O envelhecer não cabe no fiscalismo
A população idosa nunca foi tão grande. Em novo livro, autor destrincha o fenômeno e aponta: resposta neoliberal à nova pirâmide demográfica, de retirada de direitos e financeirização da velhice, ampliará desigualdades. Leia prefácio da obra
Publicado 09/06/2026 às 20:17 - Atualizado 09/08/2026 às 21:50

A pirâmide etária do Brasil (e do mundo) está se transformando: a população está mais envelhecida do que em qualquer momento da história. Esta transição demográfica pode ser vista sob duas óticas. Uma delas, a preferida dos poderes dominantes, propõe ver os idosos como fardo para o país e para as finanças nacionais. Por isso, esta visão defende seguidas reformas da Previdência e outras medidas de inspiração neoliberal que reduzem os direitos dos mais velhos, ampliando o fosso da desigualdade social.
Outro caminho é ver as demandas deste crescente segmento da população como, por exemplo, um bom motivo para reforçar o complexo econômico-industrial da saúde (e se o Brasil produzisse autonomamente fraldas geriátricas, remédios e equipamentos que auxiliam os idosos?) e realizar reformas progressivas que fortaleçam o bem-estar e o direito à saúde dos cidadãos da terceira idade, entre outras ações em setores como Educação, Trabalho e Seguridade Social.
Lançado neste mês de junho pela Editora Unicamp, o livro A (difícil) decisão de envelhecer oferece uma visão aprofundada sobre este conjunto de questões que envolvem o envelhecimento da população. Seu autor, o pesquisador Jorge Félix, é professor do curso de Gerontologia da Universidade de São Paulo (USP), doutor em Ciências Sociais (PUC-SP) e dedica-se há décadas ao estudo do tema. Neste boletim, já foi entrevistado sobre temas como a financeirização da velhice e os rumos da Política Nacional de Cuidados (1, 2).
A seguir, Outra Saúde disponibiliza com exclusividade para seus leitores o prefácio do livro, escrito por Guita Grin Debert, antropóloga e professora da Unicamp, que apresenta alguns dos debates contidos na obra. Boa leitura! (G. A.)
A (difícil) decisão de envelhecer, de Jorge Félix, aborda de maneira instigante um amplo leque de questões relacionadas com o envelhecimento. Doutor em Sociologia e jornalista, o autor sabe dissecar em cores vivas as principais teorias sobre os desafios de envelhecer, mas indo sempre muito além delas. Félix contesta seus pressupostos e provoca reconfigurações originais, construídas a partir de suas reflexões e ensinamentos como professor da Universidade de São Paulo, pesquisador em pós-doutorado na Universidade Estadual de Campinas e como um observador atento e crítico das políticas ensaiadas para esse setor.
O autor tem plena consciência do caráter socialmente construído dos significados e das ações públicas voltadas para o segmento mais velho da população e rebate as tentativas de homogeneização das representações sobre a velhice que encobrem a variedade de experiências vividas pelas pessoas de 60 anos ou mais. Sabe que uma questão que dizia respeito à família, às associações filantrópicas ou à previdência individual passou a ser uma responsabilidade social, com a universalização do direito à aposentadoria e a implementação de um conjunto de orientações e intervenções, muitas vezes contraditórias, pelos aparelhos de Estado e outras organizações privadas empenhadas em transformar a velhice numa experiência mais gratificante. A criação de grupos de convivência de idosos, universidades para a terceira idade e de outros espaços de convivência dos mais velhos permitiu o estabelecimento de relacionamentos independentes do restrito círculo familiar.
Criaram-se um campo de saber específico, a geriatria, como uma especialidade médica voltada para os idosos, e a gerontologia, que abarca outros profissionais encarregados de compreender e definir – de maneira interdisciplinar – os problemas que afetam as pessoas mais velhas. É na formação desses especialistas que o autor vem há décadas ministrando aulas, dedicando-se à formação de bacharéis e pós-graduandos nessa área de estudos.
Com este livro, que reúne crônicas e artigos publicados originalmente em jornais e revistas, aprendemos que a constituição de um problema social não é resultado automático do mau funcionamento da sociedade, mas requer um trabalho incessante para a conquista da atenção pública, que supõe a ação de grupos socialmente interessados em inserir o problema no campo das preocupações sociais.
Em tom cristalino, recheado de comentários sobre textos literários e filmes, compreendemos os desafios de uma economia da longevidade, com os impasses trazidos pelo aumento crescente da proporção de pessoas idosas na população; os avanços da gerontecnologia, que é a tecnologia para os cuidados de longa duração de pessoas idosas; e os reveses da financeirização da velhice.
Crítica veemente é feita às lentes fiscalistas da seguridade social – que responsabilizam as aposentadorias pela crise financeira – e ao familismo, que tende a atribuir às famílias obrigações que são do Estado. A dimensão globalizada dos problemas enfrentados por diferentes países e os exageros do neoliberalismo são tratados com precisão, com a demonstração de como as políticas que pregam a ampliação do tempo de contribuição, o aumento da idade mínima para a aposentadoria e a privatização do sistema de Previdência Social acabam acirrando as desigualdades socioeconômicas. Esses modelos têm servido de script para economistas e políticos brasileiros que, em detrimento da coesão social, que é o objetivo principal dos Estados modernos, se voltam exclusivamente para a garantia do superávit primário.
O envelhecimento populacional é um dos principais vetores socioeconômicos do século XXI, e os serviços de saúde e os cuidados de longa duração serão estratégicos na concorrência global e na inserção internacional de países como o Brasil.
O prolongamento da vida humana é certamente um ganho coletivo que não pode ser transformado numa catástrofe fiscal. Daí a centralidade da gerontologia e de análises como a de Félix, cujas pitadas em altas doses todos os diferentes profissionais necessitam quando almejam uma atuação mais abrangente e consequente em seu campo de ação.
Trata-se, portanto, de um livro imprescindível num contexto em que o etarismo e a discriminação da pessoa idosa não podem impedir a construção de uma sociedade mais justa e solidária.
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