Bolsonaro usa o vírus para reinventar tortura

O corona é seu comparsa: anônimo, destrutivo e instrumento para rechaçar qualquer ideal de coletividade e impor ao país sua política de terra arrasada. Ele confisca o tempo presente — e nos remete às violências do nosso passado ditatorial

Título original do ensaio: confiscar o tempo, sequestrar os corpos

Por Fábio Zuker, publicado originalmente no blog Desestrutura

Todos caminamos sobre huesos, es cuestión de hacer
agujeros profundos y alcanzar a los muertos tapados
Mariana Enríquez

Em um recente ensaio que publiquei no Nexo Jornal1 propus uma leitura do ritual palaciano diário criado por Jair Bolsonaro. Escrevi então que receber apoiadores, hostilizar a imprensa, ameaçar a democracia e proferir impropérios à ordem política estabelecida em meio a uma pandemia, pode ser lido como um ritual marcado pelo dissenso. O ritual possui significados invertidos para apoiadores ou opositores do presidente: para uns trata-se de u ritual de cura, para outros, de adoecimento.

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Gostaria aqui de aprofundar um ponto, apenas pincelado anteriormente: a projeção do corpo de Bolsonaro sobre o corpo da nação torna os cidadãos prisioneiros seus. Bolsonaro torna intrínseca esta relação entre o seu corpo e o país, ao conjugar corpos torturáveis e matáveis com a instauração de uma nova ordem política, dependente dele próprio. Afinal, parece ser o corpo do presidente que importa, quando formula: “depois da facada, não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar”

Há uma confusão proposital entre o corpo do presidente com o corpo da nação. Tal pensamento tem uma história precisa nas instituições modernas ocidentais – repleta de misticismo, vale dizer. Ernst Kantorowicz realizou um estudo detalhado sobre o argumento de juristas e teólogos medievais de que o rei possui dois corpos: um corpo físico, sujeito a morte; e um corpo abstrato, que se mistura com o corpo da nação e é imortal. Kantorowicz fala de um fundamento jurídico que surgiu na Baixa Idade Média, mas se recusa a acreditar que ele tenha ficado restrito ao passado. São “ axiomas de uma teologia política que, mutatis mutandis, continuaria em vigor até o século XX”2. Sua referência é explicita ao nazisfascismo europeu, que floresceu concomitantemente à pesquisa histórica do autor.

A necropolítica bolsonariana está calcada em violências cometidas no passado. É esta a forma que o presidente elencou para travar uma guerra contra todos que com ele não concordem, imediatamente transformados em inimigos. Se governar é sempre aliar-se com os mortos, Bolsonaro não hesita em pactuar com aqueles mortos que, quando vivos, dedicavam-se a produção de mortos para criar a realidade que desejavam. Pois a tortura, sabe-se desde as pioneiras pesquisas de Foucault em Vigiar e Punir, é uma máquina de produção de verdades, que não tem fim até que o torturado assuma aquilo que o torturador anseia ouvir.

Bolsonaro emerge como um presidente-torturador. Um presidente que encontra na tortura uma forma de criar um novo mundo. Torturar toda uma população para que o país adquira a forma que ele anseia em poder apreciar, tal como um escultor que se digladia diariamente com um rígido bloco de pedra a fim de esculpi-lo. Ao reativar a tortura, Bolsonaro ambiciona sequestrar o próprio tempo, recusando a elaboração de traumas sociais – ainda que tímidos e incompletos. Elaborações coletivas, como aquelas pretendidas pela Comissão Nacional da Verdade, estão na origem dos sentimentos que alçaram Bolsonaro ao poder.

Daí a politização do vírus por parte do presidente. Bolsonaro encontra nele um comparsa de tortura destrutivo e relativamente anônimo – como deve ser um bom auxiliar que infringe dor no corpo alheio. O vírus é utilizado pelo presidente em sua estratégia de terra arrasada. O confisco do tempo permite o retorno do passado da tortura. Hoje, ele toma forma como abate, um abate geral de corpos.

1 Fábio Zuker. Cura, doença e tortura: o ritual palaciano de Jair Bolsonaro https://www.nexojornal.com.br/ensaio/debate/2020/Cura-doen%C3%A7a-e-tortura-o-ritual-palaciano-de-Jair-Bolsonaro

2 Ernest KANTOROWICZ, Os dois corpos do Rei. Companhia das Letras: São Paulo, 1998 [1957], p. 10.

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