O MEL das mulheres para outro Brasil
Festival Mulheres em Lutas reúne, em SP, ativistas, pesquisadoras e parlamentares para debater democracia e feminismo – e a violência contra aquelas que ocupam espaços públicos. Organizado por Manuela D’Ávila, visa unificar agendas para o Comum e a mudança do país
Publicado 02/04/2025 às 18:59

Contra a violência política de gênero e raça. O ódio às mulheres no exercício parlamentar. Para fazer florescer uma nova forma de exercer a política e fortalecer a nossa caminhada.
Manuela D’Ávila atrai um enxame de mulheres ao MEL – Festival Mulheres em Lutas, três dias de intensos debates políticos e atividades culturais que celebram união e articulação para barrar a violência contra mulheres que ocupam espaços públicos. O encontro acontece na Nave Coletiva da Mídia Ninja, em São Paulo, nos dias 11, 12 e 13 de abril.
Vai ser festa!
“O festival tenta unificar a agenda das mulheres para o país”, sustenta Manuela. “Partindo da violência exercida contra nós, e das razões por que ela acontece, as reflexões e ações nos conduzem àquilo que podemos realizar quando protegidas: mudar o país!”
O Fest MEL reunirá mais de 100 parlamentares municipais, com diversidade nacional.
Mãe da Laura, 9 anos, Manu é militante e feminista, uma das principais vozes da esquerda na luta contra o fascismo no Brasil. Em razão de sua trajetória política a partir dos 23 anos – de parlamentar municipal, estadual, federal e candidata à vice-presidência com Fernando Haddad em 2018, ela – e a filha, e a mãe – foi permanentemente ameaçada. Aos 43, é uma estudiosa da extrema direita no mundo. Gestou o Instituto E se fosse você?
“O MEL é um encontro de vozes que ecoam coragem contra as feridas abertas pelas diversas formas de violência vivenciadas. Aqui, o amor pela justiça se mistura à arte, à troca e ao aprendizado, regando sementes de mudança. Será um momento histórico!”, afirma.
O enxame está em formação, construído a muitas mãos e mentes de mulheres: da política institucional, do direito, da psicologia, da educação, das redes, da pesquisa, do ativismo.
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Nomear Mulheres Em Luta como MEL é um paradoxo luminoso, observa uma grande amiga do campo da linguística e da psicanálise.
Habitantes da Terra há mais de 60 milhões de anos, as abelhas são um dos sistemas mais importantes de suporte à vida, e revelam a íntima interdependência existente entre os reinos animal, vegetal e humano. São polinizadoras, transferem o pólen do órgão masculino ao órgão feminino da flor, processo fundamental para a reprodução das plantas e a produção de frutos e sementes. Respondem pela polinização de 71 dos 100 tipos de colheita que alimentam e vestem a humanidade, segundo relatório da ONU de 2010.
A produção aumenta no solo onde se encontram. Às abelhas devemos o mel, o própolis, a geleia real e a cera, que nos servem de alimento e medicina. E também os aspargos, o óleo de canola e o de girassol, as fibras têxteis do linho e algodão, as culturas utilizadas para forragem na produção de carne e leite, como a alfafa. A videira, e com ela da produção de vinhos. Sem abelhas não haverá cítricos, abacate, agrião, maçãs, morangos, tomates, amêndoas.
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O zumbido se ampliou nesta quarta, 2 de abril, em Porto Alegre, no encontro regional “Mulheres em Lutas: Diversas, mas não dispersas”, como dizia Marielle Franco.
Em São Paulo estão sendo esperadas mais de mil participantes. A partir da tarde de sexta, 11 de abril, teremos um fim de semana de debates, vivências e organização sobre temas caros às mulheres – da luta contra o apagamento de suas ações e bandeiras à definição de protocolos para o combate à violência política de gênero e raça. Haverá discussões sobre emergência climática, políticas de cuidado, acolhimento especializado e construção de agendas progressistas sobre economia e desenvolvimento pelo olhar das mulheres – entre outros assuntos.
A pergunta tabu será feita logo no painel de abertura: Qual a razão do ódio às mulheres? Ao lado de Áurea Carolina, Manu dará as boas-vindas às participantes e receberá as convidadas: Sônia Guajajara, representante do Brasil indígena, ministra de Estado do Ministério dos Povos Indígenas; Alice Evans, cientista social e pesquisadora no King’s College de Londres, que falará sobre The Great Divergence, um estudo sobre a crescente diferença entre homens e mulheres jovens, uma chave pra entender a extrema direita; e a ativista e pesquisadora indiana Sohaila Abdulali, autora do livro Do que estamos falando quando falamos de estupro.
Áurea Carolina, hoje diretora da Rede Nossas, eleita em 2018 (PSOL-MG), exerceu um mandato coletivo como deputada federal e foi a vereadora mais bem votada de Belo Horizonte em 2016. Abandonou a política institucional para salvar a própria saúde mental e cuidar de Jorge Luz, filho recém-nascido. “Partidos são lugar de destroçar mulher”, afirmou em recente entrevista.
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Vem com a gente, somos enxame! – chamam.
As abelhas possuem um sofisticado sistema de comunicação. Cada indivíduo é um prodígio da engenharia biológica: está equipado com sensores de temperatura, dióxido de carbono e oxigênio. Seu corpo, carregado de eletricidade estática, atrai grãos de pólen que elas levam de uma flor a outra, fertilizando-as.
O fenômeno atinge dimensões extraordinárias quando observamos o trabalho coletivo. Uma colmeia pode fertilizar milhões de flores em um único dia, numa área correspondente a 700 hectares, equivalente a 350 campos de futebol. Seriam guias da humanidade na comunicação, organização e fortalecimento das comunidades.
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Entre muitas mulheres incríveis, estarão no Fest MEL a deputada federal (RJ) e líder do PSOL Talíria Petrone; a socióloga Laís Abramo, secretária de Cuidados e Família no Ministério do Desenvolvimento Social; a professora da UFRJ e fundadora do NetLab Rose Marie Santini, referência nos estudos sobre desinformação, propaganda computacional e manipulação da opinião pública; Diana Mendes, do Instituto Marielle Franco, cofundadora do Mulheres Negras Decidem e gestora do programa de Equidade Racial do Instituto Ibirapitanga.
Também a deputada estadual por Sergipe Linda Brasil, mestre em educação, ativista LGBTQIA+ e transfeminista. As vereadoras de Porto Alegre (RS) Natasha Ferreira, líder do PT na Câmara; e Atena Beauvoir Roveda, também escritora e poeta. As vereadoras paulistas de São Carlos, Fernanda Castelano; de Caraguatatuba, Cássia Gonçalves; e a professora Talita Cadeirante, duas vezes a mais votada em Taubaté.
E ainda Winnie Bueno, Iyalorixá, escritora e pesquisadora, graduada em Direito pela Universidade Federal de Pelotas; a feminista negra Driáde Aguiar, ativista do Fora do Eixo e gestora da Mídia NINJA; Sofia Amaral, conselheira estadual da Rede Nacional Feminista de Saúde e dirigente municipal do PCdoB; e Carolline Sardá, ativista, criadora de conteúdo e 1° suplente do deputado estadual Marquito (PSOL-SC).
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A força das abelhas está na organização da vida em sociedade: cada um dos indivíduos trabalha pelo bem comum. As colmeias são como cidades populosas altamente eficientes, de dar inveja a qualquer planejador urbano, consideram certos arquitetos.
Entre as fêmeas há a abelha-rainha, maior que as outras, responsável pela postura de ovos, e as operárias, que realizam todas as outras funções – alimentação, coleta de alimento, defesa e limpeza do ninho. Os zangões, em menor número, têm a única função de fecundar a rainha durante o voo nupcial. Raras são as abelhas solitárias e aquelas que sobrevivem saqueando colônias mais fracas.
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Por + Mulheres na política, o Instituto E se fosse você? criou o Plantão de Apoio Colmeia. O plantão presta ajuda contra violência política de gênero e raça a candidatas ou eleitas nas esferas municipal, estadual e federal; servidoras públicas; e mulheres que sofrem alguma restrição no exercício dos direitos políticos: professoras, jornalistas, lideranças de movimentos sociais, ativistas.
“É advogada ou operadora do direito e quer se engajar nessa causa? Entre em contato com a gente e vamos juntas definir estratégias, trocar experiências e fortalecer essa rede de apoio!”, enxamam.
“Se você se identifica e luta por uma psicologia comprometida com as transformações sociais e contra a violência política de gênero e raça, o Festival é seu lugar.”
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As abelhas são a expressão do amor incondicional, considera a Antroposofia. São exemplo de amor e desapego, diz o Espiritismo. O mel é o que podemos chamar de amor líquido, e os seres humanos deveriam usá-lo com profunda reverência, afirmam adeptos da Comunidade Figueira (MG).
Mas as abelhas melíferas estão sendo envenenadas por agrotóxicos, um fenômeno de alcance global. Morrem de toxidade aguda ao sofrer a pulverização do agrotóxico. Perdem o rumo e não conseguem voltar ao ninho quando atingidas por doses subletais. Seu sistema imunológico se enfraquece mesmo com pequenas doses de inseticida.
Um grupo espírita português propõe fazer “um zumbido global gigante” para banir os agrotóxicos do planeta.
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Não existe luta sozinha. “Antes de um festival, o MEL é um abraço coletivo de resistência e esperança. Quer debater, criar e esperançar com mulheres que lutam há décadas por um Brasil mais justo e digno”, diz Manuela.
“Nosso enxame de lutas e resistência não para de crescer. Seguimos juntas, pois quando as mulheres se unem, ninguém pode detê-las.”
Informações e inscrições: www.mel.org.br.
PROGRAMAÇÃO
11 DE ABRIL
15h
Encontro de Procuradorias da Mulher e representantes de Comissão de Defesa da Mulher e Frentes Parlamentares
Iniciativa da Bancada Feminista do PSOL e Instituto E Se Fosse Você?
Local: Auditório Franco Montoro – Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP)
17h
Credenciamento
18h
Lançamento do ElaPod
Realização: Instituto E Se Fosse Você?
19h
PAINEL DE ABERTURA: Qual a razão do ódio contra as mulheres?
Boas Vindas com Manuela D’Ávila e Áurea Carolina
Convidadas: Sônia Guajajara, Ministra de Estado do Ministério dos Povos Indígenas, Alice Evans, cientista social e pesquisadora no King’s College de Londres, Sohaila Abdulali, ativista, pesquisadora e escritora.
FESTA
12 DE ABRIL
8h
Credenciamento
9h30
PAINEL: Cuidar, Maternar, Transformar: A Força das Mulheres na Democracia
Mediação: Talíria Petrone, deputada federal pelo PSOL
Painelistas: Dayse Cristina Campos, trabalhadora terceirizada da educação em Belo Horizonte, Rhaysa Ruas, pesquisadora, professora e advogada popular, Verônica Oliveira, de @faxina boa, Vera Iaconelli e Laís Abramo, Secretária Nacional de Cuidados e Família – MDS
9h30
PAINEL: Justiça climática pela potência das mulheres
Exibição do documentário E se a casa fosse sua?, do Instituto E se fosse você? e do curta-metragem Equilíbrio, de Olinda Muniz Silva Wanderley
Mediação: Áurea Carolina, Rede Nossas
Painelistas: Catarina Elóia Machado (ativista e gestora pública), Solange Brito Santos (articuladora da Teia dos Povos), Tainá de Paula (vereadora e secretária de Meio Ambiente e Clima da cidade do Rio de Janeiro) e Márcia Barbosa (reitora da UFRGS)
9h30
PAINEL: A liderança das mulheres negras em comunidades e territórios
Exibição do documentário Preta Política, da Olhos Abertos Audiovisual e Oxfam, e do curta-metragem Malunga, de Gal Souza
Mediação: Fabiana Pinto, Mulheres Negras Decidem (MND)
Painelistas: Diana Mendes (Instituto Marielle Franco), Valéria Lima (Instituto Mãe Hilda Jitolu), Daiane Pettine (Ilú Obá de Min)
12h
Almoço
Atividade interativa: Prática Muaythai é força (Paula Yurie)
Atividade: Saúde Com: corpos que sentem, vozes que cuidam (Instituto ELAborar)
13h30
Lançamento da campanha Maré de PLs – Rede A Ponte
Em parceria com a Rede A Ponte
14h
BATE-PAPO com criadoras de conteúdo: Como enfrentar o ódio e a misoginia na internet?
Mediação: Dríade Aguiar
Convidadas: Carolline Sarda, Sara Zara, Giovana Abreu, Ágata Pauer e Flávia Gato
14h
RODAS de Cuidado Mútuo – Plantão de Apoio Colmeia
Em parceria com o Plantão de Apoio Colmeia (acolmeia.org), Clínica Feminista Antirracista Interseccional (CliFAI) e Observatório de Gênero, Diversidade e Práticas Políticas
14h
RODA DE CONVERSA Vozes vermelhas: a luta das mulheres comunistas contra o fascismo
Em parceria com a União da Juventude Socialista (UJS)
14h
OFICINA O cuidado como centro da política: experiência legislativa e fortalecimento dos Territórios de Cuidados
Em parceria com o Mandato Cida Falabella e Instituto Alziras
14h
OFICINA Enfrentando as (In)Justiças Reprodutivas – Práxis Feministas Antirracistas
Em parceria com Primavera Socialista, Rede de Pesquisadoras sobre Aborto e pelo Direito de Decidir (REPAD) e Rede de Assistentes Sociais pelo Direito de Decidir (RASPDD)
14h
OFICINA para advogadas sobre Violência Política de Gênero e Raça (VPGR)
Em parceria com o Plantão de Apoio Colmeia (acolmeia.org) e a TamoJuntas
14h
OFICINA Esporte e empoderamento de meninas e mulheres
Proponente: Comitê Esportes do Grupo Mulheres do Brasil
14h
OFICINA Clima de histórias: construindo (auto)narrativas sobre as vivências das mudanças climáticas pelas mulheres
Proponente: Profa Tatiana Souza de Camargo e Profa Marilisa Bialvo Hoffmann (UFRGS)
14h
OFICINA Arte Ancestral e roda de conversa com Cacica Jaxuka Retéegre/RS, de Flávia Hernandes
14h
OFICINA A Arte dos Turbantes – Conectando História e Tradição
Proponente: Carolliny Marques da Rosa
16h
BATE-PAPO Manu e Áurea Carolina convidam Tarciana Medeiros: Como é ser mulher e ser gestora de um dos principais bancos do país?
17h15
Apresentação da pesquisa Mulheres Dialogando pelo Futuro – Instituto Update
Realização: Intituto Update
17h
REUNIÕES DE ARTICULAÇÃO
Rede de Cuidados para Mulheres
Pesquisadoras em Gênero
Educadoras em situação de violência
17h
OFICINA Guia de produção e preservação de provas em casos de violência política de gênero e raça
17h
OFICINA Corpo Cíclico – cuidar de si como forma de resistir
Proponente: Isabel Macedo Avelar
17h
OFICINA A voz da mulher na era digital
Proponentes: Maianí Camargo Gontijo e Ana Gabriela Saboya
17h
OFICINA Identificando e construindo aliadas: estratégias práticas para o combate ao assédio sexual
Proponentes: Aline Bitencourt
18h
BATE-PAPO Manu convida Tati Bernardi: sobre o livro A Boba da Corte
18h30
Sessão de autógrafos e lançamento de livros
Com intervenções poéticas e literárias de Dani Balbi, deputada estadual do RJ, e de Atena, vereadora em Porto Alegre-RS
18h30
Mostra de Cinema do MEL
Cadê Heleny?, de Esther Vital Brasil, Espanha, 2022
A Mãe de todas as Lutas, de Susanna Lira, 2021
19h
ESPETÁCULO TEATRAL Mulheres Atravessadas na Garganta – Cia Dramática (RS)
Festa
13 DE ABRIL
8h30
Credenciamento
9h30
PAINEL Mulheres na Mira: internet, soberania e resistência
Mediação: Mônica Benício, vereadora pelo PSOL RJ
Painelistas convidadas: Marie Santini, diretora do Laboratório de Estudos da Internet e Redes Sociais da UFRJ (Netlab), Andressa Cathy, comunicadora digital, apresentadora e modelo, Márcia Tiburi, filósofa, artista visual, escritora e colunista da Revista Cult, e Lola Aronovich, professora universitária, blogueira e ativista feminista
9h30
PAINEL Futuro em Construção: Mulheres, Trabalho e Inovação em Pauta
Exibição audiovisual: As catadoras de Jacutinga, de Eunice Gutman
Mediação do painel: Natália Bonavides, deputada federal pelo PT-RN
Painelistas convidadas: Priscila Santos Araújo, Coordenadora Nacional do Movimento VAT (Vida Além do Trabalho), Luiza Nassif, Co-diretora do Made e professora do Instituto de Economia da Unicamp e Vivian Libório de Almeida, Diretora de Inovação para Produção Familiar e Transição Agroecológica – SAF/MDA
9h30
PAINEL Por que as pessoas trans são alvos da extrema-direita?
Exibição Documentário Nossas lutas, nossas vozes, direção Edilano Cavalcante, Projeto ENSP – FIOCRUZ
Mediação do painel: Amanda Paschoal, vereadora em São Paulo PSOL
Painelistas convidadas: Helena Vieira, pesquisadora, transfeminista e escritora, Valéria Barcellos, cantora, atriz e performer, Jaqueline Gomes de Jesus, psicóloga, professora universitária e ativista brasileira
11h30
Reunião de articulação da Rede de Proteção Jurídica para Mulheres em Situação de Violência Política de Gênero e Raça
12h30
Almoço
Intervenções da Trupe da Casa Amarela (RS)
14h
Encontro do Movimento MEL
16h30
Encerramento com apresentação do Bloco Afro Ilú Obá de Min
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