Trump e Projeto Paleoconservador de poder
Ataque à Venezuela revela novo paradigma intervencionista. Em vez da “defesa da democracia”, usada pelo velho establishment, procura-se agora seduzir o eleitorado com “retorno financeiro para os EUA” com “risco zero”. Mas haverá “imperialismo popular”?
Publicado 21/01/2026 às 17:03

Ao contrário do que circula na memética da internet, em seu pronunciamento de 3 de janeiro sobre a captura de Nicolás Maduro, Donald Trump não mencionou uma única vez a palavra “democracia“. Essa omissão marca diferenciação com o paradigma neoconservador, cujas intervenções — Iraque, Afeganistão e Líbia, por exemplo — justificavam-se precisamente pela retórica de exportar direitos individuais.
Trump, no entanto, é um paleoconservador. E, como tal, inaugurou com a ação na Venezuela um novo modelo de intervenção externa: vendido como de risco zero (“nenhum americano foi morto”), justificado por um cálculo de retorno financeiro (“vamos receber recompensas” pelo petróleo) e, sobretudo, ancorado inteiramente na e pela política interna dos Estados Unidos.
Para decifrar essa mudança de paradigma, é necessário recuar às raízes da fragmentação da direita americana pós-Reagan e ao surgimento de duas correntes rivais: o neoconservadorismo e o paleoconservadorismo.
A cisão: neoconservadores vs. paleoconservadores
O neoconservadorismo emergiu como uma coalizão de intelectuais, empresários, direita cristã e setores da classe média, que elegeu Ronald Reagan em 1980. Sua plataforma fundia valores morais tradicionais ao neoliberalismo econômico, defendendo uma projeção externa dos EUA como potência dominante no combate à União Soviética.
Com o fim da era Reagan e a queda do Muro de Berlim, essa coalizão perdeu seu líder agregador e seu inimigo externo primordial. Com isso, ocorreu uma cisão que marcou o início de uma disputa pela alma da direita americana.
Os neoconservadores, de um lado, passaram a advogar pela liderança global; os paleoconservadores, por sua vez, defendiam uma visão de país voltada para dentro, centrada na suposta homogeneidade étnico-cultural e no cristianismo — uma reação ao que viam como um globalismo desenraizante.
A consolidação do neoconservadorismo intervencionista
Os atentados de 11 de setembro deram impulso definitivo à “política externa com fins morais”, justificada com base em uma suposta missão civilizatória. Sob George W. Bush, figuras como Elliott Abrams e Paul Wolfowitz colocaram a “guerra ao terror” e a promoção ativa da democracia no centro da ação dos EUA — o que foi criticado como um imperialismo messiânico.
O retorno da “velha direita”: raízes e princípios do paleoconservadorismo
Do outro lado da cisão, os paleoconservadores se reivindicam herdeiros do “conservadorismo tradicionalista” ou da “Velha Direita” do pré-Segunda Guerra, inspirada em figuras como Russell Kirk e Robert Nisbet.
Para pensadores dessa corrente, o multiculturalismo e o “politicamente correto” seriam expressões de uma “teocracia secular”, do globalismo e do marxismo cultural, hostis à dita identidade Ocidental americana. Essa visão se traduz em um anti-intervencionismo geopolítico e um nacionalismo cultural radical no plano doméstico.
Pat Buchanan, outro pilar do movimento, direcionou sua crítica à elite transnacional e ao livre-comércio, que teriam sacrificado a soberania nacional e deixado para trás os “americanos esquecidos” — a classe trabalhadora cujos empregos e comunidades foram erodidos pela globalização. Sua resposta era um nacionalismo econômico que restabelecesse a centralidade do trabalho americano.
É precisamente dessa tradição, como argumenta Gottfried (2020), que brota a genealogia intelectual do trumpismo e seu slogan “America First”. Trump dialoga diretamente com os “esquecidos” de Buchanan. Suas tarifas comerciais e sua retórica de recuperação industrial são a expressão prática do nacionalismo econômico paleoconservador.
O sequestro de Maduro: a máquina jurídica e a lógica do negócio
A intervenção não se justificou por um proselitismo democrático, mas pela primazia da política interna, expressa em três vetores: a rejeição do custo humano das guerras tradicionais, o combate a ameaças domésticas e a lógica do retorno financeiro.
O primeiro vetor foi marcado pela ênfase obsessiva em que “nenhum americano foi morto” — a operação foi vendida como um ato de força sem risco. O segundo vetor definiu o modus operandi: não uma declaração de guerra, mas a captura de um “narcoterrorista”, enquadrado como criminoso comum em um processo do Distrito Sul de Nova York. A justificativa foi ancorada em índices domésticos de violência, conectando o inimigo externo às “gangues” que aterrorizam cidades americanas.
O terceiro vetor, porém, desnudou o cerne da intervenção paleoconservadora. Trump foi direto ao ponto: “Nós vamos administrar o petróleo”. Ao prometer que as riquezas venezuelanas trarão “recompensas” aos EUA, apresentou a ação como a recuperação de um patrimônio “roubado” e a gestão de um empreendimento lucrativo.
Dessa forma, Trump buscou legitimidade não perante uma comunidade internacional, mas perante um eleitorado definido por ressentimentos e inseguranças materiais. Sua linguagem falou diretamente aos que se sentem traídos pelo globalismo, transformando uma operação militar distante em uma resposta concreta — e potencialmente rentável — para suas aflições domésticas.
A criação de Trump
O sequestro de Maduro revela um aparente paradoxo: como um movimento de raízes anti-intervencionistas como o paleoconservadorismo pode protagonizar uma ação militar tão ousada? A resposta é que Donald Trump não renegou a intervenção; reengenheou-a. Ele criou o modelo paleoconservador de projeção de poder: uma operação de “polícia global” conduzida pelo Departamento de Justiça, justificada por uma narrativa estritamente doméstica e transacional.
Essa reinvenção, porém, também se insere numa tradição histórica que vai além da mera Doutrina Monroe. Coerente com a reapropriação da “Velha Direita” pelos paleoconservadores — Trump resgata o intervencionismo hemisférico da era pré-Guerra Fria: é uma certa volta à “Diplomacia do Dólar” de William H. Taft — a defesa agressiva de interesses econômicos — e ao “Big Stick” de Theodore Roosevelt, agora executado com helicópteros de assalto e supremacia cibernética.
A operação consolida a paleoconservadorização da política externa dos Estados Unidos. O “America First” se converte no manual operacional de um novo (e antigo) paradigma. Trump não encontrou uma fórmula para acabar com as intervenções norte-americanas; encontrou, talvez, a fórmula para fazê-las, novamente, populares.
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