Esquerda não está imune ao risco de datenização do debate político

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Caso do estupro coletivo no Rio inunda redes sociais e nos convida a uma reflexão sobre banalização da violência; não estamos repetindo a lógica imediatista do jornalismo cão?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Ontem eu passava por um ponto de táxi e tinha uma TV transmitindo o programa do Datena. E lá estava ele, narrando uma cena de um frentista sendo massacrado por um bando. Muitos chutes na cabeça. Covardia pura – e replicada “n” vezes pelo programa, sob o pretexto de promover a indignação coletiva. Mas com pelo menos um efeito contrário: a banalização da violência. A edição repete a cena, voltam os pontapés, e apresentamos à sociedade (e com o nome de jornalismo) a nossa cota diária de barbárie televisionada. Nem mortes a TV se poupa mais de transmitir. “Veja agora o momento do tiro”. E assim por diante.

E fiquei pensando no Datena. Observando. Pela primeira vez percebi que suas sobrancelhas lembram muito a de um grande ídolo meu, o cineasta Federico Fellini. Nada menos. E somente elas, claro. De qualquer forma, a figura do apresentador me intriga. Não somente ela, mas o seu sucesso. Ou talvez, guardadas as proporções, ele tenha outra característica do diretor italiano: o carisma. Ainda que às avessas, com outros propósitos, outras referências. E o desafio reflexivo passa a ser o seguinte: o quanto não resvalamos – cognitivamente ou emocionalmente – com posições dignas de José Luiz Datena? Continuar lendo

Roger, Huck e Fernanda não são lá muito defensáveis; mas será essa a agenda crítica possível?

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Leandro Karnal. Quem? “Não seria melhor discutir o Luciano Huck?”

Autores mais densos e debates mais ricos nos permitiriam entender melhor de onde vêm aquelas figuras tão tristes, de onde surgiram e a que servem esses ruídos

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Não se trata aqui de defender o obscurantismo político de Roger, do Ultraje a Rigor. Ou o convite boçal de Luciano Huck para as jovens brasileiras ficarem com estrangeiros, definidos como “príncipes encantados”. Ou as diatribes improvisadas de Fernanda Torres sobre feminismo; menos ainda sua curiosa percepção sobre machismo. Muito pelo contrário. Mas de tentar identificar uma overdose da reação a esses personagens, como se coubesse a eles pautar a agenda nacional. E, aos que têm algum histórico de pensamento crítico, apenas reagir.

Do jeito que as coisas vão, estamos assim: os reacionários propõem e os revolucionários reagem. Em uma curiosa inversão de papéis. Ou estaríamos distraídos em relação ao debate político nas redes sociais? Talvez algum arqueólogo das redes identifique, daqui a uns 20 anos, uma mobilização incrível de internautas arejados, nesta semana de fevereiro de 2015, bem menos a reboque, mais pró-ativa. Mas o que deu para observar por aí, em termos de crítica internética de costumes, foi mais ou menos isso. Continuar lendo

2015 – Em SP, Minas, Rio, Pará, Ceará, Piauí e Bahia, tortura

Escola da Aeronáutica para jovens entre 14 e 19 anos defende choque elétrico na língua; em Salvador, PM tortura idoso; em Fortaleza, vítimas são adolescentes

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O Brasil ainda é o país da tortura. Que alguns insistem em associar apenas ao período da ditadura. A maioria das notícias de 2015 se refere à ação de policiais militares.

Em Salvador, a vítima foi um idoso:

27/08 (Salvador): Sessão de tortura de um idoso expõe brutalidade policial em Salvador

Em Fortaleza, adolescentes:

19/08 (Fortaleza): Batalhão de Choque da Polícia Militar é acusado de espancar e torturar adolescentes no Centro Socioeducativo Passaré Continuar lendo