O Peru prestes a rechaçar os neoliberais

Falta um tris para novo revés da direita. Pedro Castillo, professor marxista desconhecido e conservador nos costumes, falou aos pobres e pode tornar-se presidente. Um acordo uniu a esquerda e permitiu politizar a eleição

Por Jaime Bordel Gil, em El Salto | Tradução: Antonio Martins

Acirradas ao extremo, prestes a ser decididas pela diferença sutil de menos de 1% dos votos, as eleições presidenciais peruanas podem ser, no entanto, uma cor forte no novo panorama polítco sul-americano. Pedro Castillo, líder de um partido marxista – porém de base interiorana e quase desconhecido em Lima há bem pouco – está a um passo de se tornar presidente. Faltando pouco mais de 4% das urnas por apurar (às 19h30 de 7/6), ele tem vantagem de 87 mil sufrágios, pouco mais de 0,5% do total apurado. Sua dianteira só não é definitiva ainda porque faltam, além de pouco mais de 250 mil votos a apurar em território peruano (quase todos em regiões remotas, que lhe dão ampla vantagem), um número semelhante no exterior, onde rua rival, Keiko Fujimori, vence até o momento por 62% a 38%.

A eleição é atípica e cheia de sinais. Filha do ditador Alberto Fujimori – condenado por currupção e preso desde 2006 –, Keiko expressa o giro das elites peruanas à direita. Obteve apenas 13,4% de apoio num primeiro turno hiper-fragmentado. Mas apesar da baixa votação e de seu programa abertamente retrógrado, conseguiu unir um vasto arco de apoios que inclui, além das oligarquias, a maior parte da classe média de Lima, onde está cerca de um terço dos eleitores.

Sua provável derrota deve-se a outro fenômeno inesperado. Pedro Castillo, professor e líder grevista da região de Cajamarca – onde os espanhóis executaram, em 1533, Atahualpa, o último imperador inca – soube expressar o sentimento antissistema das maiorias. Foi o mais votado no primeiro turno, com 19%. Superou de longe a candidata da esquerda alternativa urbana, Veronika Mendoza, que obteve 7,8%. Para galvanizar o sentimento do Peru profundo, assumiu um programa de costumes conservador, que incluía a condenação verbal do feminismo e restrições à diversidade sexual e de gênero.

Nas oito semanas entre os dois turnos das eleições, contudo, os setores que expressam a oposição ao neoliberalismo souberam estabelecer alianças. Veronika Mendoza apoiou Castillo, com base no compromisso deste último, de “respeitar os direitos de todos os cidadãos do Peru” e na proposta de convocação de uma Assembleia Constituinte. Aparada esta divergência, a polarização deu-se em torno do essencia. Uma candidatura partidária da reprimarização econômica, da redução do Peru a exportado de minérios; outra, favorável e um programa de luta pela igualdade, de garantia de serviços públicos de qualidade, de criação de um Previdência Social pública e de um vasto programa de obras de infraestrutura. Os eleimentos essenciais desta disputa, que pode ajudar a mudar o cenário político da América do Sul, estão descritos no texto a seguir. (A.M.)

Apuradas as urnas da eleição presidencial deste domingo, 6 de junho, os peruanos parecem prestes a derrotar Keiko Fujimori, de direita autoritária, e a escolher o professor Pedro Castillo para comandar o país pelo próximo quinquênio. Filha de Alberto Fujimori, o ex-presidente condenado por crimes contra a humanidade, Keiko sempre pertenceu a uma direita neoliberal com nuances autoritárias. Castilli, até há pouco um completo desconhecido, declara-se marxista-leninista e mantém posições muito conservadoras em relação aos direitos civis e reprodutivos. A eleição opõe candidatos que propõem dois modelos de país antagônicos e que podem colocar um candidato de esquerda à frente de um dos países historicamente mais conservadores da América Latina.

Pedro Castillo, o professor que virou “favorito”

Pedro Castillo Terrones, professor, sindicalista e militante das rondas camponesas – patrulhas civis auto-organizadas em atividade desde os anos mais difíceis do terrorismo – vive e trabalha em Puña, município de apenas 300 habitantes localizado na região de Cajamarca, interior do país. Depois de vencer Keiko Fujimori por seis pontos no primeiro turno, manteve-se à frente em quase todas as pesquisas, embora sua vantagem tenha se reduzindo na reta final, quando sobreveio um empate técnico.

Seu programa, defende m processo constituinte, a nacionalização de setores estratégicos, o estabelecimento de um sistema de previdência pública e normas que obriguem as mineradoras a reinvestir uma porcentagem de seus lucros em território nacional. Significará uma enorme reviravolta, mesmo se implementado parcialmente.

Duramente criticado em diversos meios de comunicação por sua inexperiência e por se candidatar a eleições com um programa de apenas 73 páginas, Castillo tornou-se o candidato preferencial dos setores mais desfavorecidos do país no primeiro turno. O interior votou em massa no professor de Cajamarca, que varreu as áreas tradicionalmente mais esquecidas pela política peruana.

A questão regional não é menor no Peru e, ao longo da campanha, Castillo contrapôs o povo e as elites por meio da oposição entre Lima e as regiões mais pobres, no interior do país. Em seu último ato de campanha para o primeiro turno, entrou na capital peruana a cavalo acompanhado de seus seguidores. Assim continuou desde o primeiro momento da campanha para o segundo turno. Obrigou sua adversária Keiko Fujimori a travar o primeiro debate em sua cidade natal, Chota, município de 300 habitantes da região de Cajamarca, uma das mais pobres de o país apesar de ter a maior mina de ouro do continente.

Com slogans como “nunca mais um pobre em um país rico”, Castillo conseguiu conquistar o apoio dos setores mais desfavorecidos do país, varrendo as regiões com menor renda per capita. Sua fórmula para acabar com a pobreza é aumentar significativamente os orçamentos de Saúde e Educação e lançar um ambicioso programa social que inclui ensino universitário gratuito, um sistema público de aposentadorias e a melhora da infraestrutura pública por meio do aumento do investimento estatal.

Para financiar esse desembolso, Castillo propõe nacionalizar setores estratégicos, como o gás, e obrigar as mineradoras a reinvestir seus lucros no país. No entanto, como muitos observadores já apontaram, o programa Peru Libre não inclui uma profunda reforma tributária que onere os grandes proprietários e as rendas mais altas para financiar o aumento dos gastos sociais. Castillo justifica essa ausência alegando que seria suficiente a propriedade pública dos recursos naturais e maiores impostos sobre as mineradoras, o que revela uma possível limitação de seu modelo de país no longo prazo.

Como em outros países antes governados pela esquerda latino-americana, esse tipo de modelo nacional poder gerar uma dependência em relação ao extrativismo e ao mercado de commodities. Uma espécie de “Estado Compensador”, como o chamaram pensadores como Eduardo Gudynas, distribui os lucros gerados pelos recursos naturais, mas não redistribui a riqueza por meio de impostos progressivos. Em consequência, quando caem os preços dos recursos naturais, não há quase nenhum fundo para manter seus ambiciosos programas sociais.

Aqui está um dos pontos mais duvidosos do programa econômico de Castillo, que no plano político propõe convocar uma Assembleia Constituinte para superar a Constituição de 1993, aprovada pelo governo de Alberto Fujimori. Uma proposta que há alguns anos poderia soar utópica, mas que, graças ao exemplo de seus vizinhos chilenos, hoje parece mais plausível do que nunca. O plano constituinte de Castillo se pareceria em sua estrutura com o do país vizinho, uma vez que prevê um referendo de entrada, onde os cidadãos votarão se desejam ou não convocar uma Constituinte, eleições para a assembleia e um plebiscito de ratificação do texto. No entanto, ao contrário do Chile, é muito provável que este seja um processo muito mais centralizado e dirigido pelo Executivo, como já aconteceu nos processos da Venezuela, da Bolívia e do Equador.

Uma esquerda conservadora

Apesar das profundas transformações sociais e econômicas que Castillo propõe, seu discurso não convenceu muitos partidários da esquerda peruana. Seus ataques às instituições e suas idéias extremamente conservadoras sobre gênero e direitos LGTBI geraram muitas dúvidas em amplos setores. O programa Peru Libre inclui a descriminalização do aborto, mas “discorda que seja utilizado como uma espécie de método anticoncepcional”, e inclui trachos muito criticados pelo movimento feminista como o citado a seguir: “Nosso país deve iniciar um processo de despatriarcalização que carregamos como herança colonial, ou seja, banir o machismo, sem que isso signifique instalar seu extremo oposto, o feminismo. Assim, o problema da liberdade das mulheres não reside na diferença sexual, mas no modelo social a que pertence”.

Castillo também se posicionou contra a introdução de uma perspectiva de gênero na educação, na eutanásia e no casamento entre pessoas do mesmo sexo. Um conjunto de medidas de difícil aceitação por muitos progressistas e que o candidato justifica com base numa alegada defesa da família.

Seu pacto com a esquerda da candidata Veronika Mendoza para o segundo turno pode ajudar a moderar essa tendência ultraconservadora. Ambos os líderes assinaram um compromisso no qual Castillo promete respeitar a democracia, a liberdade de imprensa e “os direitos de todos os cidadãos do Peru”, em clara alusão aos direitos LGTBI. Mendoza, que nos últimos anos tem se destacado como uma firme defensora do feminismo e dos direitos da comunidade LGTBI, acabou apoiando o professor de Cajamarca, aludindo ao momento histórico que o país atravessa e confiando uma Assembleia Constituinte possa consagrar essas exigências.

Castillo chegou ao segundo turno reforçado pelo apoio de Mendoza, e com um discurso que tentou evitar os aspectos mais polêmicos de seu programa, no que muitos analistas descreveram como um exercício habitual de moderação no segundo turno eleitoral. Em 2011, o candidato de esquerda, Ollanta Humala, praticou um exercício semelhante de moderação, embora muito mais profundo do que o de Castillo, o que lhe permitiu conquistar apoios como o do Prêmio Nobel e ex-candidato presidencial Mario Vargas Llosa, que o ajudou a derrotar Keiko Fujimori. Desta vez, Castillo não foi tão longe e optou por não abrir mão dos aspectos fundamentais de seu programa em questões políticas e econômicas. Em troca, teve que enfrentar uma dura campanha de demonização por parte da direita,.

Antiizquierdismo ou antifujimorismo

A adversária de Castillo foi Keiko Fujimori, filha do ex-presidente que, após um autogolpe, estabeleceu um regime autoritário na década de 1990. Com um programa que reivindica a herança econômica e social de Fujimori , Keiko é experessão do neoliberalismo de direita latino-americano, e se apresentou com um programa de continuidade que defendia a Constituição de 1993 e promovia poucas mudanças em matéria econômica e social.

Ao longo da campanha, Keiko tentou firmars-e como candidata da conciliação, a única capaz de garantir a sobrevivência da democracia e da paz social ameaçadas pelo comunismo e pela “luta de classes” supostamente promovida por seu adversário. Essa estratégia, mais focada em mostrar o quão terrível seria seu adversário do que apresentar um projeto para o país, pareceu dar frutos nas últimas pesquisas, nas quais a candidata chegou a quase um empate técnico com Castillo. O objetivo da dirigente de Fuerza Popular não era entusiasmar ninguém, mas fazer com que o pânico por Castillo e a “venezuelização” do país levasse a maioria dos eleitores a cerrar fileiras em torno de sua candidatura.

Foi uma tentativa de inverter o cenário das eleições anteriores, quando a Keiko sofreu esse tipo de ataque no segundo turno. Em 2011 foi derrotada por diferença mínimo por Ollanta Humala, e em 2016, contra Pedro Pablo Kuczynski, ficou ainda mais perto, e perdeu a eleição por 40 mil votos, apesar de ter dobrado o adversário no primeiro turno.

Desta vez. Fujimori entendeu perfeitamente o momento político e conseguiu conquistar a simpatia daqueles que participaram do veto anti-Fujimori há alguns anos. O exemplo mais claro é o Prêmio Nobel de Literatura e o ex-candidato Mario Vargas Llosa, que enfrentou seu pai nos anos 1990 e até pouco tempo atrás era um ferrenho opositor de Fujimori. O escritor ligou esta semana de sua residência na Espanha para apoiar Keiko a pretexto de “salvar a democracia peruana” e, nas últimas semanas, esteve ativamente envolvido em sua campanha, intervindo em vários eventos públicos online. Uma situação impensável até a chegada de Pedro Castillo.

A irrupção do professor do chapéu chotano virou de cabeça para baixo a política peruana, que nas últimas décadas girava em torno do eixo Fujimori / anti-Fujimori. Desta vez, surgiu um novo eixo, o do anticomunismo, manejado pelos conservadores para levar setores contrários a Fujimori a votarem em Keiko Em mais uma derrota da direita sul-americana, também esta estratégia naufragou.

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