Bolsonaro: Quando o fogo é prisioneiro da fogueira…

Filho 03 como embaixador no EUA e ministro “terrivelmente evangélico” são apenas estratégias para o Brasil arder enquanto se retira direitos e conquistas sociais. Prisioneiro de “incêndio sem fim”, seu governo está fadado às cinzas da história

O desgoverno é um caos calculado. Quase todos os dias é preciso plantar disparates, semear intrigas e gerar confusão. Essa lógica perversa é necessária para alimentar um incêndio sem fim, e fazer do fogo um prisioneiro da fogueira, como dizem os versos de João Cabral.

O antepenúltimo disparate do capitão reformado é a indicação de um ministro “terrivelmente evangélico” da AGU para uma vaga no STF. Ou seja, o fanatismo religioso como (anti)critério de excelência profissional. Resta saber como um magistrado “terrivelmente evangélico” daria um parecer jurídico num Estado laico. Ou seria o despacho de um juiz em estado de transe com o divino?

O penúltimo disparate do capitão foi a indicação do filho 03 para ocupar o posto de embaixador do Brasil em Washington. A filiação é o critério principal. A embaixada mais importante e a mais estratégica sob todos os ângulos pode ser dirigida por um neófito de extrema-direita. Neste caso, extremismo rima com nepotismo. Uma das qualidades do 03 é ter “fritado hambúrguer” no Colorado, como ele mesmo declarou.

Parece um pastelão filmado no submundo de uma republiqueta desta América. Mas não é um filme de quinta categoria. Não se trata de obra ficcional. Se essa indicação for aprovada pelo Senado, poderá gerar graves consequências para o país. Além disso, seria um insulto ao Itamaraty e à esmagadora maioria de seu corpo diplomático. E um insulto também à memória de grandes intelectuais e escritores que trabalharam no Itamaraty e honraram a cultura brasileira: Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Antonio Houaiss, Vinicius de Moraes, entre outros. Sem falar dos romancistas, poetas e tradutores, na ativa e aposentados.

O caos, a desfaçatez, a provocação, as ameaças, a violência (não apenas verbal) e a arruaça são fundamentais para ofuscar o desgoverno e sua irrefreável sanha de destruição de algumas conquistas políticas, de bem-estar social e direitos humanos. Por isso, o incêndio não pode ser debelado.

No futuro, esse desgoverno será relegado à insignificância e à obscuridade. Quem interpreta e julga o passado não são legisladores divinos, e sim mulheres e homens no mundo terreno.

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