Nuestra America: os cinco séculos de solidão

Por vezes, uma insônia coletiva aflige os latino-americanos, como na mítica Macondo, de García Márquez. Vida e sonhos são interditados — mas não as espoliações. Construir o pós-pandemia exigirá retomar as insurgências e o olhar solidário

Chega a ser exaustivo o tamanho leque de análises e resenhas sobre uma das obras-primas mais comentadas e lidas da América Latina: Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez. Há poucos meses, contudo, fomos surpreendidos por uma belíssima película da Fundacíon Gabo intitulada “La peste del insomnio”. Como de costume, confesso que assisti ao curta-metragem algumas dezenas de vezes.

As cenas são de uma América Latina vazia, quieta e solitária. Atrizes e atores latino-americanos de grande visibilidade, aqui e fora do continente, realizam a leitura de um de seus trechos mais impactantes: o período em que o distante e misterioso povoado de Macondo é acometido por uma insônia coletiva alucinante. Eu, que sofro da mesma “peste”, conheço bem os descaminhos tortuosos que carrega.

As cenas pandêmicas – provavelmente filmadas por um drone – são aterradoras, causando mal estar e inquietude aos indignados. Como pôde aquela América Latina em chamas de alguns meses estar agora quieta e amedrontada? O que aconteceu com a Bolívia pós-Golpe de Estado contra o seu primeiro presidente indígena? Onde estava aquela juventude empunhando bandeiras pluriculturais de rebeldia, no Chile? Qual seria o destino de um México que cambaleia entre o progressismo e a subserviência? Existiria adesão e seriam fortalecidas as massas precarizadas de serviços que saíam às ruas do Brasil contra aplicativos vigilantes e desumanizadores?

Entretanto, as cenas do curta não fazem parte da realidade imediata que nos acomete: regiões de Nuestra América permaneceram inquietas mesmo em tempos solitários, de isolamento e quarentena. A solidão que vivemos dentro de nossos lares, com os nossos amores, familiares e conhecidos, mais distantes do que gostaríamos, é apenas parte de um intrincado momento de desespero – para alguns, privilégio. Um pedaço estranho da realidade.

Durante a peste da insônia que acometeu os moradores de Macondo, que são nada mais, nada menos, que nós latino-americanos, trouxe, inicialmente, certa comodidade. Não teria trazido a pandemia para todos nós? Afinal, precisaríamos retornar aos nossos insuportáveis espaços de trabalho? Não seria mais cômodo continuar em casa? Ela não passaria depressa, como em outras regiões do mundo? Mas essa comodidade não veio só. Trouxe certa negação e incerteza. No livro, foi assim que José Arcádio Buendía saudou a chegada da peste.

Quando falo de negação, não tenho em mente o negacionismo obscurantista bradado por figuras patéticas como o “não-presidente” do Brasil, Jair Bolsonaro, mas de nossa própria e íntima negação – individual e coletiva. Quem aceitaria de bom grado relegar planos futuros que nos trariam mudanças, novas experiências e desafios? Poucos. Mas tivemos de nos contentar, calados. A incerteza de que não haveria mais um futuro também começou a atribular a mentes e os corações. Certa comodidade atordoante, negação e incerteza ainda rondam cada esquina, avenida, periferia, montanha, aldeia, morro e becos latino-americanos.

A personagem Visitación, velha índia que tudo ouvia e sabia dentro da linhagem Buendía, foi a primeira que reconheceu os males daquela peste. Apesar de apontarem o que falava como “superstição indígena”, logo os acometidos permaneceriam sem dormir durante meses, desconhecendo até mesmo os seus próprios nomes e a presença da morte. A peste, em Macondo, passou. Um remédio mágico trazido por Melquíades, grande amigo de José Arcádio, traria ao povoado o sono, as lembranças e a vida – novamente.

Muitos dentro de suas casas, solitários e inseguros, esperam pela vacina mágica que venha de onde vier. Outros, impossibilitados de em casa permanecer, quando pão e teto buscam sem cessar, continuam a viver a intrincada realidade latino-americana de cinco séculos de solidão, negação e incertezas – com doses homeopáticas de comodidade. Poderíamos trocar essas palavras por exploração, desolação e subserviência de povos que nunca viram o sangue que jorra de suas veias ser estancado. O pós-pandemia não seria o momento perfeito para a construção do tão esperado “homem novo” de Che, ou das grandes alamedas onde um dia de espera que passará o “homem livre” de Allende?

Hoje, mesmo exaustos, os que não se resignaram esperam pela “cura mágica” de uma pandemia que nos retirou o pouco de futuro que tínhamos. E ela virá. Com ela, teremos de reinventar esse futuro e negar com veemência a normalidade que nos será imposta. Os sentimentos de solidão terão de se transformar em solidariedade; os planos que traçamos, individuais e coletivos, precisarão ser aprimorados, quiçá reinventados; as bandeiras rebeldes por igualdade e liberdade plenas terão de bradar novamente. Não podemos e nem seremos uma estirpe condenada a mais um século de solidão. ¡Basta ya!

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