Mato Grosso do Sul exporta carne com sangue indígena

Professora Ana Sueli Firmino, da etnia Terena

Milhares de cabeças de gado ocupam terras indígenas e dizimam seu povo, diz professora Ana Sueli Firmino, terena da aldeia Buriti, na primeira de três entrevistas com mulheres sobre desigualdade no campo

Por Oxfam Brasil

O estado do Mato Grosso do Sul tem, segundo o IBGE, mais de 60 mil indígenas, que lutam há décadas pela demarcação de suas terras, hoje ocupadas por fazendeiros. Nesse conflito, o saldo é amplamente desfavorável aos povos indígenas. O direito histórico à terra dos povos originários é desrespeitado pelo governo federal, que não toma as devidas medidas para demarcação dos territórios, e pelos grandes empresários do agronegócio local. No Mato Grosso do Sul, por mais absurdo que possa parecer, a vida dos milhares bois e vacas tem mais valor do que a dos indígenas.

“Essa carne (produzida no Mato Grosso do Sul) está saindo com sangue. Está sendo vendida, exportada, à custa de derramamento de sangue. É todo um povo que está sendo dizimado”, afirma Ana Sueli Firmino, indígena Terena da aldeia Buriti [1], do Mato Grosso do Sul, que participou de oficina organizada pela Oxfam Brasil em São Paulo com mulheres de diversos movimentos sociais, lideranças de povos indígenas e comunidades tradicionais, para discutir a relação de mulheres do campo com a concentração de terras e o modelo de agricultura adotado no Brasil.

Em 2106 lançamos o relatório Terrenos da Desigualdade: terra, agricultura e desigualdades no Brasil rural  e nele mostramos diversos dados que revelam a grande concentração de terras no país, como o fato de as maiores propriedades terem sido as que mais receberam incentivos e foram melhoradas, com acesso a créditos, pesquisa e assistência técnica com o objetivo de produzir para exportação ou atender à indústria agroindustrial.

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Biopoder à moda das elites matogrossenses

Liderença dos Terena do Mato Grosso do Sul denuncia, em 2013, assassinato de integrante da etnia, em reintegração de posse executada pela polícia

Liderença dos Terena do Mato Grosso do Sul denuncia, em 2013, assassinato de integrante da etnia, em reintegração de posse executada pela polícia

Anulação de demarcação das terras dos Guarani Kaiowá e dos Terena, decidida pelo STF em 2014, viola os parâmetros internacionais de direitos humanos

Por Konstantin Gerber e João Vitor Cardoso

I´ll take to a place, where we should find our roots, bloody roots
Sepultura

Os letrados utilizam-se de um termo sofisticado, a biopolítica, para se referir a um poder disciplinar e normalizador que se aplica, da mesma forma, ao corpo e à população, que permite a um só tempo controlar o corpo e os acontecimentos aleatórios de uma multiplicidade biológica; mas aqui é preciso ser mais didático, bastando trocar as letras de lugar, trata-se da boipolítica, em que a vida de um boi vale mais do que a vida de um Kaiowá.

Sob uma crença no Deus-mercado, é melhor exportar gado do que viver na e com a floresta. Este era o dito projeto de desenvolvimento da Presidenta Dilma Rousseff, que também é o mesmo da ditadura, sem qualquer perspectiva de interculturalidade.

Este é um conflito que reflete o contraste entre tradição e modernidade. Nele, povos indígenas sofrem os efeitos “modernizantes” do colonialismo. São oprimidos pela violência do poder disciplinar e reduzidos às reservas indígenas atuais, geralmente consideradas uma negação aos direitos do Juruá (como os Guarani se referem ao branco). Tratam-se estas áreas como nada mais que um obstáculo ao progresso econômico, mais uma anomalia do que um instituto jurídico. Continuar lendo

O que fazer pelos Guaranis Kaiowás?

Comitê de Solidariedade organiza, nesta sexta-feira, atos e arrecadação de recursos em mais de vinte cidades. Em São Paulo, haverá show na quinta

Por Taís Capelini

Quem se sensibiliza com a luta dos guaranis-kaiwás já tem novas maneiras de lutar por eles, além de homenageá-los em nomes no Facebook. Nos próximos dias, dezenas de organizações, articuladas no Comitê de Solidariedade ao povo Guarani-Kaiowá, realizarão eventos para dar repercussão à causa dos índios e arrecadar os recursos necessários a que continuem resistindo na região.

Atos em solidariedade aos índios estão sendo articulados em pelo menos vinte cidades do Brasil, na próxima sexta-feia (9/11). O convite é para que as pessoas levem faixas, protestem e tomem as ruas para chamar atenção a situação no Mato Grossodo Sul. Em São Paulo, ocorrerá uma marcha, com concentração às 13 horas no MASP. De lá as seguirão até o Tribunal Regional Federal (TRF) da 3ª Região, onde estão sendo julgadas ações relativas às terras dos guaranis-kaiowás. O destino final será a sede da União da Indúsria da Cana-de-açúcar (Unica). A entidade representa o agronegócio do açúcar, que há décadas pressiona os índios e os expulsa de seus territórios.

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A violência não cessa contra os guarani-kaiowás

Enquanto a Funai arrasta processo de demarcação de terras, indígenas do Mato Grosso do Sul continuam no alvo dos pistoleiros. A mais recente vítima é um cacique de 59 anos que resistia ao descaso

Pelo menos um líder indígena foi baleado com armas de grosso calibre e, possivelmente, acabou morrendo na manhã desta sexta-feira (18) no Mato Grosso do Sul. Nísio Gomes era seu nome. Tinha 59 anos e encabeçava um grupo de aproximadamente 60 guarani-kaiowás que lutam pela demarcação de um pedaço de terra entre os municípios de Amambaí e Ponta Porã, a 30 minutos da fronteira com o Paraguai.

“Ele está morto”, lamentou um dos companheiros do cacique. “Não é possível que tenha sobrevivido com tiros na cabeça e por todo o corpo.” Os relatos da comunidade apontam que pelo menos outras duas pessoas — uma mulher e uma criança — estão desaparecidas e podem também haver sido alvo dos projéteis. Outras versões dizem que existem mais três vítimas: dois jovens e uma criança.

Testemunhos de lideranças indígenas da região e de pessoas que presenciaram o ataque asseguram que os atiradores chegaram ao acampamento Tekohá Guaiviry, onde os guarani-kaiowás estão instalados, por volta das 6 horas da manhã em caminhonetes modelo Hilux e S-10. “Estavam todos com máscaras e jaquetas escuras. Pediram para todos irem para o chão. Portavam armas calibre 12”, disse um sobrevivente ao Conselho Indigenista Missionário (CIMI), organismo pertencente à igreja católica e vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). “Chegaram para matar nosso cacique.”

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