A galope

Na Itália, o médico que se desloca a cavalo. Roberto Anfosso afirma que os pacientes sentem que a visita será mais dedicada

Por Greta di Maria no La Republica, com tradução de Stephan Sperling para o Outra Saúde

23 de fevereiro de 2018

O médico chega a galope. Roberto Anfosso, médico de família da Agência de Saúde Local Cn2, 63 anos, responsabiliza-se pelo cuidado de seu cavalo, lhe dá banho, prepara os arreios. Caso ocorra um chamado, monta em sua sela e corre ao encontro do paciente através dos campos de Verduno, na província de Cuneo. Vinho, avelãs, esperança de vida muito altas em comparação à média Italiana.

Anfosso assemelha-se a um médico de outros tempos, dos romances do oitocentos. Acrescentou aos lados da sela dois alforjes com o necessário para suas visitas: do estetoscópio ao esfigmomanômetro, dos medicamentos aos lençóis, para atender aos mais exigentes. Visita pessoas que têm, em média, 70 anos, um ou outro até mesmo mais de 100. Conta que o cavalo é seu meio preferido para as visitas domiciliares rotineiras, como controle de pressão arterial, ou avaliação de gripes, ou monitoramento glicêmico. “Toda semana percorro por volta de 80 a 100 quilômetros a cavalo” – informa Anfosso – “nos primeiros três anos realizei cerca de mil visitas, agora deixei de contá-las. São muitas.”

O médico monta a cavalo desde os 14 anos, quando a asma o obrigou a renunciar ao futebol. Porém, sua primeira visita a cavalo ocorreu por acaso, em uma tarde, enquanto estava montado, ocioso. “Quando cheguei, o paciente me olhou de forma estranha, estava surpreso, não me deixou entrar de imediato”. Entretanto, Anfosso sustenta que o seu costumeiro modo de visitar tem um impacto positivo sobre os pacientes. “Quando um médico chega a cavalo, o doente sente que o profissional tem mais tempo para dedicar-lhe. Cria-se uma relação especial, muito humana, menos institucional.”

Um outro aspecto positivo é que “as pessoas idosas, em particular, se concentram muito sobre seus problemas e o cavalo consegue distraí-las: se uma visita dura 20 minutos, passamos dez falando do cavalo, de suas recordações”. Muito frequentemente – continua Anfosso – “oferecem-me vinho e comida, porque aqui quase todos são produtores. Destampam uma garrafa e você não pode dizer não, significaria refutar a hospitalidade e os frutos do trabalho”. Uma história tão fora do comum que a agência France Press quer dedicar-lhe uma fotorreportagem.

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