Tarcísio x Flávio Bolsonaro: o que há de novo?

Entre os pré-candidatos para 2026, mais do que uma disputa familiar ou partidária. A Faria Lima tenta domesticar o extremismo, e buscar um “CEO” que garanta a agenda ultraliberal sem sobressaltos. Por trás do rótulo da moderação, o mesmo projeto

Foto: Vinícius Schmidt
.

O recente confronto velado entre o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) envolvendo a disputa presidencial de 2026 é revelador das condições estruturais e conjunturais da cena política brasileira e de como as classes dirigente e a elite econômico-financeira se movimentam em meio a esse processo para não perder seu controle. E também uma continuidade de uma história distorcida sobre uma dita “terceira via”, propagandeada pela mídia tradicional como uma espécie de “voz da razão” diante da polarização.

Na quarta-feira (14), Tarcísio publicou em suas redes sociais um vídeo crítico ao governo, em nítida peça de campanha eleitoral. “A verdade é uma só: O Brasil não aguenta mais 4 anos de PT. Estamos limitando o nosso potencial como nação e tirar esse governo atrasado é o único lado que a direita precisa ter em 2026”, dizia ele num trecho. Sua esposa, Cristiane Freitas, comentou a postagem sugerindo uma mudança no Planalto de forma menos sutil. “Nosso país precisa de um novo CEO, meu marido!”, postou.

As reações do campo bolsonarista não tardaram. Os ataques mais incisivos ficaram por conta da tropa de sempre, o que inclui o influenciador digital Paulo Figueiredo, que tramou junto como o então deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) as sanções ao Brasil por parte do governo estadunidense em 2025. “O bolsonarismo não quer um CEO. Isso é positivismo estúpido típico de milico. País não é empresa e presidente não é gestor de planilha”, reagiu, tendo sua publicação compartilhada pelo ex-parlamentar que mora nos Estados Unidos.

A reação mais emblemática, contudo, viria de outro filho do ex-presidente. O ex-vereador carioca Carlos Bolsonaro que, sem mencionar Tarcísio, divulgou em suas redes uma foto do ex-governador paulista João Doria com a capa de uma revista com os dizeres: “O CEO de São Paulo”. A alusão a Doria, que abraçou o bolsonarismo em 2018 para conquistar o governo de São Paulo e depois rompeu com o então presidente, traz a sombra da traição para o embate, algo em geral deletério para qualquer político, mas especialmente demolidor para aqueles que surgiram ou se consolidaram na política no esteio do ex-presidente hoje preso.

Rapidamente, no dia seguinte ao imbróglio, Tarcísio veio a público tentar se redimir. “A mensagem lá é uma mensagem de desabafo contra o PT. A gente está dizendo ali o seguinte: precisamos, na verdade, de um gestor que pense o Brasil, que tenha liderança para enfrentar os grandes desafios, para resolver os problemas que são sérios, com uma crise fiscal contratada e uma crise moral”, tentou justificar.

O governador foi questionado ainda sobre falar pouco da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, cobrança feita também por seguidores do ex-presidente no ambiente virtual. “O Flávio é um grande nome. Já falei que ele é o meu candidato, que vai ter o nosso apoio”, prometeu, reiterando que jamais teria alimentado o sonho de disputar o Planalto. “Nunca teve esse projeto. É que vocês não acreditam. Mas eu sempre estou falando que meu projeto é reeleição, reeleição.”

O cálculo eleitoral que restringe Tarcísio

Ainda que não esteja totalmente descartada, a possível candidatura presidencial de Tarcísio se torna mais inviável a cada dia. E dependeria, essencialmente, da desistência de Flávio. Ou seja, da vontade de Jair Bolsonaro em abrir mão de seu capital político em troca de uma eventual composição.

A pesquisa Quaest divulgada nesta quarta mostra o tamanho do obstáculo do governador paulista. Em um cenário no qual ele e o senador fluminense competem lado a lado no primeiro turno, o filho do ex-presidente tem 23% enquanto o governador amarga meros 9%, empatado tecnicamente com o governador do Paraná, Ratinho Jr. , que aparece com 7%.

Em um segundo cenário no qual a única alteração é a saída de Tarcísio, Flávio ganha apenas três pontos percentuais, indo para 26%. Já quando os nomes sacados são os do senador e de Ratinho Jr., Tarcísio chega a 27%. Com a exclusão apenas do governador paranaense, Flávio mantém 23% e Tarcísio ganha 5 pontos percentuais, ficando ainda nove pontos atrás do filho do ex-presidente.

Estes cenários distintos evidenciam que o senador fluminense tem mobilizada a seu favor quase toda a base de Jair Bolsonaro, independentemente de Tarcísio estar na corrida presidencial ou não. O inverso não é verdadeiro: o governador de São Paulo só ultrapassa dos 14% com a ausência de Flávio.

Por mais que a rejeição que o sobrenome do parlamentar carregue dificuldades para um eventual segundo turno contra Lula, sem essa base nenhum candidato do campo da direita é viável. E eles sabem disso. Não é à toa que, fora Tarcísio, uma cria política direta do ex-presidente, os outros três governadores que pleiteiam ser presidenciáveis cortejam esse campo político, defendendo anistia a golpistas e já estiveram juntos, inclusive, em um ato realizado na Avenida Paulista em abril de 2025.

Cortejando o extremismo de terno e gravata

É no espaço entre uma distância formal do extremismo e a adesão completa que trafegam aqueles que defendem algo que já virou quase um fetiche no debate político brasileiro, a emergência de uma “terceira via”, morta e ressuscitada em diferentes versões entre pleitos presidenciais.

A expressão ganhou força nos anos 1990, tendo como um de seus principais teóricos o sociólogo britânico Anthony Giddens, tomando forma em figuras como os primeiros ministros da Grã-Bretanha, Tony Blair, e da Alemanha, Gerhard Schröder, servindo até mesmo para rotular o presidente estadunidense Bill Clinton. Sempre foi mais uma espécie de rótulo político-eleitoral que variava de formato mas significava, essencialmente, uma adaptação às condições impostas pelo neoliberalismo em uma visão de mundo que empurrava a centro-esquerda e a esquerda para um polo considerado “radical” e inviável do ponto de vista prático.

Deslocado para o Brasil, o conceito ganha ares ainda mais absurdos em função da desigualdade histórica e da resistência secular das elites em qualquer mudança que afete seus privilégios. Nesse caldo cultural não é de se admirar que a extrema direita tenha conseguido reabilitar moralmente a ditadura civil-militar ou consiga com facilidade qualificar qualquer inimigo ou adversário como “comunista”. Mas a de uma terceira via que fuja a uma ideia de polarização (que se passa por falsa simetria) esconde outros interesses no cenário atual.

Se a ideia não conquistava muitos corações no meio político e econômico quando duelavam PT e PSDB, ela passou a ser palavra de ordem com a ascensão do bolsonarismo, que ocupou o espaço dos tucanos. Não por alguma espécie de amor ou apego à democracia, como fazem parecer comentaristas de veículos de comunicação tradicionais, mas pelo lugar no comboio da direita.

O Centrão se apega a Tarcísio não por ele ter um perfil ideológico muito distinto de Bolsonaro, e a atuação de seu governo na Segurança Pública, por exemplo, deixa isso mais do que evidente. Trata-se de uma questão de controle: o grupo político teria um protagonismo maior com ele do que teve com Bolsonaro, onde ficou a reboque de um círculo mais restrito do então presidente e dos militares.
Para a Faria Lima, outro governo com o grau de entropia política similar ao do ex-chefe de Tarcísio dificultaria a implementação de medidas ultraliberalizantes que agradem ao mercado. Não por falta de vontade de figuras que compunham o governo, como o ex-ministro da Economia Paulo Guedes, mas por questões de condições criadas para viabilizá-las. A experiência brasileira mostra que governos de direita sem a instabilidade de arroubos extremistas do ponto de vista político conseguem levar a cabo os anseios do mercado, como foi na Era FHC, que implantou o tripé macroeconômico e um arcabouço legislativo baseado no consenso de Washington e também no governo Temer, que aprovou a reforma trabalhista, a Lei da Terceirização e colocou a reforma da Previdência em debate.

Para concretizar esse pacto com o condomínio Centrão-Faria Lima, esse verniz de terceira via pode ser aplicado até mesmo em Flávio Bolsonaro, operação que seu entorno tenta emplacar. É nesse esforço que o senador, diferentemente de seus irmãos, reage de forma afável ao episódio “CEO Tarcísio”, dizendo que “não vai ficar cobrando ninguém”. Como parlamentar, atuou em boa parte do tempo mais junto ao Centrão do que aos extremistas e, tendo os irmãos como batedores, pode agregar a base que vem com seu sobrenome e parte daqueles que almejam um governo ultraliberal economicamente que mantenha, entre outros pontos, o reino das emendas parlamentares do Congresso Nacional.

A trajetória da chamada terceira via no Brasil diz menos sobre a alegada polarização do que sobre as estratégias das elites para manter seu projeto de poder intacto, independentemente das roupagens que precisem vestir. Seja na figura de Tarcísio, refém de uma base bolsonarista que não lhe pertence, ou em um Bolsonaro “palatável” ao mercado, o roteiro é sempre o mesmo. Não um caminho alternativo, mas a estrada que trilha um projeto de concentração de poder e riqueza que só diverge em métodos, nunca em essência.

Outras Palavras é feito por muitas mãos. Se você valoriza nossa produção, seja nosso apoiador e fortaleça o jornalismo crítico: apoia.se/outraspalavras

Leia Também:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *