Amazonas, imagem do despreparo contra pandemia

Com mais de 90% dos leitos ocupados, ausência de exames e contaminação em massa nos hospitais, profissionais da saúde ainda enfrentam exposição desprotegida ao vírus. Dois médicos já morreram. Em meio ao caos, governo do PSC não reage

Por Ricardo Senra, na BBC Brasil

“Sempre houve déficit no Amazonas, sempre faltou vaga. Sou formada há mais de 10 anos e sempre vi pacientes nos corredores das emergências porque não tem lugar nas enfermarias”, conta uma médica que atua em emergências, UTIs e em ambulâncias do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) de Manaus.

Hoje, a profissional está na linha de frente do combate ao novo coronavírus no Estado.

“A piora é substancial. Sem macas, agora os pacientes ficam em cadeiras nos corredores das emergências. São pessoas com suspeita de covid-19 contaminando todo mundo. A gente não sabe quem tem, quem não tem, porque até os exames estão em falta”, diz.

+ OUTRAS PALAVRAS é financiado pelas pessoas que o leem. Faça parte >>>

“A equipe de enfermagem também é a que mais sofre: eles não têm equipamentos de proteção individual. Não têm, simplesmente não têm.”

A cena narrada pela médica é repetida por outros quatro profissionais de saúde do Amazonas ouvidos pela BBC News Brasil ao longo da semana.

O Estado tem a pior concentração de casos confirmados do Brasil: 323,7 a cada milhão de habitantes (quase o triplo da média nacional: 111/milhão).

Além de hospitais superlotados e falta de equipamentos, profissionais denunciam escassez de exames, salários atrasados e riscos enfrentados por médicos e enfermeiros.

“Está sendo o caos”, diz uma das profissionais, que conta que colegas têm comprado equipamentos do próprio bolso para poderem trabalhar. “Álcool 70, coisas básicas, máscara, capote de proteção. Compramos praticamente tudo”acrescenta ela, com a voz embargada.

“Atualmente, a gente tem quer rezar para o paciente não chegar em estado grave.”

Com mais de 90% dos leitos ocupados por pacientes com o novo coronavírus, segundo o governador, o Estado recebeu do governo federal uma verba extraordinária de mais de R$ 40 milhões, para o combate específico à covid-19, doença causada pelo vírus.

Médicos, enfermeiros, procuradores e promotores, no entanto, questionam onde o dinheiro tem sido investido.

Silêncio

Nesta semana, a Sociedade Brasileira de Cardiologia questionou o governo do Estado, em uma carta à qual a reportagem teve acesso, sobre o uso de verbas federais para o combate à covid-19.

“Para onde estão sendo enviados os recursos e os investimentos da área de Saúde no Amazonas?”, diz o texto.

Na quarta-feira, o Ministério Público Federal (MPF) e o Ministério Público do Estado do Amazonas (MP) ajuizaram uma Ação Civil Pública na mesma linha.

No texto, eles pedem que o Estado seja obrigado “a publicar informações claras e atualizadas, no site na internet, sobre verbas federais já recebidas e a receber e sobre o repasse, pelo Ministério da Saúde, de respiradores, equipamentos de proteção individual (EPIs) e testes.”

A BBC News Brasil procurou, por telefone, e-mail e mensagem de texto, o governo e a secretaria de Saúde do Estado em busca de esclarecimentos. Nas mensagens, a reportagem pergunta como as verbas federais de urgência destinadas ao enfrentamento do novo coronavírus têm sido usadas no Estado.

A BBC News Brasil também enumerou as reclamações dos profissionais de saúde sobre falta de equipamentos, superlotação de unidades e dúvidas sobre o uso das verbas.

Autoridades questionam onde verbas federais estão sendo investidas

Segundo o portal da Transparência, nos meses de março e abril, R$ 46.138.354,09 foram transferidos pelo governo federal para o Fundo Estadual de Saúde (FES), administrado pela Secretaria Estadual de Saúde.

O valor deveria ser destinado especificamente ao “enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional decorrente do coronavírus”.

Na ação ajuizada na Justiça Federal, o Ministério Público destaca “que o Estado já recebeu verbas federais para o combate ao Covid-19, como se extrai do portal do Fundo Nacional de Saúde, o que justifica a prestação dessa informação”.

Ainda segundo a ação, “o MPF e o MP-AM destacam que não foram adotadas até hoje, mais de um mês após o início do surto, medidas que assegurem a transparência das ações públicas”.

Mortes de médicos

A carta enviada pela sociedade médica também discute o “apagão” de verbas emergenciais no Estado.

“Há de se ter clareza nas informações destes dados (financeiros) e não auferir capital político nessa conjuntura”, diz o texto.

Ao menos dois médicos morreram na última semana, em Manaus, após serem internados com suspeita de covid-19. Um deles teve a doença foi confirmada, segundo o Conselho Regional de Medicina do Amazonas. Ainda não há resultado dos testes para o segundo, enquanto as mortes de outros três profissionais, segundo médicos do Estado, também estariam ligadas à doença.

“Entendemos que é nosso dever salvar vidas. Somos fiéis ao nosso juramento, mas não podemos, num quadro caótico como esse, sermos negligentes. Temos consciência que muito mais pode ser feito sem sacrificar a vida dos colegas e dos cidadãos. Quantos mais profissionais da saúde precisam perder suas vidas para haver mudanças na saúde pública do Estado?”

À BBC News Brasil, uma das diretoras do conselho, a cardiologista Wladia de Albuquerque Silva, descreveu a situação dos profissionais de saúde sem equipamentos “como ir para a guerra sem nenhuma arma”.

“A gente sabe que o Estado tem sua receita, sabe que esse valor foi repassado pelo governo federal, mas a gente não vê recursos sendo destinados para lugar nenhum aqui em Manaus. Estamos explodindo de casos. E não é uma situação só local, no interior é pior.”

Boa parte do efetivo de atendimento de saúde do Amazonas não é concursada e oferece serviços terceirizados ao Estado por meio de cooperativas. Dois enfermeiros que trabalham neste regime disseram à reportagem que estão com salários atrasados há dois meses.

No fim de março, já em meio à pandemia, quando o Estado já tinha mais de 80 casos confirmados, enfermeiros fizeram um protesto em Manaus pedindo a regularização dos pagamentos.

Alguns afirmaram estar há oito meses sem receber o salário regular. A BBC News Brasil questionou o Estado sobre os atrasos, mas não teve resposta.

Limite

Em uma semana, os casos confirmados da doença no Estado aumentaram 192% e os registros de óbitos subiram 360%. Esses dados colocam o Amazonas na fase de “aceleração descontrolada” do novo coronavírus, segundo o Ministério da Saúde.

Segundo o governo do Amazonas, 18 dos 61 municípios do interior têm casos da doença.

Na semana passada, em entrevista a jornalistas, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, disse que a situação em “Manaus nos preocupa muito”.

Ao jornal El País Brasil, o governador do Estado, Wilson Lima, disse que “90% dos leitos estão com pacientes de covid-19”. “É uma corrida contra o tempo”, afirmou.

Além dos pacientes, a corrida afeta o cotidiano e a saúde mental de profissionais de saúde, que tentam como podem dar conta da nova demanda.

“A gente tenta o máximo possível preservar a vida do paciente, até se expondo em algumas situações”, diz uma profissional.

“Apesar da nossa situação ruim de material e tudo mais, o material humano está sendo nota 10. Vejo cada um tentando o máximo para salvar uma pessoa e enfrentar uma situação que chega no limite. É muito triste.”

Para médicos ouvidos pela reportagem, a crise expôs um problema antigo no Estado.

“A gente tinha até desistido de (esperar) alguma ação dos governantes, porque eles sempre usam a saúde como massa de manobra para poderem se eleger, mas de efetivo não faziam nada. Isso tem anos já”, diz uma médica concursada.

“Agora, a pandemia do coronavírus mostrou o tamanho da deficiência da saúde aqui no Amazonas. E só tende a piorar.”

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também: