A América Latina vê a Venezuela no espelho
Quais os próximos passos (e dilemas) da resistência bolivariana? Caracas ficará sozinha frente ao acosso dos EUA? Como enfrentar o projeto trumpista de recolonização da região? Seria possível construir uma cooperação entre países latino-americanos que garanta paz e soberania?
Publicado 09/01/2026 às 13:10 - Atualizado 09/01/2026 às 20:42

Na coletiva em Mar-a-Lago, na Flórida, Donald Trump colheu os louros do ataque do Exército “mais forte e feroz do planeta” à Venezuela — ataque que incluiu o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, tratado por ele como sinônimo da derrubada do governo bolivariano. Sem qualquer constrangimento, desmontou a própria narrativa que ajudara a construir para justificar o crime internacional: o suposto “combate ao narcoterrorismo”, expediente que lhe permitiu agredir arbitrariamente outro país sem aval do Congresso. O objetivo real, deixou claro, é a pilhagem do petróleo venezuelano — tanto que ações da ExxonMobil e da Chevron dispararam!
“Vamos administrar o país até que possamos fazer uma transição segura, adequada e criteriosa”, afirmou, esquivando-se de explicar como isso ocorreria quando questionado pelos jornalistas — talvez já imaginando que, dali em diante, tudo não passaria de um cruzeiro tranquilo pelo Caribe. Mas, bem, não seria a primeira vez que Washington fala em administração temporária, tanto na América Latina quanto no Oriente Médio…
Porém, desta vez, a afirmação soava confusa, para dizer o mínimo: como uma nação pode “administrar” outra sem derrubar suas instituições e sem ocupar militarmente o território estrangeiro — algo que, no caso venezuelano, segundo planejadores de guerra, exigiria o deslocamento de mais de 150 mil soldados estadunidenses para a América do Sul? Nos dias seguintes, Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos e um dos principais arquitetos do acossamento à Venezuela, tratou de relativizar a fala presidencial. Disse que Washington apostará no bloqueio do petróleo para pressionar o país e que ainda seria “prematuro” falar em novas eleições.
Essa retórica virulenta e cronicamente instável da Casa Branca — feita de investidas beligerantes, recuos deslavados, fala grossa e súbitas brechas para negociação, como já se viu na onda de sanções econômicas e nas tratativas com Israel e Rússia no ano passado — confunde analistas ao redor do mundo. O que é blefe, o que é tubo de ensaio e o que é estratégia geopolítica, afinal, quando um presidente atropela o bom-senso, o direito internacional e até as instituições democráticas do próprio país, lançando-se numa cruzada quase fratricida contra o multilateralismo?
Os próximos dias trarão pistas mais claras. Por ora, o que se vê é uma mistura de espetáculo de “estreia” da nova Doutrina de Segurança dos Estados Unidos com a vaidade megalomaníaca de Trump, que devaneia tanto com o Nobel da Paz quanto com o posto de “maior presidente da História”. E a região se pergunta: a Venezuela é um caso isolado — ou o primeiro espelho de uma nova realidade?
A Venezuela esteve no radar de Trump desde que ele pisou na Casa Branca. Parecia-lhe um alvo fácil: agradaria petroleiras e o complexo industrial-militar e, de quebra, lembraria a todos quem manda na América Latina, enviando uma mensagem de intimidação — aos governos locais, atrevidos em reformas e soberania, e a potências como China e Rússia, com investimentos pesados em infraestrutura na região. E teria uma bem-vinda função doméstica, pois demonstrações de força no exterior agitam sua base republicana e o eleitorado nacionalista…
Psicopatia americana
“Por que não invadimos a Venezuela?”, perguntou Donald Trump a seu Gabinete em 2017, como quem sugere um passeio de fim de semana na América do Sul. Estava em seu primeiro ano na Casa Branca. Invasões, argumentou, haviam dado certo no Panamá — em 1989, quando os Estados Unidos sequestraram o presidente Manuel Noriega e o levaram a julgamento em território estadunidense — e em Granada, em 1983, quando Ronald Reagan justificou a intervenção alegando a necessidade de “proteger 600 estudantes norte-americanos”.
Incrédulos, assessores trataram de dissuadi-lo: uma ação militar poderia sair pela culatra e custar aos Estados Unidos o apoio, duramente conquistado, de líderes latino-americanos contrários ao governo de Nicolás Maduro.
“O presidente diz e pensa muitas coisas diferentes”, justificou, em off e visivelmente constrangido, um assessor. Neste segundo mandato, Trump parece já não contar com vozes minimamente sensatas ao pé do ouvido. Ao contrário: há duas que sopraram, sem pudor, os tambores da guerra contra a Venezuela.
A primeira é a do secretário de Defesa, Pete Hegseth, ex-apresentador da Fox News — um sujeito que não acredita na existência de germes (e, por isso, nunca lava as mãos), conhecido por chocar funcionários do Pentágono pelo amadorismo, acusado de agressão sexual e fanfarrão dedicado a encarnar o modelo de masculinidade vendido pelo MAGA. Quando vieram a público assassinatos extrajudiciais no Mar do Caribe, inclusive de náufragos, correu à tevê para se gabar. Após o sequestro de Maduro, excitou-se publicamente com a “pura coragem e determinação, a galhardia e a glória dos guerreiros norte-americanos”.
A outra voz é a do secretário de Estado, Marco Rubio — o “super-homem” da administração Trump. Anticomunista feroz, filho de cubanos expatriados, sonha em ver a Cuba de seus pais novamente sob tutela de Washington e, por extensão, sua nação-irmã antiimperialista no continente: a Venezuela. Uma ação como a ocorrida no sábado também funciona como palanque ideal para sua base eleitoral na Flórida, composta por cubanos e venezuelanos “em fuga de ditaduras sanguinárias”. Rubio, apesar de ser porta-voz dos “refugiados”, também lidera o pesadelo imigratório nos Estados Unidos: trabalhou para acelerar deportações em massa e desmontar as proteções concedidas a imigrantes durante o governo Biden.
Em dezembro do ano passado, menos de um mês antes do ataque em Caracas e sequestro de Maduro e sua esposa, esta trupe trumpista divulgou a nova Doutrina de Segurança dos Estados Unidos. Sua alma: a reafirmação — e radicalização — do lema “America First”, com ênfase renovada em tratar a América Latina como quintal do Tio Sam. O documento adota uma visão abertamente maquiavélica: alianças são instrumentos, e o poder econômico e militar, meios legítimos para forçar concessões. A política externa é reorientada por meio de um “Corolário Trump” à Doutrina Monroe de 1823, que recoloca o Hemisfério Ocidental como esfera de influência prioritária e legitima ações unilaterais. Trump já adotou nome próprio, com orgulho: a “Doutrina Donroe”. Afinal, impérios sempre recorrem à violência bruta quando seus mecanismos sutis de controle, como diplomacia e coerção econômica, falham…
Antes mesmo disso vir a público na forma de documento, já víamos seus sinais. Na Argentina, hoje anarcocapitalistamente pró-gringos, Trump condicionou financiamento externo ao sucesso político de Javier Milei nas eleições legislativas do ano passado, como se dissesse: pibe, se você não merecer, não ganha a mesada do papai… Em Honduras, interferiu diretamente nas eleições, ameaçando cortar remessas de dólares enviadas por imigrantes e dando indulto a um ex-presidente hondurenho condenado por narcotráfico para influenciar o pleito. Sobre o Panamá, declarou publicamente a intenção de “recuperar” o controle do Canal, citando uma suposta influência chinesa como pretexto. Trump também afirmou que o Canadá “deveria ser o 51º estado” e referiu-se cinicamente ao primeiro-ministro de um país aliado histórico como “Governador Trudeau”. Seu interesse em anexar a Groenlândia foi igualmente declarado sem rodeios, repetidas vezes, levando a Dinamarca, membro da Otan, a classificar os Estados Unidos como “ameaça potencial” à sua segurança nacional.
O México chegou a ser classificado como “adversário” pelo Departamento de Justiça estadunidense, abrindo espaço para ameaças explícitas de intervenção militar. Em um gesto simbólico de dominação, longo em sua posse, Trump propôs rebatizar o Golfo do México como “Golfo da América”. Recentemente, novas ameaças foram dirigidas a Cuba e à Colômbia; e reforçadas contra o México e a Groenlândia. Forma-se, assim, um padrão inequívoco de escalada retórica — e política — contra as nações da região: a nova Doutrina de Segurança dos Estados Unidos em implementação a toque de caixa no continente.
Se antes estas nações estavam somente “apreensivas”, hoje cruzar os braços e confiar que o bom-senso e o direito internacional triunfarão pelas vias diplomáticas parece uma realidade distante… Afinal, a Venezuela fez investimentos robustos em esquadrões aéreos e dispõe de um dos sistemas de defesa antiaérea mais sofisticados da América Latina, com baterias russas S-300VM, Buk-M2 e Pantsir-S1, capazes de criar camadas de proteção contra aeronaves, drones e mísseis de cruzeiro. Porém, a primazia militar e tecnológica dos Estados Unidos — que gastaram aproximadamente US$ 997 bilhões em defesa em 2024, sendo responsáveis por cerca de 37% de todo o gasto militar mundial. Esse orçamento é maior que o total gasto pelos próximos nove países somados (incluindo China, Rússia, Índia, Reino Unido, Alemanha, Arábia Saudita, Japão, França e Coreia do Sul) — se impôs na missão criminosa em solo latino-americano, que, pelo que se conta até agora, enfrentou pouca resistência. Nenhum país da região — e talvez poucos no mundo — teria condições de neutralizar um ataque desse porte. Basta uma ordem de Washington para submeter quase qualquer governo, ainda que, em uma guerra terrestre prolongada, o balanço de forças pudesse se tornar menos assimétrico.
A agressão é um recado cristalino à América Latina: pode não haver invasão por terra, mas haverá coerção política, econômica e, se necessário, militar. O que cabe a países como o Brasil, que deveria exercer liderança regional? As alianças do Sul Global, como o Brics, são banguelas quando se trata de defender seus próprios aliados?
Devem os governos insistir em um pragmatismo defensivo, com ajustes táticos e discursivos para evitar confrontos diretos com os Estados Unidos, mantendo cooperação seletiva em áreas de interesse comum e adiando a resolução de vulnerabilidades estruturais? Devem seguir o caminho europeu e ampliar significativamente os gastos militares? Ou apostar na autonomia estratégica por meio do fortalecimento da cooperação regional e sul-sul, do investimento na indústria nacional de defesa e da diversificação de parcerias — um processo mais lento, custoso e inevitavelmente gerador de atritos com Washington?
“O que você faria se um inimigo brutal viesse até você, armado até os dentes, disposto a matá-lo?”
Esta questão emerge num rap entoado pela juventude chavista. Quais seriam, então, os desdobramentos calculados pela Casa Branca após o espetáculo militar em Caracas? Num primeiro momento, Washington parece ter rifado o apoio a María Corina Machado e a seu candidato, Edmundo González — autodeclarados vencedores das controversas eleições presidenciais de 2024 — ao menos no curto prazo.
Delcy Rodríguez foi empossada presidente interina da Venezuela, com o núcleo duro chavista aparentemente sólido e mantendo o tom estratégico adotado por Maduro nos últimos meses: defesa da paz, abertura à negociação e respeito à soberania, sem deixar de reafirmar o recado central — “jamais seremos colônia de qualquer império”.
O movimento era previsível. É possível que Trump tenha apostado na agressão militar para forçar novas eleições em até noventa dias, por vacância de poder, como prevê a Constituição venezuelana. O plano, no entanto, esbarra em uma lacuna jurídica: a legislação não contempla prisão internacional ou sequestro por forças estrangeiras como causa automática de falta absoluta. Trata-se de um precedente inédito. Assim, a defesa de Maduro como presidente de fato — e, por consequência, da interinidade de Rodríguez — pode neutralizar essa estratégia dos Estados Unidos diante da Assembleia Nacional e do Judiciário.
Outra hipótese é que a sucessão interna no chavismo não desagrade a Washington. Delcy acumulou a Vice-Presidência com o comando do Ministério dos Hidrocarbonetos, onde demonstrou grande habilidade de negociação no setor petroleiro, inclusive com corporações estadunidenses. Na lógica da Casa Branca, ao assumir o Executivo em meio a uma crise profunda — inclusive, migratória: estimava-se que cerca de 20% da população venezuelana esteja vivendo no exterior — e sob coerção militar explícita — com a ameaça de ter “fim parecido ou pior”, nas palavras de Trump —, Delcy ficaria de mãos atadas diante das exigências impostas por Washington.
Se esse for o cenário, trata-se de mais um teste extremo de resiliência para o governo venezuelano: como negociar com uma potência inimiga, armada até os dentes no quintal de sua casa — talvez cedendo anéis para não perder os dedos — enquanto tenta ganhar tempo para mobilizar solidariedade internacional e articular novas alianças geopolíticas, econômicas e militares capazes de furar o cerco de Washington?
Desde setembro do ano passado, quando Trump iniciou o envio de navios de guerra ao Caribe, ficou claro para o Palácio de Miraflores que não se tratava de blefe. Alguns cenários estavam no radar. O primeiro, uma guerra suja, com operações que iam de ciberataques e sabotagem de infraestrutura a surtos de violência armada para desgastar o governo. O segundo, o sequestro ou assassinato de Maduro e do alto escalão bolivariano, à semelhança do que ocorreu com Qassem Soleimani no Irã, em 2020. O terceiro, uma invasão terrestre — do ponto de vista militar-estratégico, paradoxalmente, o cenário mais caro, arriscado e politicamente desgastante para uma potência como os Estados Unidos, mesmo quando há supremacia tecnológica absoluta.
Há cerca de 23 anos, os Estados Unidos tentam derrubar o governo venezuelano. Primeiro, evocaram violações de direitos humanos, corrupção e a suposta erosão das instituições democráticas. Depois, passaram a falar em ameaças à segurança nacional e aos interesses estratégicos de Washington. Mais recentemente, juntaram-se acusações de narcoterrorismo e combate aos cartéis de drogas. As justificativas mudam; o objetivo, não.
Muita coisa passou, então, com este país que, além de deter a maior reserva comprovada de petróleo do planeta, é uma potência em recursos estratégicos: possui a oitava maior reserva mundial de gás natural, as principais reservas globais de ouro, níquel e terras raras — minerais essenciais para a tecnologia de ponta. Golpes militares fracassados, violência pós-eleitoral, tentativas de “governo paralelo”, sanções econômicas, rapinagem de ativos no exterior e operações de desestabilização — incluindo terrorismo e infiltração de mercenários estadunidenses — não surtiram efeito. Faltava apenas a investida militar direta de Washington. E o chavismo vinha se preparando para esse cenário há anos: da organização das milícias bolivarianas à cooperação em defesa, ainda que limitada, com Irã, Rússia e China; das tentativas de diversificar parcerias econômicas no Sul Global à busca de ingresso nos Brics — vetada pelo Brasil.
Há um ponto central frequentemente subestimado em Washington: um ataque estadunidense tende a produzir mais resistência do que submissão popular, mesmo em um país atravessado por crises profundas. A agressão está longe de ser um atestado de óbito. Diante de um invasor externo, o chavismo não necessariamente se fragiliza — pode, ao contrário, ganhar coesão, inclusive frustrando a aposta de que a pressão bélica provocaria fissuras na alta cúpula das Forças Armadas. Nesses cenários, a ofensiva inicial costuma converter-se em guerra de desgaste, na qual a superioridade tecnológica perde eficácia frente ao custo econômico e político interno exigidos por uma operação de coerção permanente — ou, no limite, por uma tentativa de ocupação. Esta parece ser a fé do governo bolivariano.
Já em 2019, em meio à escalada de tensão com os Estados Unidos, o então dirigente chavista e hoje ministro do Interior, da Justiça e da Paz, Diosdado Cabello, advertia: “Irmãos, preciso ser franco com vocês. A única coisa que resta é a invasão norte-americana. É provável que eles entrem na Venezuela. Mas o problema é como eles vão sair — porque nos tornaremos o Vietnã.”
Não se tratará, portanto, de um desfecho virtuoso, imediato ou linear, mas de um processo marcado por ambivalências, no qual a resistência tende a conviver com tensões internas, ameaças permanentes, disputas políticas e episódios de violência. No atual contexto geopolítico, Delcy Rodriguez terá que adaptar a cartilha cubana de antiimperialismo intransigente sob esta ameaça existencial da revolução bolivariana? Incontestavelmente, é o início de uma nova fase perigosa, mas também cheia de oportunidades históricas para a luta pela soberania latino-americana.
Resta acompanhar de perto as cartas que a Venezuela colocará sobre a mesa. E, tão importante quanto isso, saber se jogará sozinha diante da ameaça-Trump que ronda toda a América Latina. O drama venezuelano de hoje pode ser o drama que Colômbia, Cuba e Groenlândia — já ameaçadas — viverão amanhã. E, depois de amanhã, o de México, Brasil e de qualquer país que se coloque à frente dos interesses imperialistas. Só para somar à playlist deste momento, outro rap da juventude venezuelana: “Nossa voz não se calará. Somos esse bravo povo pelo qual Bolívar deu sua vida pela liberdade. E há muito nos livramos das correntes e juramos que elas não voltarão.”
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