GOMO: Um respiro agroecológico na Oxxolândia
Quando corporações engolem o comércio local e impõem o deserto dos ultraprocessados, uma iniciativa inspira a urbanidade frutífera: um mercado onde o trabalho é cooperativado desafia a ideia de patronato e oferece preços justos. Poderá se espalhar pelas cidades?
Publicado 19/01/2026 às 16:30 - Atualizado 19/01/2026 às 17:04

“A melhor esquina é a sua porque tem Oxxo na rua” – slogan da empresa no Instagram
“Um outro mercado é possível” – chamado da Gomo Coop em material de divulgação
Na Agroecologia, nenhuma espécie de ser vivo é definida como uma praga. Cada animal, vegetal ou fungo tem sua função na teia da biodiversidade. Quando um deles se multiplica exageradamente ou atrapalha um determinado ecossistema, dizemos que existe um desequilíbrio e buscamos incentivar a natureza a se reorganizar.
Mas, quando olhamos para a sociedade humana, a palavra praga tem muita utilidade! Ela pode ser usada, por exemplo, para definir outro tipo de “elemento”: aquele que, apesar de ser algo dispensável à nossa existência sob qualquer perspectiva, surge e se multiplica insanamente até perturbar o ambiente em que vivemos. É o caso do Oxxo, uma rede de mercados que tem pipocado em grandes cidades brasileiras nos últimos anos — e se espalhou com uma velocidade alucinante.
Durante a fase crítica da pandemia, quem seguiu a orientação de fazer quarentena a sério em São Paulo sabe da surpresa que foi voltar a sair nas ruas e dar de cara com uma unidade da rede em cada esquina. Elas tomaram os lugares em que antes estavam padarias, cabeleireiros, papelarias, restaurantes ou até outros mercadinhos, daqueles que funcionavam há décadas no bairro.
E, no decorrer dos dias, a população local continuou a se surpreender, ao circular pelos arredores ou pelos bairros vizinhos e encontrar mais e mais esquinas tomadas pela novidade mercadológica. A sensação que muita gente deve ter experimentado (ao menos foi a que experimentei) é a de que estava caminhando por uma verdadeira Oxxolândia.
Como urbanista e ativista pela comida de verdade, fiquei realmente abalada com essa transformação na paisagem urbana. Além de dissolver laços históricos entre moradores e antigos comerciantes, dinamitando as relações de confiança, de solidariedade e de pertencimento a uma coletividade, construídas ao longo do correr do tempo, os mercados da rede ainda se esmeraram em vender predominantemente os produtos industrializados que tanto nos fazem mal.
São as Big Foods ganhando mais e mais terreno em nossas sociedades regidas pelo imediatismo, pela facilidade, pela falta de conexão com a natureza. Cada mercadinho parece ter exatamente o que um habitante urbano, sem tempo para planejar sua rotina e refletir sobre suas escolhas de consumo, deseja. Tudo prático, padronizado, ordenado de modo facilmente usufruído, sem nenhum tipo de referência à cultura local ou necessidade maior de interação humana.
Chantagistas de plantão
O livro Donos do mercado: como os grandes supermercados exploram trabalhadores, fornecedores e a sociedade, parceria da Editora Elefante com O Joio e o Trigo, desnuda o cenário comercial decorrente do domínio do varejo por parte de pouquíssimas corporações, em geral transnacionais.
Foi através dele que descobri que, nesse setor tão pouco regulado pela ética, a palavra enxoval não tem nada a ver com um conjunto de roupas de cama, mesa e banho para casais e seus bebês. Trata-se de uma forma de extorsão sofrida pelos fornecedores por parte das grandes redes que eles atendem. Ela é explicada detalhadamente na publicação, assim como muitos outros abusos.
Para resumir um pouco essas práticas abusivas, podemos dizer que, em geral, as tais promoções — que empresas como Carrefour, Pão de Açúcar e Walmart realizam — são bancadas unilateralmente pelos fornecedores dos produtos ofertados, que acabam vendendo com prejuízo. Quem não se submete a esse achaque é boicotado e pode ter seu produto escondido em prateleiras menos visíveis, ou até banido temporariamente. Se você ainda tinha dúvidas sobre o que rege esse setor, acabou de achar a resposta: chantagem.
O apelo financeiro ao anunciar preços promocionais, impraticáveis por mercados menos poderosos, faz com que a livre concorrência (se é que isso existe mesmo) seja implodida de vez. Para a população, que costuma suar tanto para ganhar o sustento diário, comprar produtos um pouco mais baratos pode significar a diferença entre ter ou não comida na mesa.
E assim o pequeno comércio local vai sofrendo para seguir em pé; e uma rede capitalizada — como a do Oxxo — pode facilmente negociar sua compra, como demonstra a recente multiplicação dos mercadinhos da empresa nos antigos pontos comerciais do espaço urbano. Esse fenômeno também ocorre pelo assédio das incorporadoras imobiliárias. Elas têm erguido um volume recorde de prédios em bairros tradicionais — boa parte deles do tipo estúdio, um nome pomposo para o que antes era chamado de quitinete.
Sobem os novos edifícios-empreendimentos e desaparecem as quitandas familiares, os restaurantes de comida caseira, as antigas vendinhas… Vamos ficando mais e mais dependentes dos hipermercados, dos shoppings e dos aplicativos de entrega, todos controlados por executivos e acionistas insaciáveis — articulados em uma trama financeira internacional — que drenam nosso suado dinheirinho para perpetuar a expansão de seus negócios e conquistar uma fatia ainda maior do varejo.
A concentração de poder e de dinheiro é tão brutal que o salário de um “colaborador” ou uma “colaboradora” que trabalhe em uma das unidades das grandes redes varejistas chega a ser mais de mil vezes menor do que o de um de seus CEOs (o CEO do Assaí/Sendas, por exemplo, ganhou cerca de R$ 24 milhões só no ano de 2023). E as rotinas laborais são estafantes e apresentam condições físicas e emocionais muitas vezes insuportáveis.
Isso vale também para o comércio online, e o livro Como resistir à Amazon e por quê: a luta por economias locais, proteção de dados, trabalho justo, livrarias independentes e um futuro impulsionado por pessoas, cuja versão brasileira também foi publicada pela editora Elefante, revela os bastidores da exploração desenfreada feita pela corporação, com a precarização do trabalho reinando onde ela opera.
Vai um veneninho aí?
O Brasil é o campeão no uso de agrotóxicos há quase duas décadas. Só em 2025, foram liberados 750 novos venenos, muitos deles não permitidos em países do norte global. Nosso território rural está sendo mais e mais dominado por monoculturas de commodities, como soja, milho e cana-de-açúcar. Se em grande parte esses cultivos são destinados à exportação, eles também são transformados em óleos, farinhas, açúcares e entram na composição de quase tudo o que se vê embalado nas prateleiras dos mercados. Formam a base de produtos nada saudáveis que vão parar nas nossas barrigas: os ultraprocessados.
As três edições da pesquisa Tem veneno nesse pacote, realizadas pelo IDEC, revelam que, mesmo com todas as etapas de processamento sofridas por esses produtos — antes de se tornarem biscoitos, sucos artificiais, macarrão instantâneo, nuggets —, eles ainda apresentam resíduos de agrotóxicos. Isso significa que essa carga tóxica vai se somar aos aditivos que recebem para durarem mais, terem mais palatabilidade e até viciarem nosso cérebro com suas fórmulas maximizadoras do prazer imediato. É a receita perfeita para o adoecimento, como vemos no aumento dos casos de síndrome metabólica e câncer, inclusive em crianças, principais alvos da publicidade.
Esse sistema agroalimentar doentio, em que gigantescas plantações de commodities, poderosas indústrias alimentícias e insaciáveis redes de comercialização dominam todas as etapas relacionadas à comida, é um dos fatores que nos impedem de conquistar segurança alimentar e nutricional, apesar de sermos um país fértil e altamente agrobiodiverso. E nos deixa a milhares de anos-luz de atingir nossa soberania popular, já que os povos das cidades, dos campos, das florestas e das águas acabam sendo forçados a se sujeitar a esse modelo dependente, muitas vezes sob violência.
Durante todo o processo de produção, circulação, comercialização e consumo de alimentos, outro material extremamente danoso à saúde humana e à natureza estabeleceu sua onipresença. Estamos falando do petróleo. Ele está nos fertilizantes químicos industriais usados nas plantações, no diesel que move os veículos de transporte e nas embalagens que envolvem quase tudo o que é ofertado ao nosso consumo: de bandejas de isopor a garrafas PET, incluindo os famigerados saquinhos plásticos que ainda reinam nos grandes mercados.
Não é à toa que a Venezuela, país com a maior reserva de petróleo do mundo, foi atacada pelo governo estadunidense; e que o chamado “Oriente Médio”, também repleto do “ouro negro”, vive entre conflitos bélicos intermináveis. Sem petróleo, sem Agronegócio, sem indústria alimentícia e sem redes varejistas. E os resíduos de todos esses usos vão se acumulando dentro e fora de nós, já que vemos microplásticos tanto no cérebro humano como em mares muito distantes da civilização ocidental.
Da utopia à realidade
Os movimentos sociais que lutam pela Soberania Alimentar têm uma proposta radicalmente diferente desse modelo tóxico, injusto e insustentável. A Agroecologia — construída junto a uma redistribuição de propriedades rurais e urbanas e ao estabelecimento de relações econômicas não predatórias entre quem produz, quem vende e quem consome — oferece um caminho viável para evitarmos o abismo ao qual o atual sistema nos dirige.
Enquanto a população campesina, por meio de organizações como o MST e o MPA, está implantando agroflorestas, trabalhando com bioinsumos, cultivando biodiversidade e lutando por uma Reforma Agrária Popular e Agroecológica, a população das cidades também se articula para escapar das garras corporativas. Hortas urbanas, grupos de consumo solidário, institutos de comércio justo, cozinhas comunitárias… compõem uma teia de relações mais harmoniosas entre as pessoas — e delas com o ambiente.
Mas ainda não havia uma iniciativa que rompesse com a ideia de que quem compra e quem vende não podem se fundir. E ela acabou de nascer! A GOMO COOP é o primeiro mercado cooperativo participativo do Brasil e se estabeleceu no centro da maior cidade sul-americana, São Paulo, após anos de pesquisa, diálogo e construção conjunta por parte de um grupo de pessoas que não se conformava em ser refém das máfias agroalimentares. Ela abriu as portas oficialmente no dia 6 de janeiro e, por enquanto, está atendendo o público em geral, além de integrantes que já se associaram — mais de 400 até agora.
Se você está se perguntando qual a diferença entre a GOMO e um outro mercado, podemos começar justamente pelas relações de trabalho, que costumam ser tão cruéis nas redes varejistas corporativas. Nada de patronato; aqui são as próprias pessoas integrantes da iniciativa — chamadas de cooperantes — que trabalham para que tudo funcione. Como o mercado é delas, já que adquiriram uma cota parte do capital social para participar, como em qualquer cooperativa, não faz sentido pagarem salários a si mesmas e, ao invés de serem regidas pelos valores monetários, elas se organizam em turnos de 3 horas de trabalho mensais cada uma, mantendo a estrutura em pé.
Como integrantes, essas pessoas passam a acessar produtos de qualidade a bons preços, definidos a partir de uma margem média de 35% sobre o valor pago aos fornecedores. Diferentemente de outras cooperativas, as sobras não são distribuídas entre as cooperantes, mas reinvestidas na própria Gomo, o que permite fortalecer a estrutura do mercado e criar condições para a redução progressiva dos preços à medida que mais pessoas aderem. Esse equilíbrio também é viabilizado pelo trabalho realizado pelas cooperantes nos turnos, que reduz despesas operacionais e contribui para a sustentabilidade da iniciativa.
Sim, se você se associar, irá trabalhar, vender e comprar no SEU próprio mercado! Eu, como cooperante, já tive esse prazer e a sensação é de liberdade, de justiça, de pertencimento à coletividade e até de encontrar sentido em ser parte da espécie humana, enquanto um ser que se organiza em sociedade.
Entra a GOMO, sai a (bala de) goma
Claro que, como ativista, também sinto uma satisfação imensa em dar uma banana para as Big Foods. Ainda mais porque a nossa banana é livre de venenos e é produzida pela Agricultura Familiar — sendo comprada por um valor justo tanto para quem cultiva quanto para quem come.
Mas, por mais que amemos as bananas, a fruta que inspirou a cooperativa é outra. A palavra GOMO se refere a um gominho de mexerica e simboliza a relação inescapável entre a individualidade e a coletividade, já que é a união dos gomos que permite a formação da fruta. Além disso, cada gomo também é formado por pequenos gominhos (que contêm o sumo e o liberam quando mordemos), reforçando a ideia de integração.
Assim, o conjunto de cooperantes dá corpo a uma comunidade. Ou melhor, a uma Gomunidade, em que cada pessoa contribui de acordo com o que é necessário e de suas possibilidades. As três horas mensais trabalhadas (quem quiser pode trabalhar mais, como forma de contribuição, ou para ter a satisfação de conviver mais com outras e outros cooperantes) são destinadas a todo tipo de serviço, respeitando as condições de cada pessoa. Pode ser organizando as prateleiras no estoque ou na loja, atendendo o público, limpando o local ou cuidando dos resíduos.
Por falar em resíduos, na GOMO você não vai encontrar produtos ultraprocessados e ultraembalados. Nada das marcas mais agressivas à sociedade e à Mãe Terra. Isso significa que não haverá os onipresentes pacotinhos plásticos de bala de goma no caixa, como ocorre nos Carrefours e Extras da vida. Nada de seduzir a criançada com produtos coloridos artificialmente, atolados de açúcar e aditivos, paupérrimos em nutrientes e produzidos em formato de dentadura, ursinho, minhoca. A comida comercializada é de verdade e quem já experimentou os alimentos pode garantir que tudo é muito gostoso, além de não ter um valor salgado.
As comparações com os preços dos mercados convencionais mostram que a GOMO está com valores mais baixos para a maioria dos itens vendidos. Todos os hortifrutis são orgânicos e, mesmo assim, muitos estão abaixo do preço que os produzidos com agrotóxicos custam. É um impulso para a democratização da comida agroecológica, aquela que nutre nossos corpos, regenera nossos ecossistemas, valoriza nossa diversidade biológica, étnica, social e cultural.
Aliás, a cultura deve mesmo florescer no espaço da cooperativa e entre as pessoas que a compõem, já que elas possuem formações muito variadas e muitas ideias têm surgido, como montar uma biblioteca e organizar vivências.
Urbanidade frutífera
A GOMO foi livremente inspirada em iniciativas criadas em outros países, mas sempre com um olhar atento para a realidade brasileira. Como foi instalada na Vila Buarque, em São Paulo, também houve um cuidado com a cidade, com o bairro e com o entorno. A proposta é ser um lugar central, de fácil acesso, próximo ao metrô, para que cheguem pessoas de todos os cantos da metrópole. E, também, estimular as relações de convívio no entorno — que, como outros bairros paulistanos da região, é vítima dos processos de degradação urbana característicos do centro antigo, mas ainda possui uma população ativa que mantém a vida pulsando.
Embora a intenção da Gomunidade não seja a de abrir filiais do mercado, o zum zum zum causado pela novidade já tem despertado reflexões e inspirado mais pessoas a se sentirem tentadas a construir algo que também não se submeta à lógica exploradora que hoje predomina na nossa sociedade. Veículos da imprensa corporativa — os mesmos que repetem à exaustão que o Agro(negócio) é Pop, é Tech, é Tudo — já fizeram matérias para falar da iniciativa.
Alguns insistem em distorcer a proposta, dizendo que o mercado vai pagar trabalho humano com comida — o que seria inaceitável do ponto de vista ético ou legal, já que a escravidão foi, ao menos teoricamente, abolida há mais de um século. Mas muitos tratam de modo menos tendencioso e apontam os pontos positivos e também os desafios, que existem e estão sendo enfrentados.
Se mais pessoas se sentirem provocadas a questionar o modo abusivo com que atuam os tais “donos do mercado”, temos chance de abrir frestas na “Oxxolândia” e semear outros “frutos” no espaço urbano. Não precisam ser mexericas, já que a ideia não é sair replicando o modelo da GOMO com todos os detalhes exatos, como costuma ser feito com uma franquia.
Cada nova iniciativa poderá ser construída conforme as condições encontradas, o local escolhido e a criatividade ilimitada das pessoas envolvidas, tão tolhida na sociedade de exploração em que vivemos. E para isso, a própria Gomo estará preparada para compartilhar seus estudos e aprendizados; foi também com esse intuito que todo o processo de estruturação da Cooperativa foi documentado.
Podem surgir iniciativas tão variadas quanto a nossa diversidade biológica e cultural: “pitangas”, “grumixamas” e “cambucis”, por exemplo, podem inspirar outros modelos e dialogar com as “mexericas” da GOMO. O que importa é romper esse asfalto árido que tem sufocado nossa vida comunitária, nossas escolhas alimentares, nossa justiça social, nossa expectativa de sobrevivência no futuro.
As Big Foods, assim como as Big Techs e as Big Pharmas, podem ser poderosas frente às nossas organizações “alternativas”. Mas, como demonstraram — no finalzinho do ano passado — os movimentos sociais com a vitória conquistada contra as indústrias de refrigerantes na Reforma Tributária, não são invencíveis.
O que está aí já mostrou que deu (muito) errado, como a crise civilizacional nos esfrega na cara todos os dias. É hora de abrir novos caminhos e a GOMO está nessa missão. O tempo dirá se ela será mesmo tão frutífera como sonhamos, mas este início está sendo emocionante e rompeu a mesmice conformista de quem já se resignou a ser massacrado/a sem reagir.
Viva a comida de verdade! Viva a organização comunitária! Viva a ousadia de quem não desiste de sonhar!
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