A crise das estátuas e a tirania do presente eterno

O fluxo ininterrupto das news nos mantém apenas assistindo — e impede a ação. Bem como são os monumentos aos antigos opressores: petrificação do passado, para controlar o futuro. Derrubá-las é expor, também, o anacronismo desse sistema

Por Mayra Marques, Mateus Pereira e Valdei Araujo

O interesse despertado pelo movimento de derrubada de estátuas contrasta com a falta de reação perante as agressões cotidianas a que assistimos. A violência policial contra pessoas negras e pobres é sistemática e estrutural no Brasil, mas foi preciso que o movimento Black Lives Matter ganhasse maior projeção para que o debate se tornasse mais presente na imprensa e nas redes sociais brasileiras, ainda que os movimentos negros e os movimentos pelos direitos humanos estejam denunciando essas práticas há muito tempo. Segundo dados da plataforma Google Trends, o brasileiro nunca pesquisou tanto sobre racismo como no ano de 2020, especialmente após o tema viralizar em escala global1.

Essa oscilação entre um interesse viral e o esquecimento das violências cotidianas parece ser uma característica de nosso tempo atualista. Como o valor dos fatos está associado à sua atualidade, o fluxo incessante de notícias dificulta a sua permanência. Assim, mesmo os nossos mais graves problemas precisam ser alimentados por uma cadeia ininterrupta de news para não retornarem à invisibilidade e ao esquecimento. O sujeito atualista alimenta-se desse fluxo de notícias e pode ter a ilusão de que ele tem o mesmo valor que a ação. Enquanto a informação nos empodera para agir, o fluxo das news (e mesmo das fakenews) nos convida a continuar assistindo, de um problema a outro, de um afeto a outro, a depender do que viraliza e desperta as tempestades de likes e reações nas redes sociais. O auge desse fenômeno são os comentários em tempo real à programação 24 horas dos canais que vendem o fluxo das news como entretenimento em plataformas como o Youtube.

Frente a um presente que se reproduz em função da atualidade evitando, assim, a transformação, o sujeito atualista oscila entre dois estados: a busca de atualização, e o medo da obsolescência. A condição atualista é caracterizada por uma percepção de que a realidade se reproduz automaticamente movida por forças que já não podemos ou queremos controlar. É uma situação que cria a ilusão de que agir não vale a pena, não é possível ou mesmo necessário. As repetições com novidades, que se sucedem em fluxo, assim como a agitação tecnológica, tornaram-se uma indústria, fazendo com que a expectativa de atualizações seja constante, o que causa uma confusão temporal que dificulta a identificação, a ação e a produção de rupturas. A ação se confunde com a divulgação e o compartilhamento pelas redes. Acordamos, checamos nossos grupos de WhatsApp e compartilhamos aquilo que reforça nossas crenças, sem muita preocupação com seus efeitos colaterais no mundo real.

As reações populares contra a violência policial, o racismo e outras formas de discriminação e violência parecem possuir um potencial anti-atualista. Ao irem às ruas com bandeiras e slogans muito bem formulados, esses movimentos agem para atualizar o mundo anacrônico; infiltram no tempo homogêneo das news o “escândalo” do evento, do acontecimento que desloca o ordinário e transforma o antes e o depois a partir do entrecruzar de diversas temporalidades. Nas ruas, outras histórias são possíveis; historicidades que não podem ser traduzidas pela indústria da notícia.

As pessoas envolvidas nesses movimentos não acreditam que problemas profundos, como o racismo, serão resolvidos por uma atualização automática do sistema, pois elas entendem que é o próprio sistema que se tornou anacrônico e se recusam a pertencer a essa historicidade hegemônica. Para muitos de nós, que acompanhamos tudo pelas telas (the black mirror), o evento é confundido com a última notícia; assim, tudo dele nos escapa. Acreditamos poder dormir tranquilos entretecidos pelas notícias.

Em 16 de setembro, na Colômbia, indígenas do povo Misak derrubaram a estátua do conquistador espanhol Sebastián de Belalcázar. O Movimiento Autoridades Indígenas del Suroccidente definiu o episódio como um “julgamento histórico” do conquistador, condenando-o pelo roubo de terras e pelo genocídio dos povos originários da região. A estátua, segundo o grupo, “faz parte da violência simbólica” que os “oprimiu e colocou em um lugar de esquecimento”2. O prefeito de Popayán considerou o ato um vandalismo e anunciou uma recompensa de 5 milhões de pesos para quem entregasse os responsáveis pela derrubada, o que levou apoiadores do movimento a levantarem a hashtag #AlcaldefuyYo (prefeito, fui eu). Dias depois, o Ministério da Cultura da Colômbia anunciou, para a satisfação dos manifestantes, que a estátua não voltaria para a Pirâmide Ancestral de Tulcán, de onde foi derrubada. Um dos diretores do ministério comentou que esta é uma oportunidade de “avançar na restauração da memória” e “gerar espaços acadêmicos com os grupos das comunidades para contar a história que não tínhamos contado”3.

Segundo a nota do Conselho Regional Indígena de Cauca, ao longo do ano de 2020 já haviam sido assassinados na região 65 integrantes de comunidades indígenas sem que a justiça colombiana demonstrasse qualquer celeridade nas investigações.4 O documento denuncia o descaso de parte da sociedade e do governo com essas mortes, e afirma por isso “saudar o ato de valentia e a mensagem que o povo Misak hoje entrega à Cauca, à Colômbia e ao mundo; decolonizar o pensamento e reconstruir nossa própria história é um caminho para construir um novo país”

Foto: Detalhe do vídeo que acompanha a nota da AISO – Autoridades Indígenas do Sudoeste.

O episódio é assim descrito no manifesto: “As Autoridades Indígenas do Sudoeste (AISO), que realizaram uma marcha pacífica na cidade de Popayán, chegaram no sítio sagrado ‘El Morro de Tulcán’ em um ato político, amparado por direito próprio, contra o genocídio, demolindo a estátua do espanhol Sebastián de Belalcázar, que significa genocídio, racismo, escravidão e discriminação dos povos indígenas, imagem que segundo a história foi feita a um dos maiores genocidas dos povos indígenas […]”

O afã em defender ou destruir estátuas pode ser fruto de uma noção de patrimônio criticada pelo filósofo francês Henri-Pierre Jeudy em seu célebre ensaio de 2001, A Maquinaria Patrimonial. O autor analisa como o processo de patrimonialização ocorrido em países da Europa se tornou um modelo homogeneizador a ser seguido globalmente, como se o espelhamento, ou seja, a identificação da sociedade com seu patrimônio, pudesse ser algo naturalizado e mecânico, sem lugar para o inesperado e acidental. Este espelhamento seria “um modo determinante de preservação da ordem simbólica de uma sociedade”5 e ela pressupõe uma vontade supostamente coletiva de atualizar determinados passados, de se ver narcisicamente refletido neles. O patrimônio, segundo Jeudy, é uma ordenação das memórias que tem como objetivo representar as identidades de determinada sociedade, a fim de construir também memórias futuras. Mas é preciso estar atento ao perigo que ronda a patrimonialização: o da petrificação do passado com objetivo de controlar sua transmissão para o futuro.

Esse congelamento da patrimonialização talvez explique porque a estátua de Belalcázar tenha permanecido tanto tempo em um local sagrado para os descendentes de povos cujos antepassados sofreram perdas imensas em consequência da guerra de conquista, seja lutando ao lado do conquistador pelas conhecidas práticas de aliança e cooptação, seja resistindo a ele em um cenário de conflitos interétnicos. O monumento foi erguido pelas elites locais em 1937 em comemoração ao 4o. centenário de fundação da cidade. Foi o segundo em homenagem ao conquistador erguido naquele ano, ambos de autoria do escultor espanhol Victorio Macho. O monumento projetava no passado a vontade de poder daquelas elites, tornando herói um personagem histórico complexo e polêmico, mesmo em sua época.

Essa petrificação é o que ocorre com a atualização atualista do passado, ou seja, uma tentativa de atribuir a ele uma presença fixa que pretende durar como um presente eterno. Assim, no caso das estátuas, podemos pensar que apenas quando elas estão sob ameaça passam a ter sua importância em um regime patrimonial que se abre ao inesperado e ao acidental. O grande escândalo que a onda de deslegitimação de eventos e personagens traz para a consciência atualista é descobrir que para transmitir e ocupar o futuro não basta conservar e guardar um passado que se toma como atualizável, mas que esse patrimônio possa ser recusado e considerado sem valor de transmissão.

A crise das estátuas nos obriga a interromper a máquina de transmissão e nos convida a repensar a história. Essa atualização narcísica automatizada não é possível para boa parte das pessoas, que não se consideram representadas por estátuas que homenageiam racistas e eventos do processo de colonização europeia. Isso talvez só não ocorra com maior frequência porque a colonização em seu formato nacional envolveu a produção de cooptação cultural e emotiva a favor de valores e padrões étnicos europeus que se reproduzem até hoje. Muitos de nós choramos com Ana Paulo Arósio e Thiago Lacerda em novelas globais como Terra Nostra, apenas uma de muitas que celebraram a imigração italiana no século XX sem qualquer referência ao projeto de branqueamento social contra a população negra que estava por trás desta política promovida pelas elites republicanas.6

Para muitos brasileiros, assim como para o nosso presidente, Jair Messias Bolsonaro, o branco é tratado como a representação do brasileiro ideal. É o que ficou registrado na infeliz frase do general Mourão acerca do próprio neto: “Meu neto é um cara bonito, viu ali? Branqueamento da raça”.7 Em geral, na ausência do branco celebra-se o moreno como o negro melhorado. É interessante notar que o mesmo Mourão já afirmou que não existe preconceito no Brasil: “Não vejo preconceito no Brasil, sinceramente.”8

Na lógica de inversões promovida pelo bolsonarismo, a frase “não vejo cor” proferida pelo presidente, quando foi questionado sobre a diminuta presença de negros em sua equipe, é emblemática do que boa parte das elites políticas e econômicas pensam. Bolsonaro afirma que suas escolhas são guiadas apenas pelo mérito, sem discriminar, sem ver raça ou gênero. Uma afirmação que na superfície pode até soar benevolente, mas que na prática esconde séculos de discriminação e violência. A alegada seleção por mérito acaba por entregar o poder majoritariamente a homens brancos. Ou apenas os homens brancos possuem mérito, o que reforça a ideologia da supremacia racial, ou essa seleção enxerga muito bem as cores e privilegia os brancos. Não faltam motivos, portanto, para o movimento negro (600 entidades e várias personalidades) ter pedido o impeachment de um presidente pela primeira vez na história, já que as políticas de seu governo “agravam a política de genocídio contra a população negra”.9

Assim, o que verificamos no Brasil é uma discriminação e/ou violência não-dita a favor de quem é visto como branco ou mais branco. Algumas vezes de forma inconsciente, outras não. Essa discriminação perpassa as nossas vidas de forma sistemática, como bem comprova o comentário supracitado do general Mourão. Mas voltemos ao nosso ponto inicial: é somente por processos de grande violência simbólica e real que um corpo negro pode “esquecer” ou “negar” a sua condição e se sentir confortável em uma nação majoritariamente representada como branca. O documentário A negação do Brasil (2000), de Zoel Zito, sobre o negro nas telenovelas brasileiras, mostra de forma inequívoca essa situação.

A socióloga argentina Elizabeth Jelín também entende que a atualização do passado, feita pelas memórias, tem relação não apenas com as demandas do presente, mas também com aquilo que se deseja deixar para o futuro. A forma como essa autora entende a atualização é diferente de Jeudy: “na verdade, a memória não é o passado, mas a maneira com que os sujeitos constroem um sentido para o passado, um passado que se atualiza em seu enlace com o presente e também com um futuro desejado no ato de rememorar, esquecer e silenciar”.[4] A atualização do passado também provoca a atualização de sentimentos em relação ao passado. Jelín toma o exemplo das ditaduras da América do Sul, sobre as quais as pessoas muitas vezes se perguntam: como foi possível que algo tão terrível acontecesse? Podemos pensar essa mesma atualização de sentimentos em relação à escravidão: presenciar o racismo e a violência contra a população negra ao mesmo tempo em que se vê estátuas que homenageiam escravagistas nos faz pensar e sentir como foi possível, e como ainda é possível, que atos tão cruéis aconteçam.

Assim, quando lideranças indígenas colombianas recusam a história colonial em nome de um projeto nacional mais justo e solidário, atualizam e projetam um outro passado que não aquele de cooptação e guerras étnicas. A complexidade desse gesto, e talvez o seu alcance, depende do quanto essa atualização se distanciará de uma mera projeção narcísica e se abrirá para as possibilidades da história acontecida, ou seja, da sua capacidade de ser uma atualização histórica (uma repetição transformadora) e não um mero reflexo atualista.

A atualização pode ser um processo de redução da temporalidade complexa da história ou algo latente na relação passado-presente-futuro, pois há heranças e traumas passados que se refletem no presente e podem permanecer para as gerações vindouras. É possível perceber os dois tipos de atualização na questão da derrubada de estátuas: a atualização atualista, daqueles que defendem a manutenção das estátuas como patrimônio congelado, e a atualização histórica, reivindicada pelos grupos que não só não se sentem representados por esse patrimônio, como sofrem com as consequências das violências cometidas no passado ao qual estão vinculadas parte dessas estátuas.

A obsolescência é uma condição inerente às estátuas, que chega cedo ou tarde. E a sua atualização, seja histórica ou atualista, é relativa, pois cada situação deve ser analisada dentro de suas especificidades. E as possibilidades são muitas: serem retiradas, ganharem novas placas explicativas; serem ressignificadas com performances, serem transferidas para museus ou, ainda, substituídas por outras formas de monumentos, que homenageiam os diversos grupos sociais. O que não faz sentido é mantê-las alheias sem expor, sem revelar a dimensão cruel do passado que muitas delas podem rememorar e que ainda está presente nas desigualdades que oprimem grande parte da população dos mais diversos países e lugares.


1 https://www.geledes.org.br/brasileiro-nunca-pesquisou-tanto-na-internet-sobre-racismo-quanto-em-2020/

2 https://www.eltiempo.com/colombia/otras-ciudades/sebastian-de-belalcazar-indigenas-misak-tumbaron-la-estatua-del-conquistador-espanol-popayan-538221

3 https://www.elespectador.com/noticias/nacional/estatua-de-sebastian-de-belalcazar-no-regresara-al-morro-del-tulcan-en-popayan/

4 https://www.cric-colombia.org/portal/si-al-gobierno-le-indigna-la-violencia-contra-las-estatuas-a-nosotros-nos-duelen-las-vidas-existentes-que-nos-arrebata-la-violencia-de-carne-y-hueso/

5 JEUDY, Pierre. A Maquinaria Patrimonial. IN: O espelho das cidades. Tradução de Diane Janowitzer. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2005, p. 10.

6 https://m.leiaja.com/cultura/2019/02/21/5-novelas-com-italianos-no-dia-do-imigrante-italiano/

7 https://oglobo.globo.com/brasil/mourao-diz-que-neto-branqueamento-da-raca-23134844

8 https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/09/nao-vejo-preconceito-no-brasil-diz-general-hamilton-mourao.shtml

9 https://www.brasildefato.com.br/2020/08/11/pela-primeira-vez-na-historia-movimento-negro-pede-o-impeachment-de-um-presidente

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