A política dos problemas inexistentes
Imigração. Vestuário muçulmano. Banheiros unissex. Na estratégia de guerra cultural da ultradireita, agitar fantasmas tornou-se ponto crucial. Por que ele é eficaz, em meio à crise da democracia? Quais os contravenenos?
Publicado 19/01/2026 às 16:40 - Atualizado 19/01/2026 às 16:41

A ascensão da extrema direita em diferentes países tem sido acompanhada por uma dinâmica recorrente no debate público: a centralidade conferida a problemas que possuem baixa ou nenhuma relevância empírica. Trata-se de uma estratégia política que desloca o foco das questões estruturais para conflitos simbólicos, frequentemente importados de outros contextos nacionais, com o objetivo de mobilizar afetos, produzir identidades rígidas e aprofundar divisões sociais.
No Brasil, esse fenômeno foi bastante claro na primeira campanha presidencial de Jair Bolsonaro, onde a fabricação intensa de fake news foi baseada em temas que dominaram a campanha de Donald Trump em 2016. Julgo que as análises sobre “mamadeiras de piroca” e “kit gay” já estão mais que feitas e proponho avançar para o presente. A política dos problemas inexistentes no presente pode ser observada com nitidez no debate artificialmente criado sobre imigração e costumes culturais. Apesar de o Brasil ser historicamente marcado pela emigração, com milhões de brasileiros vivendo no exterior, setores da extrema direita passaram a adotar um discurso alarmista sobre uma suposta ameaça migratória. Embora a imigração não seja (ainda) um tema que a extrema direita traga como fundamental, já existem debates internos sobre a possibilidade de este ser trazido à tona. Já circulam em grupos bolsonaristas montagens sobre “invasões” de imigrantes venezuelanos no Brasil e falsos dados sobre fluxos migratórios, apontando o Brasil como grande receptor de imigrantes.
É evidente que este é um não problema. Dados demográficos mostram que pessoas nascidas fora do país representam cerca de meio por cento da população brasileira, proporção insuficiente para sustentar a ideia de uma crise migratória. Ainda assim, a imigração já é apresentada como vetor de desordem social e perda identitária, em clara dissociação da realidade concreta.
O mesmo mecanismo se manifesta na insistência em temas ligados ao vestuário islâmico. A deputada estadual Ana Campagnolo (PL-SC), por exemplo, mantém em suas redes sociais um discurso recorrente sobre burcas, hijabs e a “ameaça cultural” associada ao islamismo. O curioso, do ponto de vista analítico, é que tal debate se desenvolve em um país onde a presença de mulheres que utilizam véu integral é estatisticamente irrelevante. O objeto do discurso não é uma prática social disseminada, mas um símbolo importado, capaz de condensar medos difusos e operar como marcador ideológico.
Essa lógica não é uma particularidade de Ana Campagnolo. Em Portugal, país onde resido atualmente, o debate público recente foi atravessado por uma intensa controvérsia sobre a eventual proibição da burca, impulsionada sobretudo pelo partido Chega, de extrema direita. O tema ganhou projeção política e midiática desproporcional à sua expressão social concreta. Estudos e dados oficiais indicam que o número de mulheres que utilizam burca ou niqab em Portugal é residual, não configurando um problema de ordem pública, segurança ou integração social. Ainda assim, a questão foi mobilizada como símbolo de uma suposta ameaça à identidade nacional.
O caso português revela de forma exemplar a importação de agendas simbólicas. O debate sobre o vestuário islâmico não emerge de uma experiência social cotidiana ou de conflitos concretos amplamente disseminados, mas da circulação transnacional de pautas já consolidadas em outros contextos europeus, sobretudo na França. Ao ser transplantado para realidades distintas, o tema perde qualquer lastro empírico, mas preserva sua utilidade política como instrumento de polarização.
Na França, esse processo é ainda mais antigo e sistemático. Desde o início dos anos 2000, o vestuário islâmico se tornou um eixo recorrente do debate público francês, com sucessivas leis, proibições e controvérsias envolvendo o hijab, o niqab e, mais recentemente, a abaya. O número reduzido de mulheres afetadas por essas medidas contrasta com a centralidade do tema no discurso político, evidenciando que sua função principal não é a resolução de um problema concreto, mas a construção de um conflito simbólico permanente.
Nos Estados Unidos, a fabricação de não problemas assume outras formas: temas como o uso de banheiros por pessoas trans, a presença de drag queens em bibliotecas ou a circulação de determinados livros em escolas são amplificados até se tornarem supostas crises nacionais, alimentando pânicos morais que desviam o debate de problemas estruturais como desigualdade, acesso à saúde e precarização do trabalho. Algo semelhante aconteceu no Brasil nas eleições de 2022, onde o tema “banheiro unissex” foi um dos mais citados nas redes sociais.
Um ponto central nesse contexto é que a dignidade de pessoas islâmicas, imigrantes e pessoas LGBTQIA+ frequentemente é sequestrada pelas estratégias discursivas da extrema direita. Não se trata de desvalorizar suas pautas, que envolvem problemas reais e urgentes como discriminação, violência, exclusão social e precarização, mas de mostrar que a instrumentalização dessas questões para criar crises imaginárias distorce a percepção pública sobre elas. A esquerda deve assumir uma postura proativa, determinando a agenda do debate com termos próprios, colocando no centro as demandas reais das pessoas e não os medos fabricados pelo conservadorismo. Um exemplo inspirador é o movimento VAT pelo fim da escala 6×1 no Brasil, liderado por Rick Azevedo e Erika Hilton, que conseguiu trazer a redução da carga de trabalho para o centro do debate, dialogando com trabalhadores e trabalhadoras de diferentes identidades sociais. Essa ação demonstra que é possível combinar luta por justiça social, direitos de grupos historicamente marginalizados e construção de solidariedade ampla, propondo soluções concretas para problemas reais da vida cotidiana.
Reconhecer a lógica da fabricação de problemas inexistentes, no entanto, é apenas o primeiro passo. O desafio político central consiste em formular respostas capazes de neutralizar essa estratégia sem reproduzir seus termos. A extrema direita prospera porque oferece narrativas simples e emocionalmente potentes. Combater essa tendência exige não apenas desmentir falsos problemas, mas disputar ativamente os significados de comunidade, futuro e projeto coletivo.
Nesse sentido, redes e plataformas internacionais progressistas são essenciais. Na América Latina, o Instituto Futuro busca articular pensamento político e prática social voltada à justiça social, democracia e direitos humanos. Entre seus membros estão líderes como Gabriel Boric, presidente do Chile, e Gustavo Petro, presidente da Colômbia, além de Guilherme Boulos, atual ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República no governo Lula, contando ainda com diversas figuras acadêmicas, ativistas e representantes de movimentos sociais de diferentes países. O instituto atua na construção de alternativas para políticas públicas, debate democrático e estratégias de esquerda que conectem experiências regionais com pautas estruturais e inclusivas.
Na Europa, a European Left Alliance (ELA) reúne partidos de esquerda de diversos países, como Bloco de Esquerda (Portugal), Podemos (Espanha) e La France Insoumise (França). A ELA se compromete com direitos humanos, justiça social, proteção ambiental, igualdade de gênero, defesa de serviços públicos e combate à austeridade, promovendo cooperação transnacional entre forças progressistas europeias e fortalecendo a capacidade de ação política coordenada contra a extrema direita.
Mais do que reagir aos temas impostos pela extrema direita, a esquerda precisa recuperar a capacidade de determinar a agenda pública. Isso passa por recolocar no centro do debate a ideia de comunidade não como identidade excludente, mas como projeto compartilhado, combinando proteção social, reconhecimento e horizonte de futuro. Em sociedades marcadas por insegurança econômica, precarização do trabalho e erosão de vínculos sociais, a promessa de pertencimento oferecida pela extrema direita encontra terreno fértil. Disputar essa promessa exige oferecer uma alternativa que articule propostas concretas de transformação, como políticas de habitação, trabalho decente, transição ecológica justa e fortalecimento dos serviços públicos, apresentadas como partes de um projeto coletivo de sociedade.
A insistência da extrema direita em problemas inexistentes revela, paradoxalmente, sua incapacidade de oferecer respostas para os dilemas reais do presente. Cabe à esquerda ocupar esse vazio, não reagindo ao medo fabricado, mas propondo sentidos, vínculos e perspectivas que devolvam densidade ao debate democrático. Em um mundo atravessado por crises múltiplas, a disputa política decisiva não será apenas sobre quais problemas existem, mas sobre quem é capaz de oferecer um horizonte comum capaz de organizar o futuro.
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