Bolsonarismo, manipulação e perversidade

Presidente ameaça saúde pública — e sustenta parcela de fiéis seguidores. Mas há ainda, no empresariado, quem o apoie por interesse cruel: instrumentalizando a alienação em nome de seus interesses financeiros

Consistindo em um núcleo duro de apoiadores irrestritos do Presidente, abertamente concordantes com seus “valores”, o bolsonarismo tem ocasionado estragos ainda imensuráveis à saúde coletiva, em meio à Pandemia da COVID-19. Antes mais centrados na militância pela dissolução das instituições democráticas – tais como o STF e o Congresso Nacional –, bolsonaristas têm se concentrado ultimamente na coordenação de movimentos os quais reivindicam o retorno das atividades comerciais inviabilizadas pela quarentena decretada por governadores em muitos estados. Ignorando as orientações e as recomendações das mais sérias instituições de saúde internacionais acerca da situação pandêmica, assim como relatórios de modelos de gestão de variados países neste mesmo contexto, instigam o ódio da população àqueles que contradizem o discurso presidencial – discurso o qual sugere um “retorno à normalidade” que, considerada a Pandemia, consiste em um atentado à saúde coletiva.

Embora o bolsonarismo se constitua somente pelos indivíduos os quais assumiram Bolsonaro como líder, idealizando-o, muitos dos apoiadores do Presidente não o teriam assumido acriticamente deste modo, não consistindo em integrantes do bolsonarismo propriamente dito. Em dezembro de 2019, meses antes da declaração de Pandemia pela OMS (ocorrida em 11 de março deste ano), aproximadamente 29% do eleitorado brasileiro ainda apoiava de algum modo Bolsonaro, considerando seu governo como “ótimo” ou “bom”. Contudo, mesmo naquele momento, era estimado em somente 13%, aproximadamente, o percentil do eleitorado considerado apropriadamente como bolsonarista, isto é, como enamorado pelo Presidente, seus apoiadores irrestritos. Somente a metade dos seus apoiadores estaria avalizando acriticamente as suas atitudes e os seus discursos.

E, entre os maiores exemplos de indivíduos os quais provavelmente não idealizaram Bolsonaro, mas o têm apoiado publicamente, estão algumas lideranças evangélicas e certos setores do empresariado. Neste contexto, estariam contrariando ou contradizendo as orientações e recomendações científicas no intuito de evitar uma redução de seus monstruosos lucros. Embora provavelmente não tenham idealizado Bolsonaro e, assim, o apoiem na medida em que este viabiliza o aumento de seus lucros, instigam os bolsonaristas reiterando o discurso de seu líder. Em nome do lucro, indicariam – ao menos àqueles nos quais a disposição crítica ainda existe – o seu imenso desprezo às vidas das camadas populares, da classe trabalhadora.

Provavelmente, entretanto, o apoio a Bolsonaro pelos mencionados setores do empresariado e lideranças evangélicas não seria “exclusivamente oportunista”: em alguma medida, o antipetismo, o ideal antissistema e o anticomunismo seriam “ideais” importantes na constituição identitária de muitos destes, assim como o são na de Bolsonaro e na de seus seguidores irrestritos. Freud, criador da psicanálise, em sua obra intitulada Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), reconheceu o apontamento de um inimigo como uma importante estratégia de coesão de massas. O “ideal negativo” – relacionado com o ódio a uma outra identidade, excluída da massa – estabeleceria a identidade da massa. Este empresariado e estas lideranças religiosas, assim como o Presidente, seriam mobilizados, de algum modo, pelos mesmos “ideais negativos” mobilizadores dos bolsonaristas, resultantes no ódio a certos grupos concebidos por eles como esquerdistas, embora não necessariamente com a mesma intensidade em cada caso.

De outro lado, mesmo Bolsonaro ainda se mantendo como líder de uma massa “apaixonada” relativamente estável, algumas de suas declarações mais recentes têm ocasionado rompimentos importantes. Nos últimos dias, em redes sociais, indivíduos até então abertamente bolsonaristas se manifestaram criticamente ao Presidente, demonstrando angústia, arrependimento ou sentimento de traição. Muitos entenderam as declarações de Bolsonaro – nas quais sugeriu o “retorno às atividades normais” – como indicativas de seu desprezo à massa. Para alguns até então bolsonaristas, o desprazer ocasionado por estas declarações superou a intensidade dos motivos relacionados com a idealização deste último – entre os quais, os “ideais negativos” antes mencionados. Estariam “despertando”, notando a ilusoriedade da sua crença no amor igualitário do líder pela massa – crença considerada por Freud (1921) como necessária à manutenção desta massa.

Contudo, seria inconsistente a suposição de que o rompimento com Bolsonaro seria uniforme entre as classes sociais ou setores da sociedade. Muitos dos moradores de periferias brasileiras, extremamente preocupados com a COVID-19, consideraram recentemente que a quarentena seria “o melhor remédio” no combate à disseminação desta doença no País. Foi estimada, no dia 30 de março, que 96% destes moradores acredita na eficácia do isolamento social neste sentido – mesmo que o receio pelo desemprego e pela ausência de dinheiro também tenha sido muito intensamente relatado. Em acordo com levantamento da agência de publicidade Responsa, em periferias brasileiras, cerca de 90% dos entrevistados disseram sentir que o governo não está realizando ações eficazes no auxílio aos mais pobres. Embora a situação atual consista em uma Pandemia e a COVID-19 acometa indivíduos nos diferentes estratos socioeconômicos e grupos identitários, seria no mínimo sensata a noção de que, entre os mortos, os percentis de moradores das periferias seriam maiores.

Ao menos aparentemente, Bolsonaro consiste em um indivíduo amplamente ignorante e não seria inconsistente a inferência de certa estrutura narrativa paranoica do seu discurso, norteada pelo anticomunismo e pelo antipetismo. O Presidente assumiria como verdadeiro, em alguma medida, o mesmo “enredo conspiracionista” no qual seus seguidores irrestritos acreditariam inteiramente. No entanto, obviamente, Bolsonaro também entende quais são os seus grupos de apoiadores mais importantes. E alguns destes, tais como certos setores do empresariado e certas lideranças evangélicas, estariam instrumentalizando bolsonaristas, os instigando a movimentos reivindicatórios do retorno das atividades cotidianas à normalidade – retorno este já sugerido pelo Presidente.

Nos últimos dias, Bolsonaro, isolado politicamente, mesmo que em um recente movimento de recuo, estaria atentando abertamente contra a saúde pública, motivado à manutenção do apoio de certos setores do Capital e, inconscientemente, à reiteração de certa estrutura narrativa paranoica – a qual norteia ostensivamente as atitudes de seu clã. Neste caso, estaria arriscando as vidas mesmo dos seus mais “apaixonados” apoiadores – muitos dos quais, incluídos em ao menos um grupo de risco, a exemplo de idosos e doentes crônicos. A economia deteriorada seria, sim, complicadora da situação relacionada com a Pandemia. Contudo, neste caso, a amenização de uma crise econômica e o combate apropriado à Pandemia – o qual inclui o isolamento horizontal como meio de continência do colapso dos sistemas de saúde – não são mutuamente excludentes, conforme apontam economistas inclusive situados à direita do espectro político, nada comunistas.

Caso não se institua amplamente o isolamento social, certamente aumentará o número de agravos e de óbitos em meio a uma situação a qual inclui a disseminação do novo vírus, as conhecidas limitações do sistema público de saúde, a necessidade da maioria dos brasileiros de uso deste sistema e as complicadas condições de vida de muitos dentre esta maioria. A alienação dos bolsonaristas, os quais incitariam o restante da população a estragos ainda imensuráveis, seria instrumentalizada por certos apoiadores de Bolsonaro, “apaixonados” não por este último, mas, sim, pelos lucros de seus negócios bilionários; e, secundariamente, em alguns casos, pelo seu ilusório anticomunismo.

Estes apoiadores do Presidente “não apaixonados” [por este] conceberiam as camadas populares como descartáveis. O seu apoio aberto – e perverso – a Bolsonaro estaria aumentando os riscos de infecção e, consequentemente, de óbito, de muitos brasileiros – inclusive, de bolsonaristas –, mas, sobretudo, entre algumas parcelas da população cada vez menos apoiadoras do Presidente: a dos moradores de periferias. Bolsonaro não seria o único a atentar contra a saúde pública – mesmo considerando sua maior capacidade de influência direta sobre sua massa em muitos sentidos. Aqueles, mobilizando as classes trabalhadoras – inclusive coercitivamente, com ameaças de demissões –, estariam sentenciando muitos à morte. Já o bolsonarismo, embora se reconfigure gradativamente, ainda inclui setores da classe trabalhadora e alguns de seus constituintes, ruidosamente, têm agido também de modo a representar acriticamente os interesses de grupos os quais os concebem como insignificantes.

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