O arriscado (e perigoso) retorno militar do Japão

Primeira-ministra Sanae Takaichi provocou a China, ao sugerir que pode se intrometer em Taiwan. Declara que irá revisar a “Constituição pacifista” e amplia orçamento de defesa. Trump joga lenha na fogueira – mas não defende o país e o penaliza com tarifas

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O texto a seguir integra o número 15 (janeiro de 2026) do boletim do Observatório do Século XXI, parceiro editorial de Outras Palavras. A edição pode ser baixada e lida aqui.

Em 7 de novembro, menos de um mês após assumir o cargo de primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi irritou Pequim ao sugerir que o Japão poderia defender Taiwan caso a China agisse contra a ilha, pois isso ameaçaria a sobrevivência do Japão —levando as relações entre os dois países ao seu pior nível desde 2010, quando se deterioraram devido à disputa por ilhas no Mar da China Meridional.

A primeira mulher a ocupar esse cargo no Japão, Takaichi busca revisar os três documentos fundamentais de defesa que proíbem o Japão de usar armas nucleares (a Estratégia de Segurança Nacional, a Estratégia de Defesa Nacional e o Programa de Aprimoramento da Defesa), atualizados em dezembro de 2022, com uma revisão planejada para 2027. Assim, o orçamento de defesa aumentou pelo 14º ano consecutivo (4-5% em comparação com 2025), visando atingir 2% do PIB até 2027, em um recorde de US$ 57,8 bilhões.

Analistas consideram que o Japão, ao minar o Artigo 9 de sua “constituição pacifista”, está adquirindo capacidades de ataque de longo alcance, fortalecendo seu poder naval e aéreo, implantando sistemas de combate não tripulados e realizando operações avançadas nas ilhas Senkaku, o que implicaria um salto qualitativo no âmbito militar.

Takaichi é discípula do ex-primeiro-ministro Shinzo Abe (2012-2020), que defendia o retorno do Japão ao status de “nação normal”, livre das restrições do pós-guerra, e patenteou a estratégia “Abenomics”, caracterizada por políticas fiscais e monetárias expansionistas para “restaurar o Japão” e fortalecer a defesa nacional. No entanto, o Japão enfrenta uma inflação de 3% —que, segundo pesquisas, está irritando a população —e, para evitar novos aumentos, exigirá maior produtividade, sendo que seu nível é dos mais baixos dos países da OCDE.

Além disso, o desejo de Takaichi —sem maioria absoluta no parlamento —de aumentar os salários e reduzir os impostos entra em conflito com sua necessidade de aliar-se a um parceiro que exige cortes no consumo e nos impostos, o que pressiona uma dívida pública de 260% do PIB, a mais alta entre as economias avançadas. Sua promessa de “transformar a ansiedade em otimismo” é desafiada por uma previsão de crescimento real do PIB entre 0,4% e 0,7%, uma taxa de pobreza de 15,4% e uma sociedade envelhecida e em declínio demográfico, que enfrenta escassez crônica de mão de obra.

O nacionalismo é um componente fundamental para Takaichi. Acusada de revisionismo histórico, ela visita regularmente o Santuário Yasukuni, em Tóquio, que homenageia os mortos de guerra do Japão, incluindo criminosos condenados pela Segunda Guerra Mundial, e argumenta que essa questão foi exagerada.

A resposta da China afirma que o Japão está desafiando a ordem internacional do pós-guerra e a não-proliferação nuclear, o que representa uma grave ameaça ao mundo. A China baseia seu argumento na Declaração do Cairo —posteriormente endossada pelos Aliados na Proclamação de Potsdam (1945) —que estabelecia que o Japão deveria devolver os territórios chineses. Em editoriais contundentes, o Global Times —publicação para alguns porta-voz do governo —afirmou que a China jamais esquecerá o genocídio japonês durante a Segunda Guerra Mundial e que a invocação de frases como “situação que ameaça a sobrevivência” por Takaichi, são pretextos para o “militarismo japonês lançar uma agressão” na região. O jornal enfatizou ainda que o Japão usou linguagem semelhante em 1931, quando declarou que “a Manchúria e a Mongólia são a base de sua existência”.

A China enfatizou que Takaichi enfrentou críticas internas. Por exemplo, o ex-primeiro-ministro Yukio Hatoyama sustentou que Taiwan era uma questão interna da China e que danos imensuráveis haviam sido causados aos interesses nacionais do Japão. A China não deixa de advertir que o Japão receberá uma forte resposta caso ousasse interferir na questão de Taiwan e afirma que a questão é assunto interno. A China exige uma retratação completa de Takaichi, que, por ora, se recusa a fazê-la, alegando que suas palavras eram hipotéticas.

Assim, a China passou a prejudicar economicamente o Japão ao cortar o fornecimento de minerais de terras raras e ímãs, o que pode ter impacto imediato nas empresas japonesas do setor de defesa. Isso afetará empresas japonesas envolvidas em eletrônica avançada, componentes de aviação, drones e tecnologia nuclear. O Japão importa 63% de suas terras raras da China. Algumas estimativas sugerem que essas medidas podem custar ao Japão US$ 17 bilhões este ano. Em 2024, a China representou um quinto do comércio exterior do Japão, correspondendo a 17,6% das exportações e 22,5% das importações.

Outro golpe vem da importância dos turistas chineses (quase 25% do total), que geram para o Japão cerca de US$ 14 bilhões por ano. A China alertou sua população sobre os riscos de viajar para o Japão, e pelo menos 10 companhias aéreas chinesas ofereceram reembolsos, com quase 500 mil passagens já canceladas. Como o turismo representa cerca de 7% do PIB japonês, a Moody’s Analytics estima que uma redução pela metade no número de turistas chineses diminuiria o PIB do Japão em 0,2%.

O analista francês André Benoit afirma que o Japão está enganado ao acreditar que conta com o apoio dos EUA para provocar a China, porque “a retórica da autonomia esconde um sistema de dependência controlada: bases americanas em solo japonês, mísseis americanos em silos japoneses, gás americano em gasodutos japoneses”.

Abe, o primeiro líder mundial a parabenizar Trump por sua eleição, era conhecido por cobri-lo de elogios e bajulações, defendendo um “Indo-Pacífico livre e aberto”. No entanto, Trump retirou os Estados Unidos da Parceria Transpacífica, que o Japão valorizava como um meio de conter a China, impôs tarifas sobre o aço e o alumínio japoneses e se aproximou do líder norte-coreano Kim Jong-un, apesar das preocupações de segurança de Abe. Trump exigiu US$ 8 bilhões anualmente do Japão para abrigar tropas americanas, uma exigência que Abe conseguiu evitar, assim como agora exige US$ 550 bilhões de Takaichi em troca de uma tarifa comercial de 15%. No ano passado, Trump também reclamou publicamente de ter que proteger o Japão —uma imposição dos EUA desde 1945 —e está pressionando para que aumente seus gastos com defesa para 3,5% do PIB.

Diante do conflito com a China, Takaichi, que, assim como seu mentor, havia recomendado Trump ao Prêmio Nobel da Paz, recebeu apenas silêncio em resposta. Trump afirmou seu desejo de encontrar “formas de trabalhar” com a China, mas o Secretário-Geral da OTAN, Mark Rutte, apoiou Takaichi, citando a importância da cooperação entre o Japão e a OTAN, bem como o IP4 da OTAN (Japão, Austrália, Nova Zelândia e Coreia do Sul). Também desde o governo dos EUA, se declarou que “o Japão há muito subestima seus próprios gastos com defesa, especialmente considerando as ameaças representadas pela China e pela Coreia do Norte”. Ao mesmo tempo, há discussões em andamento para que o Japão se junte ao AUKUS, a aliança militar dos EUA com o Reino Unido e a Austrália, visto que já faz parte do Quad. Além disso, figuras linha-dura dos EUA, como Grant Newsham, incentivam a posição de Takaichi, alegando que o Japão também se tornaria parte do “arsenal da democracia” e que a reação da China é um ato de guerra contra o Japão, enquanto Walter Russell Mead questiona por que a China busca confrontar o Japão.

Segundo o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, Trump está dando continuidade aos esforços de Biden para romper a Entente Sino-Russa, “liderando por trás” e distribuindo responsabilidades, como vem acontecendo na Europa. Sob essa perspectiva, Brian Berletic questiona se o Japão se tornará a versão do Leste Asiático da Ucrânia.

Jeffrey D. Sachs argumentou que os Estados Unidos estão agindo como se o Japão precisasse se defender da China, quando, nos últimos mil anos, a China jamais tentou invadir o Japão. De fato, dada a dependência econômica do Japão em relação à China, Benoit destaca a contradição na proposta de Takaichi de que o Japão precisa de importações chinesas para se armar contra a própria China.

Diante desse contexto difícil, diversos analistas apontam para o pouco tempo que Takaichi tem para consolidar seu projeto, já que, desde 2006, oito dos dez primeiros-ministros anteriores permaneceram no cargo por não muito mais do que um ano, ou menos.

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