Nego Bispo e a dialética do pensamento decolonial
Uma leitura da obra do pensador quilombola substitui a crítica ao colonialismo pela idealização dos saberes ancestrais. Por outro lado, ele nunca quis fundar nova antropologia – e sim, confrontar academicismos. Apontamentos sobre artigo polêmico de Douglas Barros
Publicado 26/01/2026 às 19:40

Se Raul Seixas se perturbava com duas perguntas que se misturavam: “a verdade do universo e a prestação que vai vencer”, sinto-me perturbado por duas questões, aparentemente, díspares, mas que me incomodam: de um lado, o anticientificismo e, de outro, a deslegitimação de saberes de povos e comunidades tradicionais. Ambas as questões, a meu ver, tocam em duas interrogações sensíveis (de um mesmo campo): a) seria a(s) ciência(s) um tipo de prática (exclusivamente) ocidental? b) qual a diferença entre saberes tradicionais e saberes anti-ciência?
A perturbação (ou o espanto) vem da crítica (que não poderia deixar de dizer, razoável) de Douglas Barros, no blog da Boitempo, sobre a apropriação da(s) academia(s) do saber do líder comunitário e (saudoso) quilombola Nego Bispo. De outro, me perturba a reação apaixonada e incomensurada, a legitimar qualquer produção de conhecimento tradicional como verdadeiro, e portanto, legítimo, sem a prévia, ponderada e pertinente averiguação. A meu ver, tanto a crítica como a reação, parecem-me, desacertadas — pelos motivos que exponho a seguir.
Douglas Barros se incomoda com a pretensão de se tornar ciência qualquer produção de saber ancorada na vivência. Desta crítica lembro-me da letra de Emicida “os boys conhece (sic) Marx, nós conhece (sic) a fome”, ou da controvérsia, para lembrarmos que estamos em tempos de hegemonia das redes sociais, entre o youtuber Winderson Nunes e o youtuber Gustavo Gaiofato e a crítica dessa controvérsia — alguém que passou fome não conhece necessariamente as raízes (ou as causas) sociológicas da miséria.
Todavia, é bom que se diga, não é porque algum conhecimento tenha sido produzido ao lado (ou à margem) do conhecimento científico que seja falso — algo pode ser verdadeiro ainda que fruto de um trabalho sem rigor, ou seja, que pulou etapas ou caminhos de certificação de sua certeza.
Esse escritor leu (e estudou) duas obras de Nego Bipo: A terra dá, a terra quer (Ubu, 2023) e Terra: antologia afro-indígena (Ubu, 2023) e ficou impactado, ao menos, pela potência poética do quilombola — não é que se concorde com tudo, mas ao menos, certos recortes, há pertinência material.
Quando Nego Bispo falava de “cosmofobia” e de “contracolonialismo” não lia suas palavras como tentativa de uma sistematização sociológica. Lia-a como quem pretendia fazer poesia (no sentido de poiesis, de produção de saber).
Uma confissão: quando elaborei minha tese de doutorado (Terra de Palavras: a construção narrativo-dialética da territorialidade yanomami n´A queda do céu de Davi Kopenawa, UFG, 2025), não vi no xamã yanomami tentativa de refundar a antropologia ocidental. Contudo vi, em suas palavras, uma leitura materialista de mundo — a cosmovisão yanomami a partir dos fatores (e fontes) reais de poder. A leitura de Kopenawa n´A queda do Céu (2015) descreve o mundo como ele é, mas como ele é não da perspectiva ocidental — como ele é da perspectiva indígeno-yanomami.
Na tese, teci uma crítica (no sentido de apontar um limite, não um erro) ao pensamento de Viveiro de Castro (do perspectivismo ameríndio), porque falar de perspectivismo implica em fazer uma releitura do pensamento ocidental, tal qual Nietzsche fez de Kant. Mas, a questão ameríndia é outra — é construir uma antropologia a partir de si mesmo.
O projeto de construir uma antropologia a partir de si mesmo une Nego Bispo a Davi Kopenawa. E, tanto o indígena quanto o quilombola, ao constituírem tal projeto, caem em uma (quase) aporia epistemológica. Para falar de si, Kopenawa precisa falar dos brancos; para falar do saber quilombola, Nego Bispo precisa falar do pensamento acadêmico.
Entretanto, nessas circunstâncias, é preciso destacar algo importante — nem Kopenawa nem Nego Bispo negam a ciência ocidental. E quando digo negar, quero dizer encerrar a oposição em si mesma. Não é uma negativa aporética, há nela um ensaio de superação (e por isso, apesar da oposição dos decoloniais, há aqui uma Aufhebung hegeliana).
É nesse sentido que afirmo não haver em Nego Bispo uma denúncia da ciência enquanto categoria ocidental — como também não há em Kopenawa. Os dois apenas criticam a exclusão do Outro (não-Ocidental, não-ianque-europeu) das categorias da constituição (quase hegemônica) do saber científico.
Nesse contexto, há veracidade na crítica de Douglas Barros de que operar uma cisão da crítica colonial, em Nego Bispo, da crítica material é impertinente. E aqui revela-se o núcleo da questão — o “contracolonialismo” do quilombola não é uma oposição epistemológica, conceitual; é oposição a uma praxis que exclui o outro-quilombola enquanto elemento constitutivo-substantivo (ou enquanto sujeito) do saber.
É certo, nesse contexto, de que Nego Bispo não faz uma releitura sociológica do pensamento ocidental, e que não segue o método de produção acadêmica do saber letrado. Mas não o fez porque não quis; não foi por falta de cultura. E por isso, podemos dizer que apontar no quilombola uma falta de rigor acadêmico não é um demérito, é a constatação de um fato.
Por isso, podemos dizer que parte das críticas (no sentido de deslegitimação) ao texto de Douglas Barros foi apressada ou até mesmo identitária (recordando o [recentemente] falecido Asad Heider). Pode até ter havido certo tom de menosprezo ao pensamento do líder quilombola, mas essa não foi a essência do texto.
E encerro aqui com uma afirmação polêmica que discutirei em outro momento. A(s) ciência(s) não é uma categoria ocidental. E num tempo em que até médicos indicam ingestão diária de água com sal, é bom enfatizar o papel da ciência enquanto produção de verdade (nem que seja num sentido pragmático ou utilitário de que é um certo saber que tem alto grau de funcionalidade).
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