Em vídeo com trabalhadores, Samarco faz o que não deve ser feito: escárnio

Mineradora subestima inteligência dos brasileiros e utiliza de forma torpe imagem de funcionários para tentar salvar a pele; e troca pagamento de multas por publicidade

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Bastaram cem dias após a catástrofe socioambiental em Mariana para a Samarco (Vale, BHP Billiton) apostar na falta de memória e subestimar a capacidade de inteligência de cada brasileiro, em uma série de vídeos com trabalhadores que participam da recuperação – ou do que a empresa quer que a gente acredite que seja um esforço de recuperação – do Rio Doce. As peças publicitárias, veiculadas em TV aberta, revistas e jornais de grande circulação, assustam pela alta dose de escárnio.

Em um deles [ver acima], o pescador Zé de Sabino tem sua imagem utilizada para que a mineradora minimize a poluição do rio. Ele aparece em Regência (ES), no início de dezembro, dizendo as seguintes palavras: “Não tem nenhum tipo de poluição na água, porque os peixes estão todos vivos. Não existem coisas ruins como o pessoal anda dizendo”. Ao fundo, o rio enlameado de resíduos da barragem. (O que o cineasta contratado pela Samarco pensa que somos? Cegos?) Continuar lendo

As aventuras de Kátia Abreu no país do Twitter – agora contra o Aedes

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Guerra efusiva, com pose para fotos, desfile com políticos e sorrisos (Reprodução/Twitter)

Ministra participou da campanha do governo contra o Aedes aegypti, mas em um tom acima de efusividade; ela escolheu o Tocantins como palco de suas atividades

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O ministro da Saúde lançou neste fim de semana a campanha #zikazero na Bahia. Até é possível ver foto dele sorridente em algumas ações de enfrentamento ao mosquito. Mesmo a presidente Dilma Rousseff distende a liturgia do cargo ao cantar “Cidade Maravilhosa”, no Rio, quando um morador tocou a música no saxofone, durante visita de casa em casa com o prefeito Eduardo Paes, no sábado, dia nacional de combate ao Aedes Aegypti. Mas nada que se compare ao espalhafato da ministra da Agricultura, Kátia Abreu.

Já escrevemos aqui sobre o modo peculiar com que ela descreveu viagem a trabalho pela Ásia, no Twitter, alternando descrições das atividades oficiais com as visitas deslumbradas a cartões postais. Usuária ativa da rede social, ela descreveu desta vez de modo efusivo as atividades de combate ao mosquito em Palmas e em Porto Nacional (TO), conhecida como “a capital do agronegócio”. Ela não se faz de rogada ao posar para fotos, como se estivesse, digamos, lançando os jogos mundiais indígenas ou participando de uma atividade eleitoral. Continuar lendo

Relatório da Human Rights Watch para o Brasil prima pela superficialidade

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Violações bárbaras e sistemáticas de direitos humanos ganham resumo anódino da organização internacional; imprensa repercute por protocolo, “para americano ver”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A vantagem de uma organização internacional de direitos humanos fazer um relatório por país é que a imprensa brasileira não se atreve a esnobar. E arruma um espaçozinho para os mesmos temas que costuma ignorar durante o ano. É o que ocorre nesta quarta-feira com o relatório da Human Rights Watch, que aponta violações de direitos por todo o mundo. A apresentação dos dados anuais, em tese bem-vinda, é feita com pompa. Mas os dados sobre o Brasil são extremamente superficiais.

Quem acompanha regularmente os temas sente falta de mais detalhes e de mais contundência. O texto em português chega a ser tão cuidadoso que quase pede desculpas por expor alguns de nossos horrores – da violência policial ao trabalho escravo. E como resumir a violência no campo em dois parágrafos? As violações de direitos das crianças em outros dois? Casos relativos a orientação sexual e identidade de gênero, mais dois? Continuar lendo