Terra: As artes visuais contra o efeito manada

Diante da campanha multimilionária “O agro é pop”, poderá a arte ser uma trincheira contra a desinformação? Mostra “Histórias da Ecologia”, no Masp, sugere que sim, despertando outras sensibilidade para a luta pela terra e pelo futuro do planeta

Obra ‘Moqueando peixe’ (2020) de Carmézia Emiliano, na mostra do Masp ‘Histórias da Ecologia’


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Cada vez mais fica difícil avaliar a veracidade dos conteúdos, ou acompanhar minimamente o volume e a velocidade da circulação de mensagens. Essa desordem informacional equaliza múltiplas narrativas, seja fato ou mentira descarada, saturando a atenção e o discurso público. A factualidade vale menos que a adesão emocional, e diferentes verdades se contradizem e pulverizam.

No Brasil, a desordem informacional sobre o uso da terra, conceito que eu e Bruna Távora estamos desenvolvendo com foco no caso nacional, envolve um complexo regime que sobrepõe dados fundiários precários e manipulados, grilagem historicamente legalizada em larga escala. Isso gera concentração, registros oficiais incompletos ou errados sobre a posse da terra, epistemicídio, discurso de ódio sobre movimentos socioterritoriais e povos tradicionais, lobby para flexibilizar licenciamento ambiental, entre outras questões estruturais. A boiada passa em defesa do desenvolvimento e geração de emprego.

Enquanto isso, o agronegócio tem a bancada mais forte do Congresso, e a mídia comercial enquadra o debate socioambiental a partir dos interesses do mercado. A campanha multimilionária “O agro é pop” é um dispositivo de legitimação emblemático, por ter construído uma narrativa positiva e homogênea do setor. Apagam-se controvérsias como o exílio da cientista Larissa Bombardi, que deixou o país sob ameaças de morte após demonstrar os danos dos agrotóxicos à saúde e a escala do uso no Brasil, o maior consumidor mundial. Problemas centrais para a realidade nacional acabam ofuscados pela desordem informacional.

Observar as novas gerações ajuda a entender aonde estamos indo. Em sala de aula, grande parte dos universitários demonstra pouca dedicação para estudar a fundo e com afinco. Falta tempo e foco, falta propósito — compreensível, considerando a precarização do trabalho e a desvalorização do ensino. Males que acometem a sociedade capitalista em geral, mas comprometem especialmente estudantes em formação e o engajamento amplo de cidadãos em regimes ditos democráticos, que deveriam ser participativos.

É aí que a arte entra e, quiçá, chacoalha a apatia.

A renomada fotógrafa de conservação Cristina Mittermeier fez a transição da carreira como bióloga marinha para a fotografia porque percebeu que a arte, especificamente as visuais, pode preencher melhor a lacuna entre as evidências científicas e a sensibilização pública. Mittermeier constatou que os dados científicos não bastam por si só para inspirar atitudes em prol da conservação, enquanto imagens poderosas podem comunicar assuntos ambientais complexos em uma linguagem mais universal, tocando as mentes de uma maneira que a ciência, desconectada da maioria das pessoas, não consegue. Para Letícia Cesarino, há uma crise nos sistemas peritos que organizavam a modernidade, a exemplo da ciência, da imprensa e dos partidos políticos.

Como mudar sistemas de longa duração, estando do lado da história com menos recursos? Como disputar essa hegemonia transnacional tricentenária? O cartaz de Minerva Cuevas na exposição Ecologia social, no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), avisa:

SE NÃO FIZERMOS
O IMPOSSÍVEL
TEREMOS QUE
ENFRENTAR O
IMPENSÁVEL

Do circuito institucional da arte, ainda que também conforme espaços cercados, ecoam brechas contra a lógica da mercadoria e do extrativismo.

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A exposição Histórias da ecologia, inaugurada em setembro de 2025 e que vai até 2 de fevereiro, disputa a desordem informacional sobre o uso da terra ao promover regimes contra-hegemônicos de informação, comunicação e conhecimento ao longo de cinco andares com obras de 116 artistas, majoritariamente do sul global. A inteligibilidade e amplitude do conflito territorial ganham novas condições sensoriais e de imaginação política, pelas quais a terra não seja reduzida a recurso, fronteira ou ativo a ser explorado.

Cabe à experiência da visita dar conta da profusão de linguagens e formatos — pinturas, desenhos, fotos, vídeos, instalações, esculturas, cartazes, têxteis, bordados, cerâmicas, colagens botânicas, documentos, cartografias, infografias. A seguir, buscamos apenas sintetizar três aspectos da exibição: o conceito de ecologia no título, mais relacional que o termo natureza, a forte presença do MST no primeiro núcleo da exposição, e um quadro no penúltimo núcleo mostrando a complexidade sistêmica.

Sobre o conceito de natureza, o indígena Ailton Krenak analisa que, quando as sociedades ocidentais reverenciam o mundo natural, isso se dá de forma vaga ou abstrata. Já a visão de mundo animista respeita a potência integral do ecossistema, onde cada ser vivo, humano ou não, e cada objeto inanimado tem essência vital. O respeito à natureza se manifesta nos entes locais: esta montanha que vejo carrega história, esta terra onde piso me alimenta, este ecossistema bem aqui, não qualquer outro mundo afora.

A curadoria de André Mesquita e Isabella Rjeille para o MASP responde a essa superficialidade, ou desancoramento, ao optar por “ecologia”, um conceito mais relacional. “Natureza” carrega a ideia de exterioridade, pois as sociedades ocidentais não se consideram parte. Desvelar dicotomias como natureza/cultura, humano/não humano, tão enraizadas no pensamento cartesiano, é o ponto de partida que contesta a fragmentação neoliberal e, por extensão, os modos da polarização social e da desinformação.

Entrando no primeiro núcleo, denominado Teias da Vida, há em destaque 11 cartazes do MST que defendem pautas históricas do movimento, como reforma agrária, soberania alimentar e os direitos dos povos do campo. É a autoria mais recorrente em toda a mostra, uma decisão curatorial que reconhece a cultura visual e a verve da luta popular concreta. Cartazes originalmente concebidos com função comunicativa, para circular e disputar sentidos no espaço público, foram alçados a peças museológicas localizadas já no início do percurso, contrapondo o valor de uso ao valor patrimonial.

Adoraria elaborar mais sobre outras obras, como a foto de Tuíre Kayapó, em uma audiência pública em 1989, ameaçando com facão o engenheiro da atual Usina de Belo Monte. Ou o curta Maré profunda, da franco-guineense Tabita Rezaire, uma denúncia ao colonialismo digital que desmonta a falácia da nuvem: as redes globais de comunicação não estão no ar, mas na terra e na água, em cabos submarinos que coincidem com as antigas rotas de tráfico escravagista.

Mesmo se incluíssemos todos os elementos da exposição, os sentidos da experiência são irredutíveis às legendas e categorias.

Dentre as centenas de obras sobre um assunto que abarca a vida, uma delas assume o desafio de tentar expressar visualmente a totalidade, demonstrando como debates desse tipo não se encerram. O quadro Gestão responsável da terra, do coletivo francês Bureau d’Études, cobre toda a altura da parede e vários metros de comprimento, uma enorme quantidade de informações (arte!) conectando esferas que existem separadamente só no senso comum. Conjuntos de centros decisórios, interligados por setas, expõem as relações entre agricultura capitalista com uso intensivo de produtos químicos, mercado de commodities, políticas de alimentos, políticas de defesa, políticas cognitivas das big techs, e até políticas da exosfera, com mineração espacial. As cosmologias animistas aparecem à margem, apesar de mestras da gestão responsável.

A própria forma de diagrama enuncia a necessidade de realizar uma leitura interdisciplinar e sistêmica. A terra, literalmente raiz e rede, ou seja, matéria e sistema, entrecruza conflitos sociais, regimes jurídicos, dispositivos institucionais, infraestruturas, mercados, e narrativas de legitimidade, uma ecologia de relações que ultrapassa recortes profissionais ou disciplinares estanques. Não sendo uma arte contemplativa pela estética, o quadro é uma ferramenta crítica de artivismo, oferecendo ao visitante com paciência para dissecá-lo uma ampliação da perspectiva sistêmica. A governança da terra está diretamente relacionada a objetivos sociais amplos, como soberania nacional, redução da pobreza, saúde pública e justiça climática.

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O museu continua sendo um espaço de elite, marcado por barreiras de capital simbólico, o tempo disponível para lazer e deslocamento das periferias. No caso do MASP, a democratização do acesso se dá por ações como programas públicos, eventos abertos e gratuidade para professores, pessoas com deficiência, crianças, grupos de instituições públicas e do terceiro setor. A “terça grátis”, oferecida por uma fintech, garante entrada gratuita para o público espontâneo, uma campanha inscrita no marketing cultural e veiculação da marca. O patrocínio do banco digital que se tornou a maior empresa do país em poucos anos pode entregar mais. A brecha, porém, em plena Avenida Paulista, importa porque uma instituição de prestígio produz legitimidade. Artistas e movimentos sociais do sul global podem alcançar públicos com capacidade de amplificação.

Não defendemos a instrumentalização da arte, tampouco alguma mágica difusão de conhecimento e de contracolonialidade, nos termos de Nêgo Bispo. As expressões criativas servem como ferramenta até certo ponto, pois orientam a atenção, reordenam afetos, fermentam linguagens, abrem os campos da experiência ontológica e cognitiva, reposicionando o que é comum ao humano na diversidade. Mas, na essência, a arte não tem função e antecede o valor de troca. A potencialidade da fruição artística depende de dispositivos de tradução, disputa, reuso coletivo e, principalmente, de políticas públicas e abordagens interdisciplinares, robustas o suficiente para abranger o escopo sistêmico e de longa duração da desordem informacional sobre o uso da terra.

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