Trump: a perigosa conexão paraguaia

EUA e Paraguai firmaram em dezembro um “acordo de cooperação” civil e militar cujos contornos ainda não estão claros. Compromisso alerta para a presença ampliada de Washington na região – a para as lacunas abertas pela diplomacia brasileira

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e o ministro das Relações Exteriores do Paraguai , Rubén Ramírez Lezcano, apresentam o acordo assinado entre os EUA e o Paraguai — Foto: REUTERS/Kevin Mohatt
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Título original:
Paraguai – Estados Unidos – Brasil. Segurança e eleições.

Em 15 de dezembro de 2025, o Chanceler do Paraguai, Rubén Ramirez, se reuniu em Washington com o Secretário de Estado Marco Rubio. Foi divulgada na ocasião a assinatura de um acordo (“Status of Forces Agreement”) de cooperação entre os dois países para intercâmbio de militares e civis com presença no território do Paraguai.

Não estão claras no acordo as condições de atuação dos agentes nesse país. Aparentemente, não se trata de instalar bases militares no país vizinho, mas já foi cogitado no passado aproveitar uma pista de pouso na região paraguaia do Chaco para uso de forças norte-americanas.

Diz o comunicado divulgado pelo Departamento de Estado:

“O acordo histórico estabelece uma estrutura clara para a presença e as atividades de militares e civis do Departamento de Guerra dos EUA no Paraguai, facilitando o treinamento bilateral e multinacional, a assistência humanitária, a resposta a desastres e outros interesses de segurança compartilhados.”

Em princípio, esse novo entendimento do Paraguai com os EUA pode ser encarado sem grande temor, mas gera preocupação, no contexto das repetidas ameaças do atual governo norte-americano de: retomar o Canal do Panamá, anexar a Groenlândia, ameaçar o Canadá no comércio e na defesa, confrontar com a China e a Europa, concentrar forças no Caribe, cercar a Venezuela, explodir lanchas, confiscar navios, impor tarifas comerciais a esmo, renunciar ao multilateralismo, e muito mais.

E por que essa aproximação do Paraguai com os EUA não deve espantar tanto? Porque o Brasil é um parceiro privilegiado. Pra começar, o estoque de investimentos das empresas brasileiras são os maiores no Paraguai. O investimento brasileiro já era grande, no agronegócio e bancos, e disparou com a instalação de indústrias brasileiras e subsidiárias de multinacionais, fabricantes de autopeças, sediadas no Brasil.

Na relação bilateral, há um intercâmbio dos Exércitos muito intenso, com a presença constante no país vizinho de pelo menos 40 militares brasileiros em revezamento, para treinamento de tropas, instrução em tiro, cavalaria, manutenção de equipamento e muito mais. A Embaixada do Brasil em Assunção conta com Adidos de Defesa (a cargo do adido do Exército), Marinha e Aeronáutica, Adidos da Receita Federal e de Inteligência.

A relação é fraterna, apesar de a sociedade paraguaia nunca ter superado o trauma da guerra da tríplice aliança, mesmo depois de 150 anos.

Há uma tendência equivocada de considerar que o Brasil tem uma relação pendular com os países vizinhos. Ou seja, há quem ache que há maior aproximação quando existe afinidade ideológica. Não é assim. Recorde-se que foi o Presidente Alfredo Stroessner, ainda nos anos 1960, que teve a iniciativa de avançar para o leste, em direção ao Brasil, pela rodovia, hoje duplicada, que liga Assunção a Ciudad del Este. Também naquela época já se pensava em construir a usina de Itaipu, que se tornou um símbolo da nossa relação.

Vale lembrar que Stroessner faleceu em Brasília, onde está enterrado o seu corpo.

O caso do Paraguai é peculiar. À exceção de poucos períodos e breve interregno liberal com o Presidente Fernando Lugo, o Paraguai foi quase sempre liderado por governos do Partido Colorado.

Foi o que ocorreu após o impeachment de Lugo, em 22 de junho de 2012, com o voto de 39 Senadores contra 4. Inconformados com a decisão do Senado paraguaio, considerada apressada e mal fundamentada, diversos países sul-americanos, o Brasil inclusive, retiraram os seus Embaixadores de Assunção. No caso brasileiro, a Embaixada ficou a cargo do encarregado de Negócios até novembro de 2013, quase ano e meio depois do impeachment, quando assumi o posto. Tive a oportunidade e o privilégio de reconstruir a relação, interagindo com um governo orientado por uma “cartilha diferente” da brasileira.

Apesentei credenciais ao Presidente Horacio Cartes poucos dias depois da minha chegada. Sempre tivemos uma relação afável, com ele e todos os seus ministros, com os quais mantive encontros de trabalho e sociais muito frequentes e cordiais.

Mesmo antes da eleição do Presidente Cartes (período 2013/2018), o partido Colorado passou a ser comandado por ele. O atual Presidente, Santiago Peña, foi seu Ministro da Economia e deve a ele a vida política. Horácio Cartes é provavelmente a pessoa mais rica do Paraguai. Seus negócios abrangem todos os setores, desde bancos e casas de câmbio a empresa de taxi aéreo e agropecuária, sendo mais conhecido no Brasil pela fabricação de cigarros contrabandeados para cá.

Vale recordar que o ex-Presidente Cartes havia sido objeto de sanções dos EUA (extensivas à família) por parte dos últimos governos democratas dos EUA. As sanções foram levantadas recentemente em mais um sinal de aproximação e apoio do Presidente Trump aos políticos e governos de direita, no nosso entorno e em toda parte.

Tudo isso no contexto de promover a disseminação de uma ideologia proclamada libertária e pró-norteamericana. Depois da Argentina, o Paraguai, o Chile, a Bolívia e diversos países centro-americanos vêm sendo cooptados.

Na relação Brasil-Paraguai, é relevante que cerca de 350 mil pessoas de origem brasileira (5% da população paraguaia, gaúchos na maioria) vivem no Paraguai, no leste do país, tendo como centro principal a cidade de Santa Rita, onde existe um CTG (Centro de Tradições Gaúchas). O português é idioma corrente na cidade. Os brasileiros emigraram para o Paraguai a partir dos anos 1970, atraídos pelo menor custo da terra. Dedicam-se majoritariamente à produção de grãos para exportação. Nas palavras ouvidas do ex-Presidente paraguaio, “os brasileiros nos ensinaram a plantar soja e iniciaram aqui uma agricultura moderna”.

Fenômeno mais recente, dos últimos 10 anos, foi a instalação de indústrias com capital oriundo do Brasil. O principal setor é de autopeças, que se destinam às montadoras brasileiras e argentinas, produzidas por multinacionais para abastecer as congêneres nos países vizinhos. Também se instalaram indústrias de confecção, de calçados, embalagens e plásticos. Têm sido atraídas pela mão de obra e energia barata, além dos impostos reduzidos, favorecidos pelo regime de maquila vigente. Esse regime permite aos produtos de exportação utilizar insumos importados com isenção de impostos, pagando apenas 1% do valor exportado. As maquilas já têm um peso muito importante nas receitas de exportação do Paraguai e geram empregos.

Voltando ao “acordo de situação de forças”, possivelmente foi feito porque o Brasil não dá muita atenção ao Paraguai, faz menos do que se espera. Depois de tanto sabermos que a fronteira Paraguai-Brasil é permeável, praticamente sem controle, que assassinatos, tráfico de armas, de mercadorias e pessoas ocorrem diariamente, providências urgentes e necessárias não são tomadas. Parece que o governo e os cidadãos brasileiros se contentam com acusar os paraguaios de leniência com a criminalidade e seguem em frente. Ao ser desconsiderado, o Paraguai se volta a outros aliados, que lhe dão atenção e acodem, inclusive com o propósito de confrontar as pretensões de liderança do Brasil na vizinhança.

O entendimento do Paraguai com os EUA se dá exatamente na esfera da segurança, um tema explosivo que será destaque nas eleições presidenciais e estaduais de 2026 no Brasil. O “acordo de situação de forças” deve ser visto também no contexto das eleições brasileiras, e insinua, em particular, as fragilidades de governos sem afinidade nem simpatia com o norte-americano. Em consequência, ao demonstrar que o Brasil falha na segurança interna e externa, também se busca influenciar nas eleições em proveito de candidatos que não sejam “de esquerda”.

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