Cuba em perigo
Após o assalto à Venezuela, a situação da ilha caribenha, já castigada, piorou muito. Um golpe pode se concretizar até final de 2026. Defendê-la é questão de princípios. Pois Cuba não é prova de que o socialismo não dá certo – é exatamente o contrário
Publicado 29/01/2026 às 19:15

O que significa dizer defesa “incondicional” da URSS? (…) Quer dizer que, independentemente do motivo (…) defendemos as bases sociais da URSS, se esta for ameaçada pelo imperialismo.[1]
Leon Trotsky
- A situação em Cuba mudou para pior, qualitativamente, após o ataque do passado 3 de janeiro e sequestro de Maduro e Cília Flores. A suspensão do abastecimento de petróleo venezuelano foi, parcialmente, compensada pelo Mexico, mas está ameaçada. A aposta de Trump é apertar o estrangulamento econômico para incendiar o mal-estar social, e ameaçou como iminente um desmoronamento do regime. A imprensa norte-americana divulgou declarações em off de autoridades em Washington confirmando a existência de um plano de derrubada do regime até o final de deste ano de 2026. Trump provocou anunciando ninguém menos que Marco Rubio, atual secretário de Estado, de família de origem cubana como um bom nome para a presidência. Esta dramática avalanche coloca um desafio estratégico para a esquerda mundial, em especial a latino-americana. A defesa de Cuba diante do imperialismo é uma questão de princípios. O projeto de deslocamento do governo cubano é contrarrevolucionário. A queda do governo seria uma derrota histórica de impacto somente comparável ao fim da URSS em 1991. A restauração do capitalismo seria selvagem, e Cuba seria recolonizada. Um protetorado norte-americano em Havana, semelhante à condição de Porto Rico seria devastador para toda a América Latina.
- A situação interna em Cuba é de imensa penúria, infelizmente, cada vez mais parecida com os anos noventa do período “especial”. Os blackouts castigam a ilha com a falta de luz por várias horas ao dia, e nem sequer as grandes cidades são poupadas. A escassez é generalizada, desde alimentos até os medicamentos. A maioria da população vive em condições materiais de sacrifício. Ainda em 2024, Cuba pediu apoio ao PMA, o Programa Mundial de Alimentos da ONU diante das necessidades das crianças. A pandemia produziu uma contração econômica estimada em mais de 10% do PIB. A crise sanitária reduziu a quase nada o turismo, e agudizou a escassez de divisas fortes, dólares e euros, essenciais para o financiamento de importações, e controle da inflação. Desde 2020 algo próximo um milhão de cubanos deixaram a ilha, na luta pela sobrevivência. Por que esta terrível vulnerabilidade? Porque Cuba permanece, dramaticamente, cercada pelo bloqueio de Washington, agravado por novas sanções do governo Trump. Somente a 150km da Florida, Cuba conheceu o triunfo da primeira revolução socialista nas Américas em 1959, e até hoje ainda resiste como um Estado independente. O imperialismo yankee considera esta situação inaceitável. A burguesia cubana nos EUA é hoje muito mais forte do que era quando fugiu para os EUA. Ela é uma fração da classe dominante yankee, a mais poderosa do mundo. Ao contrário dos capitalistas chineses na diáspora ela recusou qualquer negociação com Cuba e mantém, irreconciliavelmente, a defesa do bloqueio. Descartada uma estratégia militar que resultaria em uma guerra civil, a aposta é um cruel, lento, e inflexível asfixiamento econômico para fomentar uma crise social e a subversão interna.
- O isolamento de Cuba, agravado com a evolução desfavorável da relação política de forças no sistema mundial diante da ofensiva de Trump pela preservação da supremacia dos EUA, explica o contexto atual. Cuba não é uma prova de que o socialismo não dá certo, mas, exatamente, o contrário. Durante décadas, Cuba entusiasmou o mundo com façanhas sociais extraordinárias, atingindo resultados na educação e saúde pública muito superiores aos de países com muito mais riquezas naturais, e realizações científicas como o desenvolvimento autônomo de vacinas contra o coronavírus em tempo recorde. A propriedade social e o planejamento econômico provaram sua superioridade, em comparação com Estados capitalistas em estágio semelhante de desenvolvimento econômico-social. Não faz sentido comparar Cuba com a Espanha. Mas é justo comparar Cuba com os vizinhos países centro-americanos ou caribenhos e o desempenho cubano foi, até o fim da URSS, um sucesso. O processo de transição pós-capitalista foi interrompido por muitos fatores. Mas a burguesia interna que veio se constituindo aproveitando oportunidades de negócios favorecidos pelo próprio governo, buscando aumentar a capacidade produtiva e, também, atrair investimentos externos, está fora do poder. Mas parece ser incontornável reconhecer que há uma fratura geracional em Cuba, depois de tantos anos de sacrifícios devastadores.
- A estratégia de Trump é a subversão do regime provocada pelo estrangulamento externo. O mal estar social na ilha aumentou na medida que a vida foi ficando mais difícil. Mas as razões que podem levar as pessoas às ruas, mesmo quando são legítimas e compreensíveis, como em 2021, não são um fator suficiente para a caracterização de quaisquer mobilizações como progressivas. Ser de esquerda não nos obriga a apoiar qualquer mobilização. São quatro os critérios, na tradição marxista, para formar um juízo sobre a natureza de um protesto: quais são as reivindicações ou programa, qual é o sujeito social, quem cumpre o papel de sujeito político e quais são os resultados prováveis. Reivindicações justas não são o bastante. Se o sujeito social é popular tem importância, mas tampouco é o bastante. Se a direção é reacionária, ignorar o desfecho mais provável é uma leviandade. Trata-se de objetivismo. Objetivismo é a desvalorização do papel da direção e a desconsideração do desenlace que ela procura. A luta pelo poder é o coração da luta de classes. Uma desestabilização do governo cubano para devolver a ilha para a burguesia de Miami seria uma tragédia histórica
- Em Cuba a alternativa não é entre ditadura e democracia, mas, como na Venezuela e Irã, entre independência ou recolonização. Defender Cuba diante das pressões imperialistas não justifica alinhamento incondicional com ações do governo do Partido Comunista liderado por Diaz-Canel. Ao contrário, uma atitude solidária internacionalista honesta deve ser crítica, tanto na estratégia quanto na tática. O que significa que aqueles que defendem a revolução devem poder exercer os direitos democráticos de expressão. Inclusive diante de pressões burocráticas perigosas. Em dezembro de 2025, mês passado, Alejandro Gil, ex-ministro da Economia de Cuba, foi condenado à prisão perpétua. As acusações incluem espionagem, corrupção, suborno e crimes econômicos, segundo o Supremo Tribunal Popular de Cuba. Ele teria abusado de sua função para benefício pessoal e facilitado informações a entidades estrangeiras. Ainda assim, a sobrevivência de Cuba é uma prova impressionante das façanhas realizadas pela revolução até os anos noventa. A maioria dos Estados que conquistaram independência política na onda de revoluções anti-imperialistas que se seguiram à vitória da revolução chinesa e cubana perdeu esta conquista: Argélia e Egito são exemplos, desta regressão histórica, posterior a 1991. Neste marco a responsabilidade do Brasil e, em outra escala, da China na solidariedade é inescapável. Cuba está em perigo.
[1] Leon Trotsky. Novamente e uma Vez Mais, Sobre a Natureza da URSS.
Consulta em 13/07/2021.
https://www.marxists.org/portugues/trotsky/1939/10/18.htm
Outras Palavras é feito por muitas mãos. Se você valoriza nossa produção, contribua com um PIX para [email protected] e fortaleça o jornalismo crítico.
