Álcool: é possível evitar o consumo precoce
Hoje, adolescentes bebem com menos frequência, mas ainda em grandes quantidades. Impactos no SUS – de acidentes a câncer e doenças crônicas – não são contabilizados. Por que alguns programas de prevenção têm falhado e qual o papel do Ministério da Saúde?
Publicado 28/01/2026 às 08:58 - Atualizado 28/01/2026 às 09:01

O consumo de álcool entre crianças e adolescentes segue como um dos principais desafios de saúde pública no Brasil. Embora pesquisas recentes indiquem mudanças geracionais nos padrões de consumo, o impacto sobre o SUS, a persistência do uso abusivo e as dificuldades na implementação de políticas de prevenção revelam um cenário complexo.
À frente de estudos que avaliam programas governamentais nessa área, a professora Zila Sanchez, chefe do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina (Unifesp), sustenta que apenas intervenções fundamentadas em evidências científicas são capazes de produzir efeitos reais e duradouros.
Os efeitos do consumo de álcool extrapolam as estatísticas diretas de dependência. Agressões, acidentes, comportamentos de risco e violências associadas ao uso da bebida, além de cânceres e inúmeras outras doenças crônicas não transmissíveis, geram uma sobrecarga contínua para o Sistema Único de Saúde.
Essas consequências nem sempre são contabilizadas como prejuízos causados pela bebida, mas impactam diretamente os serviços de saúde. Internações, atendimentos de urgência e sequelas físicas e mentais ampliam custos e pressionam uma rede já tensionada, especialmente quando o consumo se inicia de forma precoce.
Padrões de consumo
O III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III) revela um quadro que exige atenção: cerca de 40% dos brasileiros com 14 anos ou mais consomem álcool; aproximadamente 11% apresentam uso abusivo, e 5,7% dos adolescentes já têm transtorno por uso de álcool. Embora outros levantamentos, como o relatório Covitel de 2023, indiquem que jovens da geração Z bebem menos, Zila alerta para leituras simplificadas desses dados.
“Não significa que eles não bebam, mas que o padrão mudou”, explica. Atualmente, observa-se menor frequência de consumo e maior concentração em episódios pontuais, marcados pelo uso de destilados baratos e em grandes quantidades. “Temos trabalhado muito com adolescentes do interior de São Paulo em um estudo financiado pela FAPESP. O que identificamos é que hoje eles bebem o ‘copão’ de 700 ml, na frente da adega, contendo destilado barato e uma mistura de outras bebidas. O controle de venda praticamente não existe, inclusive, o próprio vendedor é adolescente em alguns casos”, relata Zila.
A recente crise envolvendo bebidas adulteradas com metanol explicitou a fragilidade do controle sobre o acesso ao álcool. A falsificação sempre existiu, mas o uso de metanol elevou o risco a um patamar inédito. Entre adolescentes, o medo foi imediato: por algumas semanas, muitos evitaram destilados. O efeito, no entanto, foi passageiro. “O impacto é curto, não muda comportamento no longo prazo”, afirma Zila. A facilidade de compra por aplicativos de entrega, sem qualquer checagem de idade, agrava o problema e neutraliza avanços legais, como o endurecimento das penas para a venda de álcool a menores.
Foco em prevenção
A principal linha de pesquisa de Zila Sanchez é a avaliação de programas já implementados pelo poder público. Nos últimos anos ela foi responsável pela avaliação de dados dos principais programas de prevenção ao uso de drogas do Brasil. No caso do Proerd (Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência) da Polícia Militar, presente em cerca de metade das escolas brasileiras, os estudos apontaram ausência de efeito na redução do uso de álcool e, entre adolescentes mais velhos, até aumento do consumo episódico pesado. Falhas de adaptação cultural, limitações estruturais das escolas e desvios na implementação ajudam a explicar esses resultados.
O programa #Tamojunto, implementado no Brasil desde 2013 como uma adaptação brasileira do europeu Unplugged, tornou-se um caso emblemático. A versão original apresentou redução no consumo de álcool, mas as alterações feitas no Brasil – mudando o foco de “não uso” para redução de danos para adolescentes que ainda não bebiam – resultaram em aumento de 30% na experimentação. “A redução de danos não funciona da mesma forma para menores de idade. Para esse grupo, que está em fase de desenvolvimento, não existe dose segura e falar em redução de danos aumentou o interesse na experimentação entre os que não bebiam”, afirma a pesquisadora. O programa, atualmente disseminado pela Senad (Secretaria Nacional de Política sobre Drogas e Gestão de Ativos), voltou à versão original e demonstra redução de 22% na experimentação entre adolescentes brasileiros.
Já o Famílias Fortes, hoje também disseminado pela Senad, voltado ao fortalecimento das habilidades parentais, um dos principais fatores de proteção ao uso de álcool por adolescentes, apresentou resultados positivos, como a redução da negligência parental e o aumento da disciplina não violenta. Segundo Zila, o programa exemplifica como intervenções bem desenhadas podem atuar sobre fatores de proteção centrais, como vínculo familiar, comunicação e definição de limites.
Da Saúde para a Justiça
A partir de 2023 a prevenção ao uso de álcool e outras drogas migrou do Ministério da Saúde para o Ministério da Justiça, no âmbito da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, sem manter coordenação conjunta de ações com o Ministério da Saúde, como ocorria no passado. Para Zila, essa mudança e segmentação da política dificulta a consolidação de uma abordagem baseada em princípios da saúde pública.
“Entendemos que a prevenção ao consumo de substâncias por adolescentes é uma questão social e de saúde, não necessariamente uma responsabilidade do setor Justiça. É essencial o envolvimento do Ministério da Saúde na disseminação dos programas efetivos ”, defende. Além disso, a fragmentação entre União, estados, municípios e escolas, somada à descontinuidade a cada troca de governo, impede que programas de prevenção se consolidem como políticas de Estado.
Nesse contexto, a pesquisadora destaca o papel da universidade pública: avaliar, corrigir rumos e indicar o que funciona ou não. “Sem ciência, corremos o risco de gastar recursos em intervenções ineficazes ou até prejudiciais”, afirma. Em um país onde o álcool segue sendo a substância mais consumida por adolescentes, transformar evidências científicas em políticas públicas efetivas permanece como um dos maiores desafios para o SUS e para a sociedade.
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