Acuado, Petro faz sua grande aposta

Uma análise de seu mandato, que termina em março de 2026. Emparedado pelo Congresso, e por conflitos internos, ele corre contra o tempo para aprovar reformas trabalhistas e da Saúde. Para isso, aposta em plebiscito e na força das ruas

Foto: Gettyimages.ru / Sebastian Barros / NurPhoto
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Por Alejandro Mantilla Quijano, no Nuso | Tradução: Rôney Rodrigues

No período entre 4 de fevereiro e 18 de março de 2025, o governo de Gustavo Petro passou por uma crise interna, uma tentativa frustrada de recomposição, uma grave derrota política e o início de um processo de mobilização. Foram 44 dias agitados que mostram os contrastes do primeiro governo de esquerda e a estratégia de uma oposição sem lideranças unificadoras, mas com capacidade de bloquear as principais iniciativas do oficialismo. São, em suma, 44 dias que abrem o terço final do governo e prefiguram os tempos conturbados da campanha eleitoral de 2026.

Embora Petro tenha vencido as eleições com um programa e uma identidade associados à esquerda, seu gabinete ministerial e sua bancada no Congresso são resultado de uma coalizão instável que inclui diversos líderes da política tradicional. Essa característica é constitutiva do petrismo no poder e tem origem na campanha eleitoral de 2022. Após as mobilizações de 2019 e 2021, diante da crescente impopularidade do governo conservador de Iván Duque e da falta de lideranças fortes na direita e no centro, setores do partido do ex-presidente Juan Manuel Santos (um ex-uribista que migrou para posições menos radicais) buscaram convergir com o Pacto Histórico de Petro. E, após a vitória, operadores de campanha como Armando Benedetti tornaram-se figuras-chave do novo governo.

A instabilidade dessa aliança passou de um risco latente para uma situação esperada. O Conselho de Ministros televisionado em 4 de fevereiro, por uma decisão incompreensível do governo, revelou as tensões internas a centenas de milhares de espectadores. As queixas da vice-presidente – e ex-ministra da Igualdade – Francia Márquez, da então ministra do Meio Ambiente Susana Muhamad, do diretor da Unidade Nacional de Proteção, Augusto Rodríguez, e do diretor do Departamento de Prosperidade Social, Gustavo Bolívar, apontaram para Benedetti e a polêmica Laura Sarabia, hoje ministros do Interior e das Relações Exteriores, respectivamente. Benedetti é uma figura explosiva, e Sarabia, uma jovem funcionária de 31 anos com uma carreira meteórica no governo Petro.

Essa tensão reflete a divisão constitutiva do governo. De um lado, há lideranças vindas dos movimentos sociais, como Francia Márquez, ou com grande proximidade ao presidente, como Muhamad, Rodríguez e Bolívar. Do outro, está Benedetti, um político camaleônico que foi aliado de Álvaro Uribe e depois congressista partidário de Juan Manuel Santos. Apesar de seus antecendentes sinuosos, ingressou no petrismo como chefe de campanha. Laura Sarabia era desconhecida do público até sua entrada surpreendente no círculo íntimo do presidente. Em dois anos e meio, passou de assessora de um senador (Armando Benedetti) a chefe de gabinete presidencial, depois diretora do Departamento Administrativo da Presidência e, finalmente, ministra das Relações Exteriores.

A tensão entre esses blocos do governo se expressou em pelo menos três questões. O papel de Armando Benedetti foi questionado no Conselho de Ministros por graves acusações de violência de gênero contra sua esposa, motivando protestos de altas funcionárias como Márquez e Muhamad e dos movimentos feministas que apoiaram Petro nas eleições. Por outro lado, Benedetti é acusado de manter práticas clientelistas que contradizem o discurso de renovação política de Petro. Foi apontado, por exemplo, como o facilitador de um suposto financiamento ilegal da campanha por um chefe do contrabando. Já Sarabia foi acusada de beneficiar seus familiares usando sua posição estratégica na Casa de Nariño e de facilitar a ação de um lobista ligado a pagamento ilegais para instituições prestadoras de serviços de saúde. Vários funcionários antes próximos de Petro, em especial Muhamad, afirmam que Sarabia restringiu o acesso ao presidente e atrapalhou uma coordenação adequada dentro do Executivo.

Vale destacar que essas tensões internas acompanham o governo desde o início. O primeiro gabinete ministerial durou pouco devido a debates programáticos entre estes dois blocos. Porém, nas últimas semanas, parece ter havido uma mudança qualitativa. Antes o governo Petro mostrava preferência por funcionários mais próximos de seus projeto político e de seu programa de governo, o que se refletiu nas recomposições periódicas de seu gabinete. Agora apoia incondicionalmente Benedetti, que opera como o principal articulador político do governo, e respalda Sarabia como chanceler da República.

Os conflitos internos passam a imagem de um governo marcado por intrigas palacianas que minam sua governabilidade. Curiosamente, alguns sugerem que o próprio Petro alimenta essas divisões. “O presidente gosta de nos ver brigar. Poderia intervir, mas deixa que nos matemos sem sentido”, disse um ministro disse ao El País. Talvez esta postura reflita sua personalidade: valorizar a lealdade pessoal acima de tudo, o que explique a rotatividade em seu gabinete que, só na metade de sua gestão, teve 52 ministros e 126 vice-ministros. Não é por casualidade que no Conselho de Ministros, adotou uma distância de seu gabinete, ao afirmar “o presidente é revolucionário, mas o governo não”. Essa postura pode reforçar sua imagem, mas envenena a construção de um projeto coletivo duradouro.

Entre o Congresso e as ruas

As tensões internas, as dificuldades para consequir maioria no Congresso que permita as reformas trabalhistas e de saúde, assim como a proximidade das eleições de 2026 levara, na primeira semana de fevereiro, ao anúncia de uma mudança no gabinente que, ao final, não representou uma modificação substância da coalização do governo. Além disso, o presidente optou por incorporar novos rostos, mas sacrificando funcionários com mais experiência em pastas estratégicas, como as do Trabalho, Ambiente, Moradia e Defesa.

A mudança na Defesa merece um comentário a parte. Petro nomeou Pedro Sánchez, um general da Força Aérea que deveria se afastar do cargo para tomar posse como ministro. A última vez que um militar comandou a pasta foi em 1991. Paradoxalmente, foi um governo progressista que se atraveu a alterar uma tendência estabilizadora nos últimos 34 anos: a direção civil da Segurança. Não é por acaso que as principais organizações de direitos humanos criticaram a nomeação e apontaram preocupação de uma possível “deriva militarista”.

Benedetti celebrou de forma antecipada uma vitória com a aprovação da reforma da Saúde na plenária da Câmara dos Representantes no começo de março. Mas a alegria durou pouco. Em poucos dias, a maioria da Comissão VII do Senado anunciou que fundiria o projeto de reforma trabalhista, uma derrota para os novos ministro do Interior e do Trabalho. Buscando reagir a esta manobra, Petro convocou uma mobilização popular durante este debate legislativo e apontou que convocaria uma consulta popular para que povo pudesse decidir sobre as reformas sociais frente a negativa da maioria do Congresso.

A mobilização de 18 de março confirmou a capacidade de mobilização do governo federal, ao articular uma marcha exitosa nas ruas, mas também comprovou seus problemas diante do Congresso, pois não impediu que a reforma trabalhista desmoronasse. Mais que um embate entre o Executivo e o Legislativo, cujo resultado era previsto, essa mobilização foi o início de uma campanha para inflamar uma consulta popular em favor das reformas promovidas pelo governo.

A proposta de consulta popular é uma resposta à oposição que bloqueia no Congresso as iniciativas mais importantes do governo. E o governo tenta canalizar o descontentamento com o Congresso e manter seu núcleo duro de apoio. Mas a proposta de consulta popular vai além das reformas que o motivaram, pois abre um cenário mobilizador que coincide com a reta final da campanha do governo para buscar maior apoio popular e facilitar algum tipo de convergência antes das eleições de 2026.

A estratégia complementar do governo consiste em aprovar alguns pontos da reforma trabalhista por decreto, diante da oposição do Legislativo. Mas essa estratégia abre um debate jurídico sobre se as mudanças prometidas em questões trabalhistas podem ser forjadas com regulamentações que não têm força de lei. No entanto, mesmo que tivesse sucesso nessa empreitada, ainda ficaria com um gosto amargo na boca do porquê demorou tanto para usar seus próprios canais institucionais para alcançar essas mudanças.

Fracasso da “paz total”?

A mudança no Ministério da Defesa ocorre em meio a confrontos crescentes entre vários grupos armados. Somente na região do Catatumbo, território que faz fronteira com a Venezuela, a ofensiva do Exército de Libertação Nacional (ELN) contra os dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), hoje conhecidas como Estado-Maior dos Blocos e Frentes (EMBF), resultou na morte de 76 pessoas (63 civis, 6 signatários da paz, 4 menores de idade e 3 líderes sociais), o desaparecimento de cinco signatários da paz (membros de grupos armados que depuseram as armas), o deslocamento forçado de 55.659 pessoas e o confinamento de 23.860.

Enquanto isso, um confronto entre a EMBF e o Bloco Amazonas — outro grupo dissidente das FARC — liderado pelo conhecido Iván Mordisco no departamento de Guaviare, no sudeste do país, deixou pelo menos 20 mortos. Em meados de fevereiro, uma incursão de membros do ELN deslocou 70 signatários da paz que estavam reunidos na Área de Reincorporação de Nova Omaira Díaz, localizada em Yondó, na região do Magdalena Medio, atualmente disputada pelo ELN, grupos dissidentes das FARC e os paramilitares do Clã do Golfo. No sudoeste do país, a cidade de El Plateado continua sob o controle dos dissidentes das FARC, apesar da reconquista prometida pelo Exército Nacional.

Essa onda de violência que marcou os primeiros meses do ano tem dois fatores em comum. A assinatura do Acordo de Paz de 2016 abriu novas frentes de guerra entre atores que buscam tomar territórios anteriormente controlados pelas FARC ou buscam ganhos territoriais em um momento de reorganização das partes em conflito. Por outro lado, os diferentes grupos armados sentaram-se à mesa de negociações com o governo nacional no âmbito da “paz total”, estratégia promovida por Petro que buscava negociar com todos os grupos armados mais representativos.

A escalada das tensões armadas pode ser interpretada como evidência do fracasso da política de resolução do conflito armado. No entanto, o governo afirma que vários processos de paz estão avançando apesar das dificuldades. A mesa redonda do EMBF, liderada por Calarcá Córdoba, que atua em Meta, Guaviare e Caquetá, implementou acordos sobre a titulação de terras. O encontro com o Coordenador Nacional do Exército Bolivariano, coalizão de dissidentes das FARC liderada por Walter Mendoza, conseguiu superar o impasse causado pela prisão de um de seus negociadores. Em diálogos com os paramilitares das Forças de Autodefesa dos Conquistadores da Sierra Nevada, houve avanços em acordos sobre proteção das comunidades. E em Buenaventura, a trégua entre as gangues criminosas urbanas Los Shottas e Los Espartanos foi mantida, e as negociações com os Comuneros del Sur, um grupo dissidente do ELN, também estão avançando.

Em resumo, há duas tendências que marcam a política de paz. Por um lado, as mesas de diálogo continuam, em alguns casos com a implementação de acordos, mas o confronto armado está se aprofundando. Por outro lado, os diálogos levaram à divisão e dispersão de grupos armados, dificultando ainda mais o progresso em direção a uma política de paz abrangente. A dispersão de atores em um contexto de disputas territoriais e tensões armadas pode gerar incentivos à um cerco territorial e à busca pelo controle de recursos, situação que pode tornar cada vez mais difícil avançar em direção a uma política de paz mais consistente e com resultados concretos.

A oposição

Nos dois anos e meio do governo Petro, a agenda da oposição de direita se concentrou em bloquear os projetos do partido no poder em vez de defender os seus. A firme crença no modelo neoliberal e na continuação da guerra como meio de regulação política levou esses setores a uma estratégia de persistência na obstrução. Em outras palavras, seu projeto consiste em se alegrar diante dos possíveis fracassos do governo nacional. No entanto, eles têm dois problemas associados: a incapacidade de se fundirem em um único projeto e a falta de uma liderança unificada.

O cenário de uma consulta popular poderia embaralhar as cartas e levar a uma reorganização do espectro político da oposição. Por um lado, está sendo formada uma aliança de partidos tradicionais, na qual liberais, conservadores, o Partido U e o Novo Liberalismo se uniriam; aliança que buscaria se articular com partidos pequenos e com ideias semelhantes. O segundo ator nesse espectro é Germán Vargas Lleras, cujo partido se chama Mejor Vargas Lleras, uma das figuras mais reconhecidas da direita tradicional. Apesar dos maus resultados eleitorais no passado, ele agora se apresenta como uma figura que busca unir diversos setores da oposição, tanto no meio empresarial quanto no poder político tradicional.

O terceiro é o bloco de Uribe, representado pelo Centro Democrático, principal força de oposição e a mais significativa da extrema direita colombiana. O Centro Democrático tem atualmente vários candidatos presidenciais apoiados por seu principal líder, o ex-presidente Álvaro Uribe. Há também a pré-candidatura de Vicky Dávila, uma renomada jornalista que se apresenta como uma espécie de outsider de extrema direita, buscando emular a retórica do argentino Javier Milei e do salvadorenho Nayib Bukele.

Por fim, no centro político que não se alinha com Petro, destacam-se o ex-prefeito de Medellín Sergio Fajardo e a ex-prefeita de Bogotá Claudia López. Eles certamente tentarão levantar bandeiras contra a polarização e contarão com suas experiências anteriores como governadores locais para impulsionar suas candidaturas.

A consulta popular sobre reformas sociais pode dar à oposição a chance de construir uma gramática comum, permitir uma coordenação que reduza suas diferenças e avaliar a capacidade de mobilização de seus pré-candidatos presidenciais, pois lhes daria a oportunidade de lançar suas campanhas mais cedo.

E a esquerda pós-Petro?

Na reta final do mandato do governo, já é possível dizer que muitas das expectativas de seus apoiadores foram limitadas, não atendidas ou bloqueadas por atores externos. O governo não conseguiu aprovar reformas sociais significativas nem iniciar uma transição para um modelo econômico diferente; não vislumbra um caminho claro para substituir as economias do narcotráfico, nem há qualquer sinal de que novos acordos de paz possam ser cristalizados.

Apesar das dificuldades, o governo não ficou desprovido de acertos. Embora ainda esteja longe de reverter a desigualdade histórica na propriedade da terra, a política agrária facilitou o acesso à propriedade para camponeses, indígenas e afro-colombianos, atuou em casos emblemáticos de desapropriação e fortaleceu a organização de comitês de reforma agrária em quase metade dos municípios do país.


Com uma campanha eleitoral começando cedo, surge a questão do destino da esquerda. A falta de pré-candidaturas fortes neste campo evidencia um problema de sucessão que deve ser abordado (na Colômbia, a reeleição presidencial não é permitida). Além disso, o protagonismo de Benedetti e Sarabia revela que grande parte da liderança do governo nos últimos anos não se baseou na esquerda ou nos movimentos sociais que lideraram a revolta social. Portanto, é provável que a proposta de frente ampla atualmente apresentada pelo governo não seja encabeçada por um líder de esquerda, mas sim por um dos aliados do establishment tradicional.

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