O transnacionalismo em estado bruto

Diante do ataque às instituições multilaterais, surgem arranjos geopolíticos provisórios. No plano regional, eles substituem o direito internacional pela chantagem, e rebaixam a soberania a mercadoria. Já países como a Índia ensaiam alianças simultâneas com blocos opostos

Crédito: Kleber Sales
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O texto a seguir integra o número 15 (janeiro de 2026) do boletim do Observatório do Século XXI, parceiro editorial de Outras Palavras. A edição pode ser baixada e lida aqui.

O sistema internacional atravessa uma transformação que não pode mais ser ignorada ou romantizada como um momento de ajustes em uma ordem liberal consolidada. O que testemunhamos parece ser o colapso acelerado de uma arquitetura de governança global que sustentou, com todos os seus defeitos, sete décadas de relativa estabilidade. 59 conflitos militares estavam ativos ao final de 2025, o maior número desde a Segunda Guerra Mundial[i]. Isso sugere que o mundo está se tornando sistematicamente mais violento, e que este estado de coisas não é um desvio ou falha, mas sim, o modus operandi, normalizado aos poucos, em termos morais.

A crise existencial das instituições multilaterais não é uma questão de má gestão administrativa, mas de nítida obsolescência funcional. A Organização das Nações Unidas, outrora símbolo da cooperação internacional, enfrentou em 2025 uma crise de financiamento catastrófica que a forçou a congelar contratações e cortar serviços essenciais. Mais revelador ainda é a paralisia do Conselho de Segurança, que hesitou em apresentar uma simples resolução de cessar-fogo para Gaza por receio de um veto americano. Quando o principal órgão de paz e segurança do mundo se torna refém inequívoco das disputas entre grandes potências, sua relevância prática caminha para a extinção.

A intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, em janeiro de 2026, é sintoma desta nova realidade. Ela foi a demonstração visceral de que o poder bruto caminha a passos largos para substituir, para todos os fins práticos, o direito internacional como árbitro das relações entre nações. A justificativa oficial norte-americana, de que se trata tão somente de uma operação para “aplicação da lei”, é um absurdo jurídico à luz do direito internacional, que proíbe a aplicação extraterritorial de leis domésticas sem consentimento soberano. Mas, que fique claro que a questão central não é legal, e sim política: na ausência de mecanismos “eficazes” de coerção (as aspas são devidas, porque coerção num sistema anárquico nunca será eficaz), as grandes potências reaprenderam que as normas são opcionais quando os interesses nacionais estão em jogo. É a velha geopolítica das nações, que os ideológicos liberais sugeriram ser parte de um passado bárbaro, exorcizado pelo toque das trombetas do fim da história.

Assim, neste contexto de paralisia multilateral e imprevisibilidade das grandes potências, emerge o minilateralismo: acordos mais ágeis, focados e transacionais entre um pequeno número de nações com interesses específicos alinhados, envolvendo não raro uma grande potência nuclear. E três exemplos ilustram esta virada pragmática. O acordo de paz entre Armênia e Azerbaijão, mediado pelos Estados Unidos, estabeleceu o chamado “TRIPP” (Rota Trump para a Paz e Prosperidade Internacional). Em troca da mediação, Washington garantiu direitos exclusivos de desenvolvimento sobre o corredor por 99 anos; a paz, assim, se tornou um ativo com retornos econômicos mensuráveis, e a diplomacia, monetizada.

A política de “multi-alinhamento” da Índia oferece outro modelo. Nova Délhi participa simultaneamente do QUAD (com Estados Unidos, Japão e Austrália), e do grupo I2U2 (Índia, Israel, EUA e Emirados Árabes Unidos), e dos BRICS, recusando-se a um compromisso baseado em alinhamentos ideológicos rígidos. Esta flexibilidade estratégica permite à Índia maximizar seus interesses em diferentes tabuleiros geopolíticos, uma abordagem cada vez mais atrativa para potências médias que buscam autonomia. A parceria de segurança entre Austrália e Coreia do Sul, evidenciada pelas reuniões ministeriais “2+2”, demonstra como países estão construindo arquiteturas de segurança alternativas independentemente das grandes alianças tradicionais. Há uma clara mensagem subjacente nestas iniciativas, e ela gira em torno da noção de que, num tempo de incerteza, a autossuficiência (ou, pelo menos, o encurtamento do alcance das redes de dependência e compromisso) é a melhor garantia de segurança.

Enquanto isso, alianças de defesa mútua “global” como a OTAN enfrentam não apenas crises institucionais e financeiras, mas de credibilidade. A percepção crescente de que a garantia de segurança americana está se tornando cada vez mais ilusória força os aliados europeus advogarem em prol de autonomia estratégica, dificilmente atingível[ii].

Existe um claro fio condutor que une estes exemplos díspares: os estados estão priorizando interesses nacionais tangíveis sobre compromissos ideológicos amplos. O minilateralismo aparece, então, como uma resposta racional à paralisia do multilateralismo, partido da noção pragmática de que, em um mundo fragmentado, acordos menores e focados talvez produzam resultados mais confiáveis do que grandes tratados universais que são frequentemente paralisados por divergências entre seus membros.

Esta fragmentação, contudo, não é isenta de riscos. A normalização moral da intervenção unilateral, como demonstrada na Venezuela, estabelece precedentes perigosos. Se a violação da soberania se torna uma ferramenta legítima de política externa para os poderosos, outras potências podem sentir-se encorajadas a agir de forma similar em suas próprias esferas de influência. A soberania, nesta nova ordem, torna-se contingente aos interesses das grandes potências, uma realidade que exige que estados médios recalibrem fundamentalmente suas doutrinas de segurança nacional.

E nesse quadro, parece certo dizer que a competição por recursos se intensificará. Talvez, então, não seja um exagero afirmar que o futuro do sistema internacional seja definido a partir do que tem sido chamado de “transacionalismo bruto”: ele define uma abordagem de política externa que substitui a ordem internacional baseada em regras por um sistema onde a força faz o direito (might makes right) e a diplomacia é operada como uma sucessão de transações comerciais. Nesta era de “brutalidade geopolítica”, bens públicos globais, como a mediação de conflitos e a ajuda humanitária, são convertidos em ativos transacionais projetados para gerar lucros econômicos ou ganhos estratégicos imediatos. Esta doutrina rebaixa a soberania à condição de mercadoria negociável e utiliza a “diplomacia de compadrio” (crony diplomacy) para monetizar processos de paz, muitas vezes condicionando a cessação de hostilidades à apropriação ou extração de recursos naturais para ressarcir custos ou perdas da potência hegemônica. Como resultado, o “poder da lei” é abandonado em favor da “lei do poder”, fragmentando o sistema global em um cenário onde grandes potências agem com impunidade através da alavancagem bilateral coercitiva em detrimento do compromisso multilateral.

Notas


[i] Mucha, T. (2026, 28 de fevereiro). Geopolitics in 2025: Risks, opportunities, and deepening uncertainties. Wellington Management. https://www.wellington.com/en-us/institutional/insights/geopolitics-in-2025

[ii] Este tema foi tratado em meu último artigo, no Boletim n. 14, “O rearmamento e militarização da

Europa”, páginas 18-22. Ver https://nubea.ufrj.br/images/Observatorio/Boletim_N_14_O_Crepsculo_Europeu_Novembro_2025.pdf

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