Cinema: A lei do desejo

Um jovem negro, pobre e aspirante a galã de TV. Outro, branco, rico e candidato a prefeito. Juntos, numa secreta relação homoerótica. Ato noturno é permeado por dicotomias que desvela como corpos se amam e se devoram nas frestas de uma metrópole conservadora

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Por José Geraldo Couto, no Blog do IMS

Ato noturno, de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, constrói-se a partir de um argumento poderoso: um jovem ator, aspirante a astro televisivo, e um jovem político, candidato a prefeito de Porto Alegre, têm uma intensa relação sexual e amorosa – e precisam mantê-la escondida, para o bem de suas carreiras.

O ator, Matias (Gabriel Faryas), é um rapaz negro oriundo de família pobre do interior. O político, Rafael (Cirillo Luna), é um vereador e empresário branco de sucesso. A atração entre os dois – quando um ainda não sabe quem é o outro – é imediata e avassaladora.

Essa relação homoerótica e inter-racial, numa metrópole brasileira conservadora (e qual não é?), enfrenta obstáculos evidentes. Para conquistar um papel importante numa série televisiva, Matias tem que ocultar sua vida pessoal e alimentar a imagem de galã hétero. A margem de exposição do candidato a prefeito, então, é ainda mais estreita. Eles se amam e se entredevoram nas frestas.

Teatro sem fim

Vem daí que o filme se desenvolve como uma série de contraposições ou dicotomias: dia/noite, vida privada/imagem pública, desejo/pragmatismo, palco (ou set)/cidade, princípio do prazer/princípio da realidade. “É tudo um teatro”, diz um dos personagens a certa altura, verbalizando aquilo que já tinha ficado claro desde a primeira sequência, em que o ensaio de uma peça evidencia outro ponto forte da mise-en-scéne, a relação dos corpos entre si e com o ambiente.

Nesse contexto, um personagem-chave funciona como vigia ou guardião das fronteiras entre os termos contrapostos, entre o mundo noturno e o diurno. É o assessor/segurança do candidato Rafael, Camilo (Ivo Müller). Essa figura taciturna e sinistra é o lugar em que Ato noturno flerta com o suspense e a violência de um thriller, ainda que na sequência final o filme mande às favas a verossimilhança e abrace sem reservas uma poética homoerótica quase almodovariana. De uma maneira ou de outra, a lei do desejo acaba se impondo.

O dia e a noite

Duas observações finais. A cidade de Porto Alegre pulsa e respira ao longo do filme – em particular o belo parque da Redenção, onde se passam algumas das cenas mais importantes. Nele também está presente o contraste entre o dia dos passeios familiares e a noite dos prazeres clandestinos.

A outra observação é extra-fílmica e talvez impertinente: é curioso que o Rio Grande do Sul, sempre associado no imaginário brasileiro a um lugar de culto à macheza, seja administrado pelo único governador (até onde eu sei) assumidamente gay. Sinal de que, apesar de todos os ventos contrários, as coisas sempre podem mudar.

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