A ultradireita nos EUA: do macarthismo a Trump

Presidente assimila a cartilha de perseguição política dos anos 50. Reveste o racismo de patriotismo e busca sustentar o poder a partir do medo. Só trocou alguns espantalhos, como a ameaça comunista pelo marxismo cultural e imigração. Como antes, o excesso pode levá-lo à implosão

À esquerda: O presidente Donald Trump discursa perante uma sessão conjunta do Congresso no Capitólio, em Washington, na terça-feira, 28 de fevereiro de 2017. (Pablo Martinez Monsivais/AP) À direita: O senador Joseph McCarthy (republicano do Wisconsin), em Washington, em 26 de fevereiro de 1957. (John Rous/AP)
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Até os grandes palácios se desfazem no ar rarefeito. Como recorda Shakespeare em A Tempestade, toda glória humana é efêmera — e o mesmo destino aguarda projetos políticos erguidos sobre o medo. Em momentos de crise e transição, surgem fantasmas coletivos: nos Estados Unidos dos anos 1950, o comunismo; no presente, sob Donald Trump em sua segunda administração, o chamado “Estado profundo” (deep state) e o espectro de uma conspiração cultural global. Hoje, documentos estruturantes da Nova Direita norte-americana como o Project 2025 (Heritage Foundation, 2023) e o Project Esther (Coates, 2024; Abrams, 2025) retomam, sob novas formas, o mesmo propósito do macarthismo: reorganizar a vida pública pela manipulação do medo.

O macarthismo floresceu em meio à Guerra Fria, quando a suposta ameaça comunista serviu de pretexto para expurgos em universidades, perseguições em sindicatos e demissões no serviço público. A indústria cultural e o meio acadêmico foram especialmente atingidos, num contexto em que o medo se tornava método de governo (Schrecker, 1998). Entre os perseguidos, destacam-se Charlie Chaplin, impedido de regressar ao país; o dramaturgo Arthur Miller, autor de As Feiticeiras de Salém — metáfora da caça às bruxas; o roteirista Dalton Trumbo, obrigado a usar pseudônimo; e o cantor e ativista negro Paul Robeson, que teve o passaporte cassado. Também foram alvos cientistas como Linus Pauling, duas vezes laureado com o Nobel, perseguido por sua militância pacifista (Hager, 1995), e J. Robert Oppenheimer, diretor do Projeto Manhattan, que perdeu sua autorização de segurança em 1954 após audiências humilhantes (Bird; Sherwin, 2005).

No campo político, o poder de Joseph McCarthy parecia incontrastável até o célebre embate de 1954 com as Forças Armadas. Durante audiências televisionadas, Joseph Welch, o representante do Exército, reagiu quando o senador tentou destruir a reputação de um jovem advogado de seu escritório, citando sua antiga ligação com a National Lawyers Guild, organização progressista que McCarthy rotulava como ‘comunista’. A resposta de Welch — ‘Have you no sense of decency, sir, at long last?’ (‘Afinal, o senhor não tem um pingo de decência?’) — vista por milhões de norte-americanos, expôs a crueldade e o arbítrio das táticas macarthistas e marcou o início de sua ruína. Pouco depois, McCarthy seria censurado pelo Senado e, consumido pelo alcoolismo, morreria isolado em 1957.

Entre esse fim melancólico e a retórica agressiva de Trump atravessa a sombra de Roy Cohn: advogado implacável que, como braço direito de McCarthy, ganhou notoriedade pela ferocidade nas audiências do Senado, sustentando perseguições a artistas, cientistas e militares. Homossexual e judeu, Cohn personificava a contradição de um sistema que perseguia tanto minorias religiosas quanto indivíduos acusados de “desvios sexuais”, mas do qual ele próprio extraía poder ao atuar como um de seus mais agressivos operadores. Reinventado como advogado em Nova York, tornou-se décadas depois mentor de Donald Trump, a quem transmitiu o estilo de confronto e intimidação permanente (von Hoffman, 1988; BBC, 2024). Nesse fio de continuidade, a história americana parece repetir seus fantasmas sob novas máscaras.

O macarthismo não inventou o racismo norte-americano, mas o revestiu de patriotismo. Sob a bandeira da pureza nacional e da vigilância anticomunista, legitimou antigas hierarquias raciais e morais, convertendo a suspeita em virtude cívica. Essa gramática do medo — que transforma diversidade em ameaça e dissenso em traição — ressurge hoje, atualizada por novos dispositivos burocráticos e digitais.

O mesmo impulso de “proteger a nação” que serviu para vigiar intelectuais e artistas nos anos 1950 reaparece agora em políticas migratórias que privilegiam a branquitude e criminalizam o diferente. A recente decisão do governo Trump de priorizar agricultores brancos sul-africanos ecoa, sob outro pretexto, o ideal de uma “América verdadeira”, etnicamente homogênea e moralmente purificada (Reuters, 2025; The Guardian, 2025). Do mesmo modo, o controle ideológico da cultura e da educação retoma o projeto de uniformização nacional promovido pelo macarthismo. Se antes eram roteiristas e professores acusados de “subversão”, agora são autores e livros banidos das escolas sob a justificativa de combater o “marxismo cultural” ou a “ideologia de gênero”. Os manuais operacionais da nova direita conservadora e antiliberal oferecem o enquadramento doutrinário dessa cruzada, defendendo a centralização do poder executivo, a supressão da diversidade curricular e o fortalecimento de uma moral cristã-nacionalista. Assim como McCarthy usou o anticomunismo para disciplinar mentes e corpos, o trumpismo transforma fé e segurança nacional em instrumentos de vigilância ideológica.

Mas, ao partilhar da mesma lógica persecutória, o trumpismo a adaptou a novos meios. O inimigo agora não é mais o comunismo internacional, e sim o “globalismo”, as universidades, a imprensa crítica e os órgãos de regulação. A diferença é que, desta vez, o espetáculo da perseguição se difunde em tempo real, amplificado pelas redes sociais e pelo marketing político (Klein, 2020).

Tal como no auge do macarthismo, em que a imprensa e a indústria cultural se viram submetidas a pressões sufocantes, o trumpismo também avança contra a liberdade de expressão, promovendo processos contra grandes jornais e redes de televisão e fomentando um ambiente de medo e autocensura. Recentemente, emissoras anunciaram a suspensão dos programas de Jimmy Kimmel (ABC) e Stephen Colbert (CBS) — ambos símbolos do humor político independente — em meio a pressões e ameaças, embora no caso de Kimmel a decisão tenha sido posteriormente revertida (Associated Press, 2025; Time, 2025). Esses episódios revelam a amplitude do assédio à crítica e a tentativa de moldar o espaço público pela coerção.

Se McCarthy usava comissões parlamentares e manchetes de jornal, hoje Trump se apoia em mídias digitais, igrejas conservadoras e redes de think tanks. A essência, porém, não muda: sustentar o poder a partir do medo e da divisão.

Olhando para o passado, parecemos estar em um momento equivalente ao auge do macarthismo. O trumpismo consolidou uma base leal e internacionalizada, mas já mostra sinais de desgaste. Como nos anos 1950, o excesso pode levá-lo à implosão. Movimentos que se legitimam pela paranoia e pela violência contra reputações, cedo ou tarde, revelam suas fragilidades. Camões lembrava: “Depois de procelosa tempestade, noturna sombra e sibilante vento, traz a manhã serena claridade, esperança de porto e salvamento.” Se o macarthismo foi derrotado quando parecia imbatível, o trumpismo, mesmo em ascensão, também poderá encontrar seus limites à medida que suas promessas de ordem se revelem fontes de caos. A história americana já mostrou antes — e pode mostrar de novo — que nenhuma escuridão é eterna.


Referências

ABRAMS, Rachel. “Project 2025’s Other Project”. The Daily, The New York Times, 16 jul. 2025.

ASSOCIATED PRESS. “ABC suspends Jimmy Kimmel’s late-night show amid political pressure”. 12 out. 2025.

BBC CULTURE. “Roy Cohn: The mysterious US lawyer who helped Donald Trump rise to power”. 17 maio 2024.

BIRD, Kai; SHERWIN, Martin J. American Prometheus: The Triumph and Tragedy of J. Robert Oppenheimer. New York: Vintage, 2005.

CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. 1572. Edição eletrônica consultada: Canto IV, est. 1. Disponível em: luisdecamoes.pt (Diretório de Camonística) e Oslusiadas.org.

COATES, Victoria. Project Esther: Faith and Family in the Renewal of the Nation. Washington, DC: Heritage Foundation, 2024.

GUARDIAN (THE). “Controversy as U.S. immigration policy favors white South Africans”. 11 set. 2025.

HAGER, Thomas. Force of Nature: The Life of Linus Pauling. New York: Simon & Schuster, 1995.

HERITAGE FOUNDATION. Mandate for Leadership: The Conservative Promise (Project 2025). Washington, DC: Heritage Foundation, 2023.

JOHNSON, David K. The Lavender Scare: The Cold War Persecution of Gays and Lesbians in the Federal Government. Chicago: University of Chicago Press, 2004.

KLEIN, Naomi. The Shock Doctrine: The Rise of Disaster Capitalism. New York: Picador, 2007.

REUTERS. “U.S. to prioritize refugee claims from white South African farmers, officials say”. 10 set. 2025.

SCHRECKER, Ellen. Many Are the Crimes: McCarthyism in America. Princeton: Princeton University Press, 1998.

SHAKESPEARE, William. The Tempest. London: First Folio, 1611.

TIME. “Late-Night Under Fire: Stephen Colbert Faces Renewed Scrutiny”. 14 out. 2025.

VON HOFFMAN, Nicholas. Citizen Cohn. New York: Doubleday, 1988.

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