ChatGPT Health: IA e saúde aos olhos da mídia

No mundo, 230 milhões perguntam sobre saúde à plataforma da Open AI. Uma minoria entende como funciona. Seu novo produto promete analisar dados médicos dos usuários. Como a IA impacta a cultura, os meios de comunicação e as políticas públicas de saúde?

Créditos: Fast Company
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Um comunicado oficial à imprensa ampliado, replicado das agências internacionais e na editoria de tecnologia. Foi dessa maneira que os principais sites nacionais, como G1, UOL e Folha, anunciaram o lançamento do ChatGPT Health, no último dia 7. 

Onde não há crítica, sobra publicidade. O novo produto da Open AI promete “uma nova experiência em saúde”. Permitirá conexão com apps e tecnologias vestíveis, como pulseiras e smartwatches, para coletar indicadores de saúde e cruzá-los com dados de exames diagnósticos alimentados pelos usuários, entregando, assim, indicadores constantemente atualizados e comentados. A partir dessas informações, poderá oferecer orientações para serem avaliadas em consultas médicas. Uma vez que sabe das condições de saúde preexistentes, poderá informar quais planos e operadoras de saúde são mais recomendados. Completam o pacote dietas e rotinas de treinos e de bem-estar. Tudo isso na palma da sua mão e acionado por voz, personalizado, feito especialmente para você, protegendo e conectando você, sempre com muita segurança e privacidade

É o que vendem, ou melhor, o querem vender, pois a ferramenta ainda não está disponível. No momento, apenas um seleto grupo de usuários assinantes têm acesso ao serviço, em fase final de testes. Para as pessoas interessadas e curiosas, foi aberta uma fila de espera – estratégia que gera burburinho e ajuda a OpenAI a prever o interesse e o retorno financeiro do investimento. 

Parodiando o meme, são muitas camadas envolvidas neste informe publicitário travestido de notícia, possibilitando a leitura crítica não só pela chave da comunicação e saúde, mas também pelos estudos de cultura, de economia política da comunicação, da tecnologia, da gestão pública e do debate sobre soberania e dependência política e econômica em meio à nova desordem mundial. Vamos, então, descascá-las. 

A cultura e os usos culturais que mobilizam a IA

Observando pela lente dos estudos culturais, a Inteligência Artificial é a fronteira entre tecnologia e cultura das mais esperadas, celebradas e temidas. Narrativas de ficção científica, cinema, séries e jogos alimentam imaginários de esperança (utopias de progresso) e medo (distopias de controle); e cumprem, assim, o papel não só de nos entreter, mas também de moldar a percepção de indivíduos e sociedades sobre a IA. Opera-se um processo identitário que parte do imaginário sociotécnico para o campo das emoções e dos valores, fazendo com que robôs, assistentes virtuais e avatares vistos nas telas condensem desejos, expectativas e ansiedades e influenciem como percebemos as relações de trabalho, vigilância, intimidade, conhecimento e saúde.

Se ficarmos só na  indústria do cinema, desde HAL 9000, do filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, (1968), passando pela Skynet, de O Exterminador do Futuro (1984), David, de A.I. – Inteligência Artificial (1999) e Samantha, em Ela (2013), estamos sendo preparados há anos para esse convívio com máquinas que respondem e conversam como humanos por meio do processamento de um setilhão de bytes em segundos a partir de diversas base de informação e muito treinamento. 

Não à toa, o ChatGPT, primeiro produto de IA Generativa a chegar para o grande público, registrou alcance recorde de usuários na esteira de seu lançamento, em 30 de novembro de 2022: bateu um milhão de usuários nos seus cinco primeiros dias e cem milhões de usuários em apenas dois meses, marca esta que o TikTok levou nove meses para alcançar e o Instagram dois anos e meio. Estimativas de dezembro indicam que o número de usuários semanais da plataforma oscila entre 800 e 900 milhões de pessoas. 

Desse contingente, a OpenAI informa que mais de 230 milhões de pessoas globalmente fazem perguntas sobre saúde, dessas, 40 milhões todos os dias, justificando, assim, a pesquisa e desenvolvimento ao longo dos últimos dois anos para a criação dessa nova ferramenta dentro da plataforma.

O Brasil ocupa o 3º lugar no ranking de acesso ao ChatGPT, algo perto de 40 milhões de usuários. No entanto, o consumo, uso e percepção acerca da Inteligência Artificial apresentam grande desigualdade, como indica pesquisa realizada pela Fundação Itaú e DataFolha em julho de 2025, a partir de uma amostra de 2.798 brasileiros. 

Mesmo que a maioria dos entrevistados (82%) já tenha ouvido falar sobre IA, quase a metade (46%) não compreende seu significado. Dos que disseram entender o que é a IA (54%), a maior parte (36%) fez menções relacionadas às finalidades – somente 14% responderam mais acertadamente como ela opera. A IA é presente e utilizada, principalmente, via mídias sociais e apps e plataformas de consumo cultural, como buscadores de filmes e músicas. Numa pergunta estimulada que lista de 12 situações de uso da IA, aspectos ligados à saúde (monitorar atividades físicas, encontrar sugestões de dietas ou auxiliar no diagnóstico médico) aparecem na 6ª posição (44% de citações). Do outro lado da balança, a falta de interesse é a principal resposta entre aqueles que não utilizam ferramentas de IA.

Mídia e IA: entre alianças e disputas

Esse cenário de uso objetificado da IA junto com falta de interesse tem motivos múltiplos. Entre eles, o modelo de produção noticiosa da mídia corporativa brasileira. Se ela faz parte e exerce poder dentro do que entendemos como opinião pública (mesmo que não sozinha e de forma cada vez mais difusa), saber como jornalistas e, principalmente, como as empresas de mídia têm enfrentado essa realidade ocupa aspecto central no nosso debate. 

Do ponto de visto da cobertura, a pesquisa Artificial Intelligence in Brazilian News: a Mixed-Methods Analysis, realizada por pesquisadores da Universidade de Cambridge, de 2024, mostra que o tratamento dado ao lançamento do ChatGPT Health na mídia brasileira é a regra. Os pesquisadores Raphael Hernandes e Guilio Corsi analisaram as notícias produzidas por 13 veículos de mídia, de portais nacionais e regionais a revistas e mídia especializada em tecnologia, durante o ano anterior. Por meio de ferramentas computacionais, puderam identificar as temáticas as quais matérias associavam a  IA, a origem dos textos, os atores mais citados e os episódios relacionados. 

A pesquisa conclui que a cobertura noticiosa sobre IA no Brasil tem predominância relacionada à sua aplicação no trabalho e à discussão de novos produtos, sendo que a maioria dos textos são replicados de agências internacionais de notícias. Como consequência, a alta concentração de fontes ligadas à indústria reproduz o padrão internacional. Segundo Hernandes e Corsi, tal padrão reforça as agendas dos atores corporativos e reduz a compreensão pública sobre os impactos sociais mais amplos da IA. Ainda que pautas como desinformação e deepfake nas eleições e seu impacto na democracia tenham marcado presença no noticiário brasileiro relacionado à Inteligência Artificial, um indicativo da relevância das pautas locais no mapeamento, os pesquisadores apontam que elas aparecem de forma episódica dentro do conjunto das publicações. 

Tal padrão tem esteio direto também nos interesses econômicos e políticos dos conglomerados de mídia. Dados do Instituto Reuters para o estudo do jornalismo informam que mais de 56% dos veículos já utilizam as mais diversas ferramentas de IA na produção de suas matérias e reportagens, e que a maioria absoluta dos editores apoiam o uso dessas nas tarefas no que se chama, no jargão jornalístico, de “cozinha da redação”: todo o trabalho de aferição de dados e metadados, transcrições, checagem de serviços, preços e endereços de estabelecimentos, e assistência à edição do texto final. 

Contudo, os mesmos editores que apoiam largamente esse uso são os representantes diretos dos CEOs e proprietários. Estes, ora direta ou indiretamente, ora de forma surda, ora audível, travam uma queda de braço com as gigantes da tecnologia pelos direitos autorais e comerciais dos conteúdos replicados largamente pelas IAs. O lançamento da iniciativa “Integridade das Notícias na Era da IA”, em setembro de 2025, foi a última movimentação da mídia corporativa global nessa disputa. 

Segundo a Associação Nacional de Jornais (ANJ), uma das signatárias, a iniciativa “incentiva os desenvolvedores a contribuírem e garantirem que a Inteligência Artificial seja segura, confiável e benéfica para o ecossistema de notícias e para o público”. A leitura do manifesto empresarial dá a perceber, contudo, que tal incentivo vem no tom de cobrança: exige que o conteúdo de notícias só deve ser utilizado em modelos e ferramentas de IA generativa com a autorização do detentor dos direitos originais; que o valor desse conteúdo deve ser justamente reconhecido – leia-se: remunerado – quando utilizado para beneficiar terceiros; que as fontes noticiosas devem ser visíveis para os usuários e plurais, abarcando diversos tipos e perfis de veículos de mídia. Por fim, é feito o convite a um diálogo formal entre as empresas de tecnologia e as empresas de mídia em prol de uma IA com padrões de segurança, credibilidade e transparência.

A briga entre esses dois segmentos corporativos vai aumentar ainda mais com a adoção em massa de publicidade pelas plataformas de Inteligência Artificial. A OpenAI, que havia adotado e rapidamente freado a oferta de links publicitários nas suas respostas em 2024, informou a retomada dos anúncios na segunda semana deste janeiro. Os anúncios aparecerão na parte inferior das respostas do ChatGPT, claramente identificados e somente se forem relevantes para a consulta. A matéria da Folha, replicada de agência internacional, conta que, para San Altman, CEO da empresa, “o conteúdo publicitário não pode comprometer a confiabilidade e objetividade das respostas”.

Imagine agora seguinte cena: um usuário do SUS, acompanhado pela Clínica da Família, vinculado a um determinado itinerário terapêutico debatido por profissionais de saúde no matriciamento do caso, resolve assinar o ChatGPT Health e passa a alimentar a plataforma com seus exames diagnósticos; informar os medicamentos receitados, as dietas e orientações recebidas para confirmar se as condutas que recebe de orientação da equipe são adequadas. A cada nova busca, publicidades de medicamentos similares e de alimentos para a sua dieta surgem na tela… 

Quais impactos uma ferramenta de IA com uma vastíssima capacidade de cruzamento de informações, pensada e orientada para o mercado do norte global, pode gerar na percepção de saúde desse usuário, no SUS, na saúde brasileira e nos aspectos da gestão pública e da soberania das nações? Essas questões ficarão para a segunda parte dessa coluna.

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