Sachs: Assim se esvai a hegemonia ocidental

Pensador argumenta: perda de liderança tecnológica e econômica deixa a nu a pequenez moral do mundo eurocêntrico. Domínio do dólar não durará dez anos. Há, pela primeira vez em séculos, brecha para ordem mundial menos hierárquica

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Jeffrey Sachs, em entrevista a Thiago Gama, para Outras Palavras

Ao passar por Manila (Filipinas) em 21 de janeiro, em meio a uma agenda extensa de viagens, o economista e analista geopolítico Jeffrey Sachs reservou tempo para responder a questões prpostas por Thiago Gama, colaborador de Outras Palavras. Ao fazê-lo, descreveu o que vê como a decadência acelerada da hegemonia ocidental e a urgência de uma nova arquitetura global.

O diálogo é aberto com um questão acerca da falência do soft power do Ocidente. O que restaria da metáfora da Europa como um “jardim” cercado por uma “selva”, diante do apoio do Velho Continente ao genocídio em Gaza e ao prolongamento da guerra na Ucrânia? Sachs responde de forma categórica, afirmando que a suposta superioridade moral ocidental sempre foi uma ilusão e que, à medida que o resto do mundo alcança as liderança econômica e técnica, essa pretensão se revela vazia.

A longa hegemonia norte-americana apoia-se em instituições cuidadosamente criadas no pós-II Guerra mas, em especial, no papel do dólar, que se manteve nesse período como moeda global francamente dominantes. Sachs discorre sobre a tendência recente de Washington a fazer desta vantagem uma arma de guerra. Pensa que o tiro sairá pela culatra. Prevê o fim da dominância absoluta da moeda norte-americana até 2035 em favor do renminbi e de arranjos que incluam outras moedas digitais emitidas por nações do Sul Global.

No campo tecnológico, o entrevistado julga fadadas ao fracasso as tentativas de contenção da China, apontando que os EUA já não possuem o controle sobre o progresso científico, especialmente em setores como energia verde e robótica. A entrevista de Thiago Gama aborda ainda a hipocrisia climática das nações ricas em relação à Amazônia. Sachs sustenta que a solução não é apenas econômica, mas sim uma reforma na arquitetura geopolítica que responsabilize historicamente os grandes emissores e encontre saídas que envolvam transferência de recursos.

Por fim, o diálogo resgata a função ética do intelectual público, baseada na busca pela verdade e no conceito de bem comum (koinon), fundamentando-se na tradição de Aristóteles, Tomás de Aquino e na Doutrina Social da Igreja. Jeffrey Sachs é professor universitário na Columbia University, diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável e assessor especial da ONU. Sua entrevista vem a seguir.

Josep Borrell descreveu a Europa como um ‘jardim’ e o resto do mundo como uma ‘selva’. Hoje, enquanto as potências ocidentais apoiam a destruição de Gaza e escalam as tensões na Ucrânia, essa superioridade moral evaporou-se aos olhos do Sul Global. Estamos testemunhando a ruptura psicológica final entre o Ocidente e a ‘Maioria Global’? O soft power do Ocidente está morto?

O “soft power” do Ocidente sempre se baseou em uma ilusão de valores ocidentais e superioridade moral. O Ocidente dominou o mundo tecnológica, militar, financeira e economicamente, mas não moralmente. Sim, muitas pessoas ao redor do mundo estudaram nos EUA e na Europa e conheceram muitos norte-americanos maravilhosos. Sim, pensadores ocidentais desenvolveram muitas teorias maravilhosas sobre ética e democracia. Sim, o cânone filosófico ocidental inclui Sócrates, Platão, Aristóteles, Aquino e muitos outros grandes pensadores que aprofundaram profundamente nossa compreensão do que constitui o Bem. Mas o Ocidente também tem sido rapace, ganancioso, violento, destrutivo e desumano ao longo do caminho, repetidas vezes, por séculos. À medida que o resto do mundo agora alcança o Ocidente nas dimensões em que o Ocidente antes liderava (tecnológica, financeira, econômica), a reivindicação ocidental de superioridade moral é compreendida como vazia. Em nosso tempo, precisamos de uma ética global compartilhada, não de uma ética ocidental.

O senhor tem argumentado que o dólar americano está sendo transformado em arma a ponto de se autodestruir. Com a expansão do BRICS+ e a discussão sobre sistemas de pagamento alternativos, o senhor acredita que estamos próximos de um ‘ponto de virada’ onde as sanções dos EUA perdem sua força, ou a infraestrutura financeira do Ocidente ainda está muito arraigada para ser contornada nesta década?

Na minha visão, o dólar não dominará os pagamentos globais daqui a uma década (2035). O Renminbi constituirá uma parcela significativa dos pagamentos globais, liquidações, reservas e será moeda de denominação. Outras moedas, incluindo as Moedas Digitais de Bancos Centrais (CBDCs), também fornecerão a base para grande parte do comércio mundial. Os EUA não podem esperar que outros países continuem a usar o dólar se confiscarem repetidamente reservas estrangeiras e transformarem o dólar em arma para impor sanções coercitivas.

A estratégia dos EUA de “quintal pequeno, cerca alta” para conter a ascensão tecnológica da China parece estar falhando, como demonstrado pelos recentes avanços da Huawei. A tentativa de sufocar o desenvolvimento da China é um ato de ansiedade econômica ou um prelúdio para uma guerra cinética? A ciência pode permanecer global em um mundo fraturado?

Na minha visão, os EUA não têm o controle absoluto sobre a tecnologia e não podem impedir o progresso da China, nem mesmo que ela ultrapasse os EUA em muitas áreas tecnológicas. Os EUA ainda estão à frente da China em algumas áreas da tecnologia (aeronáutica, algumas áreas de tecnologia espacial, chips avançados), ficam atrás da China em algumas áreas (energia verde, baterias, veículos elétricos, robótica, manufatura inteligente, trens de alta velocidade) e estão em pé de igualdade em muitas áreas (supercomputadores, tecnologias quânticas, IA em geral, biotecnologia). Acredito que os EUA não possuem um controle de longo prazo em nenhuma área. A tecnologia chinesa está avançando rapidamente e já ultrapassou os EUA na maioria das indústrias civis.

As nações ricas exigem que o Brasil proteja a Amazônia, mas falham em entregar os prometidos 100 bilhões de dólares por ano em financiamento climático. É possível ter ‘Justiça Climática’ dentro do atual arcabouço neoliberal, ou a salvação ecológica do planeta requer uma arquitetura econômica completamente nova, como sugerido pelo Papa Francisco na Laudato Si’?

O problema principal não é a arquitetura econômica, mas a arquitetura geopolítica. Os governos ocidentais, liderados pelos EUA, agem de forma egoísta, injusta e arbitrária. Os EUA são cada vez mais violentos e irresponsáveis e estão em violação grave e repetida da Carta da ONU. Os EUA recusam-se a reconhecer qualquer forma de sua responsabilidade histórica, seja em relação à crise climática, ou a atos passados de injustiça (guerras, escravidão, discriminação etc). A hipocrisia climática é, nesse sentido, principalmente uma questão geopolítica. Para começar, em uma ordem global reformada, eu gostaria de ver os países tributados por suas contribuições históricas para a crise climática (por exemplo, tributados em proporção às emissões passadas de gases de efeito estufa).

O senhor tem sido vilipendiado pela grande mídia dos EUA por falar verdades inconvenientes sobre a expansão da OTAN e a sabotagem do Nord Stream. Em uma era de guerra informacional, qual é o dever do acadêmico? A ‘neutralidade’ ainda é uma opção, ou o intelectual deve tomar um lado contra o impulso em direção à Terceira Guerra Mundial?

O dever de um acadêmico é buscar a verdade e falar de forma simples e clara sobre a verdade. A verdade inclui verdades científicas, verdades técnicas e verdades éticas, as três áreas do conhecimento (episteme, techne, ética) identificadas por Aristóteles. Assim, a responsabilidade de um acadêmico é também falar em nome do bem comum, o conceito de koinon na Grécia antiga. Através do brilhantismo de Tomás de Aquino e das encíclicas sociais modernas iniciadas por Leão XIII (começando com a Rerum Novarum, 1891), os Ensinamentos Sociais da Igreja Católica incorporam essa visão aristotélica de responsabilidade para com a verdade e para com o bem comum.

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