A que conduzem as turbulências de 2026?

Tensões no tabuleiro geopolítico convidam a especular sobre o futuro. Canadá já cria hipóteses de contingência militar. As três projeções de escalada no Ártico. A Europa fragmentada diante dos EUA. E o laboratório de força na Venezuela

Créditos: Reprodução / X/ @forsvaretdk
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Há alguns acontecimentos capazes de revelar transformações já em curso antes mesmo de serem percebidas. Exemplo disso são as declarações recentes do governo estadunidense sobre a Groenlândia, as ameaças tarifárias contra o Canadá e a escalada intervencionista na Venezuela. Tratá-las meramente como bravatas de um mandatário excêntrico seria um erro de leitura; estamos, na verdade, diante de sintomas de uma reconfiguração estrutural da ordem internacional.

Em janeiro de 2026, reportagens do periódico canadense Globe and Mail revelaram que as Forças Armadas daquele país vinham desenvolvendo cenários de contingência para tensões com os Estados Unidos, incluindo a modelagem de resposta a uma hipotética invasão americana. A informação passou quase despercebida fora do Canadá, talvez porque já tenhamos nos acostumado a ouvir um presidente dos Estados Unidos tratar países soberanos como imóveis à venda e alianças históricas como contratos rescindíveis. É assim que funciona normalização do impensável, como uma erosão gradual, perceptível apenas quando o terreno já cedeu – a analogia com o sapo fervendo, aqui, é óbvia.

Comparações com os anos 1930 tornaram-se um lugar-comum, mas poucos a desenvolvem com o devido rigor. Não há, óbvio, uma equivalência literal – a Polônia foi invadida por força militar direta, o que não ocorreu na Venezuela –, mas certamente existe identificação uma lógica de escalada. Vale examinar esse tipo de estrutura: primeiro, a quebra de um tabu menor; depois, a anexação de um território estratégico sob o pretexto de proteção ou compra; finalmente, a consolidação de uma esfera de influência exclusiva. Nessa chave interpretativa, a Venezuela funcionaria como o ponto de ruptura das normas de não intervenção, por meio de sanções, retórica belicosa e operações encobertas. A Groenlândia corresponderia ao território estrategicamente vital cuja absorção é apresentada, inicialmente, como uma transação comercial razoável. O Canadá representaria a extensão lógica de uma política de consolidação hegemônica hemisférica. Mutatis mutandis, já vimos algo assim nos livros de história do século XX.

De fato, as diferenças estruturais entre os dois contextos são significativas e devem ser consideradas. A existência de arsenais nucleares introduz uma variável de contenção inexistente nos anos 1930. A destruição mútua assegurada limita o espectro de ações militares diretas entre grandes potências, canalizando os conflitos para formas híbridas e guerras por procuração. Além disso, a interdependência econômica contemporânea difere substancialmente daquela do período entre guerras. Os custos de uma ruptura comercial total distribuem-se de maneira muito mais ampla, criando, dentro de cada país, grupos interessados na manutenção de algum grau de cooperação. A configuração multipolar atual, com a emergência da China como potência de primeira grandeza, tampouco reproduz a bipolaridade germano-americana da ascensão nazista.

Essas diferenças, entretanto, não invalidam comparações. O paralelo captura com precisão, justamente, a dinâmica psicológica da escalada: cada transgressão não punida reduz o custo percebido da próxima; a inação coletiva sinaliza fraqueza e convida à agressão; a fragmentação dos interesses impede a formação de coalizões de contenção. Herman Kahn, em seu trabalho sobre escalada nuclear, descreveu essa lógica como uma escada de 44 degraus entre a crise diplomática e a guerra termonuclear. Estamos subindo os primeiros degraus. No entanto, talvez a chave mais útil venha de outra tradição: Karl Polanyi, ao analisar o colapso da ordem liberal do século XIX, mostrou como sistemas aparentemente estáveis desmoronam quando suas contradições internas atingem um ponto crítico. Por esse viés, o “moinho satânico” do mercado autorregulado acabou por destruir as bases sociais de sua própria existência. Algo análogo pode estar em curso: a ordem baseada em regras, ao servir de instrumento para a hegemonia de um único ator, minou as condições de sua própria legitimidade.

A Groenlândia ocupa uma posição central nesse tabuleiro por razões materiais concretas. O aquecimento global está abrindo rotas de navegação antes impraticáveis no Ártico, reduzindo dramaticamente as distâncias entre a Ásia e a Europa. A Passagem Noroeste, através do arquipélago canadense, e a Rota do Mar do Norte, ao longo da costa russa, representam alternativas cada vez mais viáveis aos canais de Suez e do Panamá. O recuo das geleiras torna acessíveis vastas reservas de minerais críticos. A Groenlândia abriga depósitos significativos de terras raras – elementos essenciais para baterias, smartphones, turbinas eólicas e tecnologias de ponta. Atualmente, a China controla a ampla maioria da produção e do processamento global desses minerais. Para os estrategistas em Washington, essa dependência tornou-se inaceitável no contexto de uma competição hegemônica prolongada.

A dimensão militar agrava o quadro. A Base Espacial de Pituffik (antiga  Base Aérea de Thule), operada pelos Estados Unidos na Groenlândia desde 1951, constitui um componente central do sistema de defesa antimísseis norte-americano e do monitoramento do espaço aéreo ártico. A transformação dessa presença militar em controle soberano pleno adquire uma lógica estratégica própria em um cenário de deterioração das relações com a Rússia e a China. Controlar o Ártico nas próximas décadas significa controlar fluxos comerciais, recursos críticos e vantagens militares decisivas. A lógica em operação não pertence a um negociante imobiliário caprichoso; mas a um império consciente de que as condições materiais de sua hegemonia estão sendo ameaçadas.

Analistas de geopolítica ártica têm discutido possíveis trajetórias de escalada. Uma sequência hipotética envolveria, primeiro, a pressão econômica sobre a Dinamarca mediante tarifas e ameaças de retirada da proteção da OTAN para forçar a venda ou cessão de direitos de soberania. Segundo, a ocupação militar sob o pretexto de impedir a influência russa ou chinesa – uma presença efetiva que anularia a soberania dinamarquesa. Terceiro, o fomento de movimentos independentistas na Groenlândia, seguidos de um pedido de associação ou anexação aos Estados Unidos. Se a Groenlândia for absorvida sem uma resposta militar global (o que deve, sim, acontecer), o Canadá tornar-se-ia o próximo alvo por continuidade geográfica e integração econômica. A estratégia seguiria outro modelo – a anexação por ruptura: uma guerra de tarifas extrema para colapsar a economia canadense e forçar uma união aduaneira total; o questionamento da legitimidade do governo de Ottawa em proteger o Ártico, levando a incursões militares coordenadas e permanentes. Trata-se, evidentemente, de cenários especulativos, não de planos em execução. Contudo, o fato de serem hoje discutidos abertamente já indica a magnitude da ruptura em curso.

A arquitetura institucional construída após 1945 não foi desenhada para conter sua principal potência. A OTAN, pensada como uma aliança defensiva contra a União Soviética, não possui protocolos para o cenário em que seu membro hegemônico decide anexar o território de um aliado. O Artigo 5, que prevê a defesa coletiva, pressupõe uma agressão externa. Diante de uma movimentação estadunidense sobre a Groenlândia, a Europa encontrar-se-ia paralisada entre a lealdade atlântica e a defesa dos princípios supostamente fundantes de seu projeto político. É difícil prever como essa tensão se resolveria na prática – declarações recentes de líderes europeus oscilam entre a reafirmação ritual da aliança e sinais crescentes de desconforto.

Os modelos de teoria dos jogos aplicados ao cenário – particularmente o equilíbrio de Nash e o modelo de Stackelberg para interações líder-seguidor – apontam para um resultado previsível: a acomodação fragmentada. O custo de enfrentar os Estados Unidos excede, para cada ator individual, o custo de aceitar a transgressão. A partir dessa lógica, a Europa provavelmente tentaria negociar um status especial para evitar o colapso da aliança atlântica, sancionando os EUA apenas simbolicamente. A dependência europeia do guarda-chuva nuclear americano, embora questionada há décadas, permanece um fator estrutural que condiciona qualquer capacidade de resposta autônoma.

A China exploraria diplomaticamente a situação, apresentando-se como defensora da ordem baseada em regras historicamente promovidas pelos próprios Estados Unidos. Há uma ironia nessa inversão: Pequim, frequentemente acusada de violar normas internacionais no Mar do Sul da China, encontraria na agressão americana a oportunidade para reposicionar-se como garante da estabilidade global, atraindo o Canadá e parceiros europeus descontentes para sua esfera de influência econômica. A estratégia chinesa, assim, seria de contenção econômica, não de confrontação militar. A Rússia, por outro lado, optaria por uma escalada oportunista. O precedente de uma anexação territorial bem-sucedida pelos Estados Unidos enfraqueceria dramaticamente as objeções ocidentais à própria conduta russa na Ucrânia, abrindo espaço para movimentos análogos no Ártico e na Europa Oriental, sob o cálculo de que Washington não poderia responder militarmente a múltiplas crises simultâneas.

Projeções do Peterson Institute e de modelos semelhantes indicam três trajetórias possíveis, dependendo da intensidade do conflito. No cenário de sucesso rápido limitado à Groenlândia, o crescimento global desaceleraria significativamente, com os Estados Unidos capturando rendas de recursos enquanto enfrentam custos diplomáticos. No cenário de conflito prolongado envolvendo o Canadá, haveria estagnação global, com o colapso do comércio norte-americano afetando severamente os setores automotivo e de energia. No cenário de uma guerra fria ártica total, os modelos sugerem uma recessão global prolongada, com o risco de conflito nuclear tático tornando-se uma variável de mercado constante. A transição de um sistema baseado em regras para um sistema baseado exclusivamente no poder tende a produzir inflação estrutural em qualquer dos cenários: fragmentação das cadeias de suprimento, multiplicação de barreiras tarifárias e incerteza generalizada quanto à estabilidade dos acordos comerciais.

O uso sistemático do dólar como instrumento de coerção geopolítica – sanções, congelamento de ativos, exclusão de sistemas de pagamento – vem incentivando a busca por alternativas há pelo menos uma década. Uma ruptura aberta com aliados tradicionais intensificaria dramaticamente esse movimento. Nesse sentido, analistas ligados ao BRICS projetam uma queda expressiva da participação do dólar nas reservas globais até o fim da década, embora céticos apontem a ausência de uma alternativa plenamente desenvolvida como freio a essa transição. A direção do movimento, de todo modo, parece clara.

A América Latina ocupa uma posição específica nesse realinhamento. A região deixa de ser tratada como parceira e passa a ser classificada como Recurso Estratégico de Segurança pelos Estados Unidos. O objetivo seria, assim, garantir a autossuficiência hemisférica em energia, minerais críticos e alimentos, blindando o bloco americano contra sanções e a influência sino-russa. A Venezuela representa o primeiro teste. A intervenção militar, justificada por uma retórica de segurança nacional e proteção de interesses energéticos, quebraria o tabu da soberania hemisférica vigente desde o fim da Guerra Fria. O Caribe e a América Central entrariam na sequência, visando garantir rotas comerciais e recursos energéticos contra a presença chinesa crescente na região.

O Brasil enfrenta, nesse contexto, o cenário mais complexo de sua história diplomática. A tradição construída ao longo de mais de um século – não intervenção, solução pacífica de controvérsias, multilateralismo – pressupõe um mundo onde esses princípios possuem alguma eficácia. Em um sistema no qual a força volta a ser o árbitro último das disputas, essa tradição perde sua ancoragem. A questão deixa de ser moral ou identitária para tornar-se eminentemente prática: como preservar a autonomia decisória quando as regras do jogo estão sendo reescritas unilateralmente?

A análise por teoria dos jogos do dilema brasileiro revela uma estrutura de incentivos perversa. Há indícios de tarifas elevadas sobre exportações brasileiras como instrumento de pressão para forçar o abandono da parceria com a China e a exclusão de tecnologias chinesas, como o 5G. Um alinhamento incondicional com Washington implicaria a perda do mercado chinês, hoje o maior parceiro comercial do país, que absorve uma parcela substancial das exportações de commodities agrícolas e minerais. A estratégia de maior viabilidade, segundo esses modelos, seria uma neutralidade ativa operacionalizada através do BRICS. O Brasil poderia emergir como articulador de um bloco de não alinhados na América do Sul, preservando a soberania regional contra a doutrina de intervenção hemisférica.

Essa estratégia exigiria, certamente, a capacidade de resistir a pressões consideráveis, possivelmente incluindo sanções setoriais e campanhas de desestabilização – novamente, guerra híbrida. A experiência histórica indica a possibilidade de potências médias preservarem margens de autonomia mesmo em contextos de forte polarização, desde que disponham de coesão interna, diversificação de parcerias e clareza estratégica: a ausência de qualquer desses elementos compromete dramaticamente as chances de sucesso. O cenário mais preocupante não envolve uma pressão externa bem-sucedida, mas sim uma fragmentação interna que inviabilize qualquer estratégia coerente. As divisões políticas que atravessam a sociedade brasileira refletem clivagens profundas sobre o próprio projeto de país, algo que tem ficado cada vez mais evidente.

Finalmente, há uma dimensão dessa crise que transcende a geopolítica em sentido estrito. O desmantelamento da ordem internacional pela força unilateral funciona como validação ideológica para movimentos até então considerados marginais. A anexação de territórios estrangeiros sem consequências catastróficas demonstraria, na prática, o direito internacional como uma ficção sustentada apenas pelo equilíbrio de poder – um equilíbrio passível de alteração unilateral por quem dispõe de meios para tanto. Essa demonstração valida uma narrativa segundo a qual as regras são obstáculos artificiais impostos pelos fracos aos fortes, e nações verdadeiramente soberanas não se submetem a constrangimentos externos. Ressoam aí tradições políticas supostamente desacreditadas pelo século XX: o nacionalismo étnico, a noção de espaço vital e a glorificação da força como virtude política suprema.

Emerge daí uma nova forma de autoritarismo adaptada ao século XXI, focada no controle de recursos escassos – água, minerais, terras aráveis – e na exclusão violenta de migrantes climáticos. Sua legitimação não se baseia primariamente em mitologias raciais ou projetos imperiais explícitos, mas na promessa de proteção em um mundo percebido como caótico. Em um contexto de escassez crescente, migrações massivas e erosão das certezas, a oferta de ordem e segurança – mesmo ao custo da liberdade – encontra uma audiência receptiva. A normalização opera através do que caberia chamar de estética da eficiência: regimes dispostos a quebrar tabus seriam mais capazes de proteger seus cidadãos do que democracias liberais paralisadas por procedimentos. A democracia, nessa visão, constituiria um luxo de tempos de abundância, incompatível com as exigências de um planeta em crise permanente.

O mundo projetado para as próximas décadas não envolve necessariamente uma guerra aberta entre grandes potências. Os arsenais nucleares continuam funcionando como limitadores últimos. O mais provável é um conflito híbrido permanente, com guerras por procuração intensificadas, ataques cibernéticos a infraestruturas críticas, bloqueios econômicos e escaramuças contidas abaixo do limiar da destruição mútua assegurada. O Ártico transforma-se no epicentro dessa confrontação – uma zona de tensão constante, uma espécie de Mar do Sul da China setentrional, onde as potências testam continuamente os limites umas das outras sem jamais ultrapassar a linha vermelha final. A desintegração funcional da ONU e da OMC produz um mundo de blocos comerciais armados, onde a paz constitui apenas um intervalo entre sanções.

Obviamente, nada disso está determinado. Trajetórias históricas são moldadas por contingências, escolhas e eventos imprevisíveis, mas a análise de tendências permite identificar pontos de pressão e decisões capazes de fazer a diferença. O desafio para países como o Brasil é triplo: resistir à pressão econômica sem capitular, articular uma resistência regional sem isolamento e defender princípios democráticos e multilaterais sem ingenuidade quanto à sua fragilidade presente. Nenhuma dessas tarefas é simples, e o sucesso em qualquer delas depende de condições domésticas que estão longe de estarem asseguradas.

O custo mais elevado da nova ordem, caso se consolide, não será apenas econômico ou geopolítico. Será moral. A barreira ética contra o uso arbitrário da força, construída sobre os escombros de duas guerras mundiais, terá sido rompida. O fascismo, em suas novas roupagens, deixará de ser uma aberração histórica para tornar-se uma opção de governança entre outras, avaliada não por sua moralidade, mas por sua eficácia percebida e capacidade de engajamento em tempos de algoritmos. Trata-se de um retorno ao estado de natureza hobbesiano na esfera internacional: o forte faz o que pode, o fraco sofre o que deve. É contra essa normalização que vale a pena resistir.

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