no Reino Unido que funcionou mais recentemente a Cambridge Analytica, empresa privada que aproveitou o acesso ao Facebook para recolher um manancial de dados que lhe permitiu personalizar as campanhas eleitorais dos seus clientes Donald Trump e a do Brexit?

Acusação sem provas

O problema é que até agora os acusadores não deram a mínima prova do que afirmam. O que causa estranheza, tendo em conta toda a expertise em ciberespionagem que têm no currículo.

A Huawei nega e negou sempre as acusações, e propôs até à rival Ericsson que ambas empresas tornassem público o código-fonte do software vinculado aos equipamentos 5G, para aumentar a transparência e o escrutínio público e demonstrar assim a inexistência de portas ocultas. Mas Borje Erkhlom, CEO da empresa sueca, rejeitou o desafio, argumentando: “Acreditamos que os testes pós-desenvolvimento e a disponibilização do código-fonte têm o risco de criar um falso sentimento de segurança [aos operadores]”. Mas que melhor forma existiria de verificar a existência ou não de buracos na segurança senão através da abertura dos códigos-fonte?

Para Ren Zhengfei, presidente da Huawei, o problema não é a segurança e sim o avanço que conta a sua empresa nessa área: “As nossas estações base de 5G podem ser instaladas à mão. Não são precisas torres nem gruas nem cortar estradas para construí-las, já que têm o tamanho de uma maleta. É por isso que foi precisamente o departamento de 5G o objeto dos ataques dos EUA”, disse.

O que levantou ainda mais dúvidas sobre a acusação dos Estados Unidos à Huawei foi o facto de Trump, depois de reiterar que a Huawei é “muito perigosa” do ponto de vista “de segurança e militar”, ter admitido tirar afinal a empresa da lista negra na qual foi incluída caso haja um acordo comercial com a China: “Se fizéssemos um acordo, poderia imaginar a Huawei a ser possivelmente incluída sob alguma forma ou em alguma parte do mesmo”, disse o presidente dos EUA. Ora se o problema é de segurança nacional, como é que um acordo comercial, que não versa essas questões, poderia resolvê-lo? Ou não será que o problema é mesmo comercial e de domínio tecnológico e o que a Casa Branca pretende é apenas ganhar tempo e forçar a Huawei a marcar passo?

Escalada da guerra comercial

Seja como for, os últimos dias trouxeram uma escalada da guerra comercial e não mostraram qualquer tendência para acordo. No domingo 2 de junho, o vice-chefe da equipa chinesa que negocia as condições para pôr fim à guerra comercial entre EUA e China, Wang Shouwen, que é também vice-ministro do comércio, disse que a iniciativa dos Estados Unidos contra a Huawei frustrou severamente as negociações, que já estão a entrar no seu segundo ano.

O porta-voz chinês ameaçou responder a esse ataque e às anunciadas novas tarifas que penalizam as exportações chinesas com a elaboração de uma lista de empresas estrangeiras e indivíduos “não confiáveis” e potencialmente restringindo as exportações chinesas de “terras raras”.

Conhecidas também como o “ouro do século 21”, as terras raras são 17 metais raros e valiosos como o neodímio, utilizado em discos rígidos de computador; o lantânio, usado em lentes de câmaras e telescópios; ou o praseodímio, utilizado para criar materiais de alta resistência usados em motores de aviões.

A China tem em suas mãos 97% da produção mundial de terras raras. De acordo com Wang Shouwen, “se alguns países usam terras raras para fabricar produtos com o objetivo de impedir o desenvolvimento da China, isso é inaceitável”, ameaçou.

Pressões da Casa Branca na Europa

Até agora, os países mais fortes da União Europeia têm rejeitado os apelos dos Estados Unidos para expulsarem a Huawei das redes 5G em instalação atualmente. Mas as pressões não param. O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, ameaçou que a “decisão soberana” dos países em relação à tecnologia e equipamentos que vão usar nas redes 5G terá consequências. “Há o risco de termos de mudar o nosso comportamento à luz do facto de que dados de cidadãos privados ou dados de segurança nacional circulem através de redes nas quais não confiamos”, disse na sexta 31 de maio. Recorde-se que em 2013 se descobriu que a própria Angela Merkel tinha o seu telemóvel sob escuta. Quem ouvia era a NSA dos Estados Unidos. Na época, o presidente Barack Obama pediu oficialmente desculpas.

O governo português foi alvo das mesmas pressões. No último dia de fevereiro deste ano, houve um encontro entre representantes do governo e uma comitiva norte-americana liderada pelo presidente da Comissão Federal das Comunicações dos EUA (FCC), Ajit Pai, e o embaixador norte-americano em Portugal, George E. Glass. Depois desta reunião, Pai e Glass falaram com alguns média portugueses, entre eles o Público, e reafirmaram que a participação chinesa, nomeadamente da Huawei, na infraestrutura das redes 5G “constitui um risco” que Portugal não deve correr, sob pena de criar desconforto em Washington.

A Altice, porém, confirmou que mantém o acordo firmado já com a empresa chinesa e que irá usar os equipamentos da Huawei na sua rede 5G.

A vantagem do software livre

Voltando a uma questão que ficou em aberto atrás: como ficam os proprietários de telemóveis Android? A Google não vai retirar remotamente o sistema operativo dos telemóveis que já estão nas mãos dos utilizadores; e a Huawei garante que vai continuar a fornecer as atualizações de segurança. Mas, logo que entrar em vigor a “lista negra”, daqui a três meses, a Huawei deixará de poder vender os seus telemóveis com o Android instalado.

Acontece que isso não é tão problemático quanto parece à primeira vista. Por um motivo simples: o Android é baseado no Linux, um sistema operativo software livre, usa o kernel (o núcleo do sistema operativo) Linux, e apenas partes do Android são proprietárias, não tendo o código fonte disponível. Estas partes correspondem ao Googleplay, o aplicativo que acede ao repositório de aplicações da Google e instala ou desinstala aplicações.

Mas já há sistemas similares ao Android, e até melhorados em relação a este, que são totalmente free software. Um exemplo é o LineageOS, que já tem uma versão adaptada a pelo menos dois modelos da Huawei, o P20 pro e o Honor View 10.

A decisão da Google, que comprou a empresa Android em 2005, de apostar no Linux constituiu uma comprovação de que o software livre não é uma utopia de nerds, mas uma forma de desenvolver programas de computador eficaz e segura.

Por que a Google se baseou no Linux e não desenvolveu um sistema operativo de raiz? Por várias razões: por um lado, não é fácil nem rápido desenvolver um sistema operativo a partir do zero – e seria uma opção estúpida não aproveitar a maturidade e a eficácia do Linux. Se a Google queria reagir à criação do iPhone, a melhor solução era adaptar o Linux aos sistemas móveis e à interface touchscreen. Por outro lado, para responder ao habitual modelo de negócios da Apple – que se responsabiliza sempre pela produção exclusiva dos seus software e do hardware –, a Google pretendia ampliar as parcerias para dar mais abrangência ao novo sistema. Por isso, formou a Open Handset Alliance, um consórcio de empresas de tecnologia como a Google, de fabricantes de telemóveis como a HTC, a Motorola e a Samsung, empresas de telecomunicações como a Sprint e a T-Mobile, e fabricantes de chips como a Qualcomm e a Texas Instruments com o objetivo de desenvolver “a primeira aberta e abrangente plataforma para telemóveis”.

Esse modelo funcionou: os smartphones Android multiplicaram-se a uma rapidez impressionante. O primeiro iPhone foi lançado em junho de 2007. O primeiro telemóvel Android, um HTC, só saiu um ano depois. Em 2012, o iPhone e os smartphones Android tinham 25% do mercado cada, dividindo com outros sistemas como o Symbian OS, o series 40 da Nokia, o Windows Phone. No final de 2018, o mercado já só contava praticamente com duas alternativas: o IOS, o sistema operativo do iPhone, com 21,9% e o Android com incríveis 75%.

A plataforma aberta também contribuiu para a multiplicação dos aplicativos. E surgiu um fenômeno que também vinha da tradição do Linux: milhares de programadores começaram a fazer versões modificadas do Android, com alterações gráficas, melhorias várias e versões adaptadas a modelos de smartphones mais antigos para os quais o fabricante deixou de fornecer as novas versões do sistema operativo.

Foi destas “mods” que nasceu o LineageOS e tantas outras “distribuições”. E é por isso que a Huawei não terá qualquer dificuldade em fazer a sua própria versão do sistema operativo próprio, que até já tem nome: Hongmeng, que será compatível com todas as aplicações do Android. Não lhe será difícil também lançar uma loja própria de aplicativos, concorrente ao Google Play, provavelmente baseada numa das já existentes.

Quanto aos microprocessadores, o problema parece ser mais complexo. A ARM fazia os projetos de arquitetura de chips de baixo consumo de energia. Os aparelhos mais recentes da Huawei usam o processador Kirin 980, produzido pela sua subsidiária HiSilicon, mas desenvolvido sobre a arquitetura ARM. A Huawei poderá continuar a usar e produzir os chips já existentes, bem como o Kirin 980 e a próxima geração do processador, o Kirin 985, que já tem o seu projeto concluído. Mas para desenvolvimentos futuros, a empresa será forçada a projetar a arquitetura dos próximos processadores, o que lhe pode trazer dificuldades e levar tempo.

Futuro imprevisível

O episódio Huawei significou uma escalada significativa na guerra comercial entre os Estados Unidos e a China. Os resultados são imprevisíveis. Por enquanto, os Estados Unidos decidiram suspender os efeitos da “lista negra” por três meses, e Trump admite ainda a possibilidade de um acordo. A verdade é que o nível de interligação das duas economias é tal que a escalada da guerra fará vítimas dos dois lados. Se a China retaliar usando o seu controlo sobre a produção das terras raras, ou se impedir o fabrico dos iPhones na China, serão os dois lados a sofrer. Mesmo que a China nada fizesse – o que parece impossível – o simples facto de perderem um cliente como a Huawei causa dificuldades a muitas empresas norte-americanas fabricantes de componentes, como é o caso da NeoPhotonics, empresa fabricante de equipamentos de rede, cujos contratos com a Huawei representam 44% de todo o seu rendimento.

Que repercussão terá na economia mundial uma guerra de sanções dos dois lados? O economista espanhol Juan Torres López considera que uma nova crise global pode ser provocada pelas bolsas de valores, onde se acumulam as bolhas especulativas. O ataque dos EUA à Huawei pode ser a centelha que provoque a desestabilização de bolsas já de si com pouca estabilidade.

Quem viver, verá.

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