O Menino e o Mundo: Para pensar o cinema de animação
Filme brasileiro que disputou o Oscar em 2016 aborda as contradições do processo de modernização. Mas também suscita reflexões sobre a própria linguagem: em tempo de computação gráfica excessiva, mostra caminhos para equilibrar a técnica e a subjetividade
Publicado 23/01/2026 às 14:25

O filme O menino e o mundo, depois de ter passado com um pequeno público pelos cinemas brasileiras, ganhou a indicação ao Oscar de Melhor Animação, em janeiro de 2016. Embora a imprensa brasileira tenha destacado principalmente essa indicação, a animação vinha de uma vitoriosa participação em prêmios e festivais em todo o mundo, como o respeitadíssimo Festival de Animação de Annecy (que, no ano anterior, havia sagrado campeão o também brasileiro Canção de amor e fúria).
Em sua batalha no Oscar, O menino e o mundo, dirigido por Alê Abreu, teve como maior desafio não o reconhecimento enquanto grande obra cinematográfica – o que havia conquistado em todo o mundo – mas uma ferrenha disputa contra o modelo predominante de cinema de animação, quase que completamente informatizado, que naquela premiação estava representado pelo filme Divertidamente, da Disney. Com o passar dos anos, o gosto do público e da crítica em relação às animações incorporou certa racionalidade técnica que exige traços perfeitos a partir de um padrão estético assumido como padrão.
Na disputa enfrentada por O menino e o mundo, havia uma ironia metalinguística, afinal a técnica de animação havia passado por um processo análogo à modernização da sociedade representada no filme. O cinema de animação, a partir da década de 1990, passou a ser dominado por grandes produções que cada vez mais utilizam a computação gráfica. Essa forma de realizar os filmes contrasta com uma forma artesanal, como os desenhos feitos à mão ou mesmo o stop motion (que, de forma alguma, excluem o uso da informática para algumas ações básicas, como a montagem ou a sonorização, mas em doses muito menores do que a linguagem que predomina atualmente). No público criou-se a expectativa de que o cinema de animação deve conter certa perfeição, sejam nas linhas bem definidas dos cenários, nas personagens perfeitamente delineados e representados de forma realistas e na distribuição equilibrada de cores e objetos.
Certamente não há problema no uso dessa técnica, afinal nas mãos de grandes artistas é possível alcançar belos resultados estéticos. O principal problema desse debate encontra-se no domínio comercial que a animação computadorizada alcançou, tornando-se, em certa medida, um padrão cultural forçosamente universalizado. E, com isso, formas de realização que fogem a esse padrão são consideras estranhas, não são assistidas ou até mesmo são consideradas ruins por não possuírem imponentes efeitos de computação gráfica. Os filmes que ainda se aproximam de um método artesanal, que não ficam dependentes de um grande aparato técnico, são considerados simples, infantis ou inclusive feios pelo gosto dominado pela racionalidade técnica. Além disso, ao serem realizados por pequenas produtoras ou divulgados também de forma quase artesanal, não possuem o mesmo aparato publicitário que as grandes produções estadunidenses, fazendo com que parte do público potencial nem sequer saiba da existência desses filmes.
Esse embate entre a racionalidade técnica e uma forma mais artesanal de produção, ao qual O menino e o mundo enfrentou no mundo comercial do Oscar, em grande medida é o tema do próprio filme. Nessa obra, o protagonista sai de casa em busca do pai, que aparentemente saiu em busca de um melhor emprego. O menino deixa a vida numa comunidade rural e percorre o mundo. Encontra trabalhadores rurais em ambientes mecanizados, conhece cidades bastante urbanizadas e toma contato com variados equipamentos tecnológicos. Contraditoriamente, em paralelo, percebe a solidão e a tristeza vivida pelas pessoas, além de problemas sociais, como a violência e a pobreza. Portanto, ao deixar a pequena comunidade rural em que vivia, o menino toma contato com as várias facetas da modernização, que garante, a um tempo, tanto o desenvolvimento da técnica e da urbanização como a ampliação de diferentes formas de desigualdade e a dificuldade de acesso ou a marginalização dos trabalhadores.
Esse mundo modernizado, no discurso predominantes, passa a ser uma realidade que deve ser aceita como natural pelas pessoas, afinal é considerada melhor do que formas anteriores, tidas como “antigas”, “primitivas” ou “arcaicas”. No discurso dominantes, o mundo moderno é apresentado como sendo melhor, afinal garante acesso a uma infinidade de bens de consumo para as pessoas, distribuídos de acordo com o trabalho realizado por cada indivíduo. Portanto, as técnicas modernas deixam de ser um mecanismo que poderia garantir uma melhora na vida das pessoas e se tornam um fim si mesmas. O moderno é sempre apresentado como melhor, assim como o cinema de efeitos computadorizados é considerado superior àquele feito utilizando técnicas “antigas”.
Nesse sentido, O menino e o mundo, ao abordar as contradições do processo de modernização vistos pelo olhar do protagonista, também reflete acerca de sua própria condição de um produto cultural em meio à sociedade do espetáculo. Sua situação no Oscar, disputando o prêmio com animações de elevado valor de produção e distribuição, apenas ilustra o contexto mais amplo vivenciado por essas tentativas de fazer cinema de animação, que vão ao longo dos anos se enfraquecendo (veja-se, por exemplo, a situação das produções realizadas pelo Studio Giblin). Em vez de equilibrar as possibilidades de uso da técnica moderna com a subjetividade criativa, acredita-se que a animação produzida racional e metodicamente é um modelo que deve substituir qualquer forma “primitiva”.
Esse é em grande medida o discurso capitalista, que desde o começo de sua constituição como modo de produção dominante procurou destruir as formas antigas de produção da vida e das subjetividades. Essa forma de produção da vida é criticada em O menino e o mundo. Embora o menino do filme tenha conquistado o mundo, sua linguagem é estranha àquela naturalizada pela sociedade capitalista, como aquele balbuciar dos personagens dessa brilhante animação brasileira.
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