Brasil aposta na pesquisa nacional, após cortes de Trump na ciência

• Padilha promete investir na pesquisa em saúde • Planos para hospital digital do Brasil • Aumento de violência em escolas • Mais acesso a remédio para doença falciforme • Por que Trump desmonta a Saúde • Cortes no financiamento da África •

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O ministro da Saúde Alexandre Padilha diz enxergar oportunidades de pesquisas no Brasil com os cortes de financiamento feitos pelo governo Donald Trump nos EUA. “O Brasil tem uma oportunidade de atrair pesquisadores, atrair investimentos e eu vou fazer isso enquanto ministro da Saúde. Eu vou buscar atrair investimento internacional, pesquisadores internacionais, para a gente desenvolver e produzir aqui no Brasil as tecnologias que infelizmente o atual governo americano tem cortado o financiamento por discursos de ódio em relação à vacina, questionando a vacina” disse ele. Uma das áreas pensadas é o incremento de pesquisas em vacinas com RNA mensageiro.

A novidade dialoga diretamente com a discussão dos avanços do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS). Em 2023, o governo lançou sua nova política industrial, o Programa Nova Indústria Brasil (NIB) com seis missões, revelando o CEIS enquanto uma delas. A ideia do Complexo é reindustrializar o país através do fomento da indústria de saúde do país. O debate da importância de se ter maior independência do mercado internacional é refletida tanto pelos eixos e objetivos do NIB e do CEIS quanto pela fala do ministro Padilha.

O planejamento do primeiro hospital digital público do Brasil

No dia 26 de março, o ministro da Saúde Alexandre Padilha coordenou uma reunião interministerial para tratar da implementação de um hospital digital e inteligente junto ao Complexo do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP). “Vamos utilizar ferramentas de inteligência artificial para resolver problemas de saúde, de urgência e emergência. A criação de um hospital digital reforça nosso compromisso em reduzir o tempo de espera no SUS e, com isso, salvar vidas”, destacou o ministro Alexandre Padilha.

O objetivo não é somente reduzir filas, mas também auxiliar em pesquisas, tratamentos e procedimentos, além de resolver problemas de saúde de urgência e emergência. Para isso, devem ser priorizadas a atuação em áreas de doenças que demandam tratamento imediato, como neurologia, traumatologia e as próprias emergências. A iniciativa busca financiamento do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), o chamado Banco do BRICS. Uma comitiva brasileira, já em março, foi até a sede do banco na China para apresentar o projeto e avançar na parceria. A previsão inicial é de que o hospital comece a ser construído no final de 2026 e seja finalizado em 2028.

Violência aumentou nas escolas

Uma pesquisa do IBGE apresenta uma das consequências práticas da ascensão de toda uma cultura de extrema-direita na sociedade: o aumento da violência nas escolas. Alvo preferencial das políticas de desvalorização do serviço público, os estabelecimentos estudantis registraram aumento em casos de bullying e sensação de insegurança. Suicídios e aumento de questões relativas à saúde mental também explodiram no período. Os dados foram levantados a partir do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, e da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que publicou o Atlas da violência de 2024.

Para especialistas, há múltiplas razões. Os fatores confluem desde o aumento dos discursos de ódio, inclusive direcionado contra professores, às relações mediadas por redes sociais, até o aumento do acesso a armas, facilitado pelo governo Bolsonaro. No entanto, para além das razões estruturais, existem motivos diretamente relacionados com a ação política do estado em relação ao financiamento da educação, precarizada por políticas de austeridade. Em suma, um ambiente onde professores, funcionários técnico-administrativos e alunos se sentem desvalorizados.

SUS aumentará acesso a remédio contra doença falciforme

O ministério da Saúde anunciou nesta semana a incorporação do deferiprona no sistema de saúde. Dedicado ao tratamento da doença falciforme, causada por excesso de ferro no sangue, o remédio será fornecido aos portadores de todas as formas da doença, e não só da talassemia (anemia crônica), como foi até agora. 

A doença falciforme é mais corriqueira em pessoas negras e se manifesta através da maior dificuldade de circulação de sangue, prejudicada pelo formato de foice dos glóbulos vermelhos, que acumulam o ferro acima da quantidade necessária. O deferiprona facilita o agrupamento da substância e sua eliminação pela urina. Segundo o ministério, a doença hereditária acomete 60 mil pessoas no Brasil, causa dores e prejudica as funções de órgãos vitais, e exige frequentes transfusões sanguíneas.

Cortes e demissões nos EUA ameaçam a saúde da nação

As demissões em massa de funcionários da saúde por parte do governo Donald Trump, que começou nesta terça-feira (1º), irão mitigar amplamente o alcance e a influência dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC). Os CDC são uma agência, ligada ao Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS), responsável pela condução de pesquisas e combate a doenças. A “reorganização” do HHS diminuiu em 18% a força de trabalho nos Centros, além de cortar algumas de suas funções – embora o governo ainda não tenha detalhado quais unidades serão prejudicadas.

A oposição descreve essa “reorganização” como ilegal, pois a decisão não passou pelo Congresso, e seriamente danosa, já que ela coloca a saúde e o bem-estar dos estadunidense em jogo. O perigo da interrupção de pesquisas em doenças como malária, sarampo e poliomielite ameaçam largamente não somente os norte-americanos, mas todo o mundo. 

Tarifas de Trump e financiamento da saúde na África

Com o choque dos mercados globais causado pelas medidas econômicas de Donald Trump, em sua suposta proteção da indústria norte-americana, países africanos preveem duras consequências para sua pauta de exportações. Para Jean Kaseya, diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças da África, as medidas se refletirão em menores orçamentos públicos para financiar os sistemas de saúde do continente, uma vez que a taxação de produtos primários acabará por diminuir as compras dos EUA. Além disso, o CDC africano publicou estudo no qual afirma que os programas de saúde do continente já sofreram 70% de cortes de verbas desde 2021, enquanto as emergências públicas em saúde aumentaram 41% nos países do continente.

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