Biden e a nova fachada do império

Progressista no plano interno, presidente mantém a geopolítica agressiva de seus antecessores. Tentativa de apagar os desastres – em especial no Oriente Médio – não esconde: China e Rússia estão no alvo, e os EUA não descartam a força bruta

Por Chris Hedges, no AlterNet, com tradução em A Terra é Redonda

A derrota dos Estados Unidos no Afeganistão é um de uma sequência de erros militares catastróficos que anunciam a morte do império americano. Com exceção da primeira Guerra do Golfo, travada em grande parte por unidades mecanizadas no deserto aberto que – sabiamente – não tentaram ocupar o Iraque, a liderança política e militar dos Estados Unidos tropeçou de um desastre militar a outro. Coreia. Vietnã. Líbano. Afeganistão. Iraque. Síria. Líbia. A trajetória dos fiascos militares espelha os tristes fins dos impérios chinês, otomano, habsburgo, russo, francês, britânico, holandês, português e soviético. Enquanto cada um desses impérios decaiu com suas próprias peculiaridades, todos eles exibiram padrões de dissolução que caracterizam o experimento americano.

A inépcia imperial é acompanhada pela inépcia doméstica. O colapso do bom governo em casa, com os sistemas legislativo, executivo e judicial capturados pelo poder corporativo, assegura que os incompetentes e os corruptos, aqueles dedicados não ao interesse nacional mas ao inchaço dos lucros da elite oligárquica, conduzem o país a um beco sem saída. Governantes e líderes militares, movidos pelo interesse próprio subornável, são frequentemente personagens bufões numa grande opereta cômica. Como pensar de outra forma em Allen Dulles, Dick Cheney, George W. Bush, Donald Trump ou o desafortunado Joe Biden? Embora sua vacuidade intelectual e moral seja muitas vezes sombriamente divertida, é assassina e selvagem quando dirigida às suas vítimas.

As guerras de duas décadas no Oriente Médio, o maior erro estratégico da história americana, só deixaram em seu rastro um estado fracassado após o outro. No entanto, ninguém da classe dominante é responsabilizado. Não há um único caso desde 1941, quando os golpes, assassinatos políticos, fraude eleitoral, propaganda obscura, chantagem, sequestro, campanhas brutais de contrainsurgência, massacres sancionados pelos EUA, tortura em locais clandestinos mundo afora, guerras por procuração ou intervenções militares realizadas pelos Estados Unidos resultaram no estabelecimento de um governo democrático.

A guerra, quando é travada para servir a absurdos utópicos, como a implantação de um governo títere em Bagdá, que converterá a região, inclusive o Irã, em protetorados americanos, ou quando, como no Afeganistão, não há visão alguma, afunda-se num atoleiro. A alocação massiva de dinheiro e recursos para os militares dos EUA, que inclui o pedido de Biden de 715 bilhões de dólares para o Departamento de Defesa no ano fiscal de 2022, um aumento de 11,3 bilhões de dólares, ou 1,6%, em relação a 2021, não é, afinal, sobre defesa nacional. O dilatado orçamento militar é elaborado, como Seymour Melman explicou em seu livro, “The permanent war economy” [Praeger, 1970], antes de tudo para evitar o colapso da economia americana. Tudo o que realmente fazemos são armas. Uma vez compreendido isto, a guerra perpétua faz sentido, pelo menos para aqueles que lucram com ela.

A ideia de que a América é uma defensora da democracia, da liberdade e dos direitos humanos seria uma grande surpresa para aqueles que viram seus governos eleitos democraticamente subvertidos e derrubados pelos Estados Unidos no Panamá (1941), Síria (1949), Irã (1953), Guatemala (1954), Congo (1960), Brasil (1964), Chile (1973), Honduras (2009) e Egito (2013). E esta lista não inclui uma série de outros governos que, apesar de despóticos, como no caso do Vietnã do Sul, Indonésia ou Iraque, foram vistos como inimigos dos interesses americanos e destruídos, em cada caso tornando a vida dos habitantes destes países ainda mais miserável.

Passei duas décadas nos confins do império como correspondente estrangeiro. A retórica floreada utilizada para justificar a subjugação de outras nações para que as corporações possam saquear recursos naturais e explorar força de trabalho barata é exclusivamente para consumo doméstico. Os generais, operadores de inteligência, diplomatas, banqueiros e executivos corporativos que administram o império acham este discurso idealista risível. Eles desprezam, com boa razão, os liberais ingênuos que pedem “intervenção humanitária” e acreditam que os ideais usados para justificar o império são reais, que o império pode ser uma força para o bem. Estes liberais intervencionistas, os idiotas úteis do imperialismo, tentam civilizar um processo que foi criado e concebido para reprimir, intimidar, saquear e dominar.

Os liberais intervencionistas, por cobrirem-se de altos ideais, são responsáveis por inúmeros desastres militares e de política externa. O chamado de liberais intervencionistas como Barack Obama, Hillary Clinton, Joe Biden, Susan Rice e Samantha Power para financiar os jihadistas na Síria e depor Muammar Gaddafi na Líbia e alugar esses países – como no Afeganistão e no Iraque – como feudos de guerra. Os liberais intervencionistas também são pontas de lança na campanha para aumentar as tensões com a China e a Rússia.

A Rússia é culpada por interferir nas duas últimas eleições presidenciais em nome de Donald Trump. A Rússia, cuja economia é aproximadamente do tamanho da economia italiana, também é atacada por desestabilizar a Ucrânia, apoiar Bashar al-Assad na Síria, financiar o partido francês Frente Nacional [agora chamado Reagrupamento Nacional] e invadir computadores alemães. Biden impôs sanções à Rússia – incluindo limites à compra de dívida soberana recém-emitida – em resposta a alegações de que Moscou estava por trás de uma invasão à SolarWinds Corp. e trabalhou para frustrar sua candidatura.

Ao mesmo tempo, os liberais intervencionistas estão orquestrando uma nova guerra fria com a China, justificando-a pela realização pelo governo chinês de um genocídio contra sua minoria uigur, a repressão do movimento pró-democracia em Hong Kong e o roubo de patentes americanas. Como no caso da Rússia, foram impostas sanções contra a elite governante do país. Os EUA também estão realizando manobras militares provocativas ao longo da fronteira russa e no Mar do Sul da China.

A crença central dos imperialistas, quer venham na forma de um Barack Obama ou de um George W. Bush, é o racismo e o chauvinismo étnico, a noção de que aos americanos é permitido, devido a atributos superiores, impor pela força seus “valores” às raças e povos menores. Este racismo, realizado em nome da civilização ocidental e de sua supremacia branca resultante, une os imperialistas raivosos e os liberais intervencionistas nos partidos Republicano e Democrático. É a doença fatal do império, captada no romance de Graham Greene O americano tranquilo e de Michael Ondaatje O paciente inglês.

Os crimes do império sempre geram contraviolência que é então usada para justificar formas mais duras de repressão imperial. Por exemplo, os Estados Unidos rotineiramente sequestravam os jihadistas islâmicos que lutavam nos Bálcãs entre 1995 e 1998. Eles foram enviados ao Egito – muitos eram egípcios – onde foram torturados de maneira selvagem e geralmente executados. Em 1998, a Frente Islâmica Internacional para a Jihad disse que realizaria uma greve contra os Estados Unidos após os jihadistas terem sido sequestrados e transferidos para locais clandestinos da Albânia. Eles cumpriram sua ameaça de explodir inúmeros caminhões-bomba nas embaixadas dos Estados Unidos no Quênia e na Tanzânia, que deixaram 224 mortos. É claro que as “entregas extraordinárias” pela CIA não terminaram e os ataques dos jihadistas também não.

Nossos fiascos militares de décadas, uma característica de todos os últimos impérios, são chamados de “micromilitarismo”. Os atenienses engajaram-se no micromilitarismo durante a Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.) quando invadiram a Sicília, sofrendo a perda de 200 navios e milhares de soldados. A derrota desencadeou revoltas bem-sucedidas em todo o império ateniense. O império romano, que durou dois séculos em seu auge, criou uma máquina militar que, como o Pentágono, era um estado dentro de um estado. Os governantes militares de Roma, liderados por Augusto, exterminaram os remanescentes da anêmica democracia de Roma e iniciaram um período de despotismo que viu o império se desintegrar sob o peso de gastos militares extravagantes e corrupção. O império britânico, após a loucura militar suicida da Primeira Guerra Mundial, terminou em 1956, quando atacou o Egito numa disputa sobre a nacionalização do Canal de Suez. A Grã-Bretanha foi forçada a se retirar de modo humilhante, dando poder a líderes nacionalistas árabes como Gamal Abdel Nasser do Egito e sentenciando o domínio britânico sobre suas poucas colônias remanescentes. Nenhum desses impérios recuperou-se.

“Enquanto os impérios em ascensão são frequentemente judiciosos, até mesmo racionais em sua aplicação de força armada para a conquista e controle de domínios ultramarinos, os impérios em declínio estão propensos a exibições de poder irrefletidas, sonhando com ousados golpes de mestre militares que de alguma forma recuperariam prestígio e poder perdidos”, escreve o historiador Alfred W. McCoy em seu livro “In the shadows of the American century: the rise and decline of US global power” [Haymarket Books, 2017]: “muitas vezes irracionais mesmo do ponto de vista imperial, estas operações micromilitares podem gerar despesas hemorrágicas ou derrotas humilhantes que só aceleram o processo já em andamento”.

Quanto pior fica em casa, mais o império precisa fabricar inimigos dentro e fora. Esta é a verdadeira razão do aumento das tensões com a Rússia e a China. A pobreza da metade da nação e a concentração de riqueza nas mãos de uma pequena cabala oligárquica, o assassinato indiscriminado de civis desarmados pela polícia militarizada, a raiva das elites dirigentes, demonstrada pela quase metade dos eleitores votando num vigarista e demagogo e uma multidão de seus partidários invadindo a capital, são os sinais internos da desintegração. A incapacidade dos serviços nacionais de saúde com fins lucrativos de lidar com a pandemia, a aprovação de uma lei de alívio da Covid e a proposta de uma lei de infraestrutura que entregaria a maior parte de cerca de 5 trilhões de dólares para as corporações enquanto lança migalhas – um cheque de 1.400 dólares para um cidadão em profunda dificuldade financeira – só fomentarão o declínio.

Devido à perda de empregos sindicalizados, ao declínio real dos salários, à desindustrialização, ao subemprego crônico e ao desemprego e à punição dos programas de austeridade, o país é flagelado por uma infinidade de doenças de desespero, incluindo vícios em opioides, alcoolismo, suicídios, jogos de azar, depressão, obesidade mórbida e tiroteios em massa – desde 16 de março, os Estados Unidos tiveram pelo menos 45 tiroteios em massa, inclusive oito pessoas mortas numa instalação da FedEx em Indiana na sexta-feira, três mortos e três feridos num tiroteio em Wisconsin no domingo, e outros três mortos num tiroteio em Austin no domingo. Estas são as consequências de uma sociedade profundamente perturbada.

A fachada do império é capaz de mascarar a podridão dentro de suas fundações, muitas vezes por décadas, até que, como vimos com a União Soviética, o império parece se desintegrar repentinamente. A perda do dólar como moeda de reserva global provavelmente marcará o capítulo final do império americano. Em 2015, o dólar respondeu por 90% das transações bilaterais entre a China e a Rússia, uma porcentagem que desde então caiu para cerca de 50%. O uso de sanções como arma contra a China e a Rússia pressiona esses países a substituir o dólar por suas próprias moedas nacionais. A Rússia, como parte deste afastamento do dólar, começou a acumular reservas de yuan.

A perda do dólar como moeda de reserva mundial aumentará instantaneamente o custo das importações. Resultará em desemprego nos níveis da época da  Grande Depressão. Forçará o império a se contrair dramaticamente. À medida que a economia piorar, estimulará um hipernacionalismo que provavelmente se expressará através de um fascismo cristianizado. Os mecanismos, já em vigor, de controle social total, polícia militarizada, suspensão das liberdades civis, vigilância governamental por atacado, leis de “terrorismo” reforçadas que levam as pessoas ao maior sistema prisional do mundo e a censura controlada pelos monopólios da mídia digital cimentarão sem dificuldades um estado policial. Nações que entram em crises tão severas procuram desviar a fúria de uma população traída para bodes expiatórios estrangeiros. A China e a Rússia serão usadas para preencher esses papéis.

A derrota no Afeganistão é uma história familiar e triste, uma história que todos aqueles cegos pela arrogância imperial toleram. Contudo, a tragédia não é o colapso do império americano, mas que a incapacidade de autocrítica e autocorreção, à medida que morre, atacará numa fúria cega e rudimentar inocentes no país e no exterior.

*Chris Hedges é jornalista. Autor, entre outros livros, de Empire of Illusion: The End of Literacy and the Triumph of Spectacle (Nation books).

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