Quando o Google captura a universidade pública
Como a entrada da Alphabet nas cátedras aprofunda a dependência e ameaça a soberania nacional? Que ardis utiliza para forçar acesso ao pensamento estratégico do Estado e transformar ciência pública em infraestrutura privada de poder?
Publicado 14/01/2026 às 19:27 - Atualizado 14/01/2026 às 19:37

A universidade pública como infraestrutura estratégica da soberania nacional
Não existe soberania nacional sem capacidade autônoma de produzir conhecimento. Essa afirmação não é retórica, nem ideológica, nem acadêmica: ela é estratégica. Estados soberanos não se definem apenas pelo controle do território, das Forças Armadas ou da moeda, mas pela capacidade de pensar por conta própria, formar seus quadros dirigentes, produzir ciência crítica e orientar políticas públicas sem tutela externa. É nesse ponto que a universidade pública deixa de ser apenas uma instituição educacional e passa a operar como infraestrutura crítica de soberania.
A universidade pública é o local onde se formam magistrados, diplomatas, engenheiros, médicos, planejadores, oficiais, gestores, pesquisadores e formuladores de políticas. É ali que se constrói o vocabulário técnico do Estado, que se define o “estado da arte” em áreas sensíveis, que se produzem diagnósticos sobre a realidade nacional e que se desenham soluções para problemas estratégicos. Em termos materiais, a universidade pública é uma força produtiva estratégica, responsável pela reprodução ampliada da capacidade cognitiva do país.
Sob a perspectiva do materialismo histórico-dialético, isso não é detalhe secundário. A produção científica nunca foi neutra. Em cada período histórico, ela se organiza de acordo com as relações materiais de poder. No capitalismo industrial, a disputa central era pelo controle da fábrica, da energia e da produção material. No capitalismo informacional, a disputa se desloca para o controle da produção de conhecimento, da infraestrutura informacional, dos dados e da linguagem que organiza a realidade social. A universidade pública está no centro desse deslocamento.
Tratá-la como “espaço neutro de inovação” ou como “ambiente aberto a parcerias sem consequências estratégicas” é um erro grave, que confunde forma jurídica com função histórica. Uma universidade pública pode ser juridicamente autônoma, mas materialmente capturada. Pode continuar formalmente pública enquanto opera, na prática, dentro da lógica de interesses privados transnacionais. É exatamente essa contradição que define os conflitos centrais do nosso tempo.
Estados que compreendem sua própria condição histórica protegem seus sistemas de pesquisa e formação como ativos estratégicos. Não por paranoia, mas por racionalidade. Sabem que permitir que agentes externos organizem, financiem ou orientem estruturalmente a produção de conhecimento significa abrir mão da capacidade de decisão soberana no médio e no longo prazo. Quem controla a formação controla o futuro; quem controla a pesquisa controla os limites do possível; quem controla a linguagem controla o campo do pensável.
Por isso, a universidade pública não pode ser analisada com a mesma lógica aplicada a parques tecnológicos privados, hubs de inovação ou centros de empreendedorismo. Ela não existe para maximizar eficiência de mercado nem para atender demandas corporativas globais. Sua função histórica é servir ao interesse público nacional, ainda que isso signifique produzir conhecimento crítico, incômodo ou frontalmente contrário a interesses privados poderosos. Quando essa função é relativizada, a soberania começa a se desfazer por dentro, de forma silenciosa e aparentemente consensual.
No século XXI, a soberania não é destruída apenas por golpes, invasões ou sanções. Ela é corroída quando o Estado perde a capacidade de definir suas próprias perguntas. Quando passa a importar diagnósticos, metodologias, critérios de avaliação e marcos conceituais produzidos fora de seus interesses históricos. Quando suas universidades deixam de ser centros autônomos de reflexão e passam a operar como extensões cognitivas de ecossistemas corporativos globais.
É por isso que a entrada de multinacionais de tecnologia na estrutura da universidade pública não pode ser tratada como questão administrativa, financeira ou meramente acadêmica. Trata-se de uma decisão estratégica, com implicações diretas sobre a autonomia do Estado, a formação de quadros, a formulação de políticas públicas e a própria capacidade do país de se projetar no mundo como sujeito soberano.
Se a universidade pública é capturada, o Estado continua existindo formalmente, mas passa a pensar com categorias alheias, a planejar com ferramentas externas e a decidir dentro de limites definidos por interesses que não controla. A soberania, nesse caso, não desaparece de uma vez: ela é substituída, pouco a pouco, por uma dependência estrutural apresentada como modernização inevitável.
É a partir dessa compreensão que todo o restante deste texto se organiza. O que está em disputa não é uma parceria específica, um convênio isolado ou uma iniciativa pontual. O que está em disputa é a condição mesma de possibilidade da soberania brasileira no capitalismo informacional. E a universidade pública é o primeiro e mais decisivo campo dessa batalha.
O capitalismo informacional e a nova forma de dominação no século XXI
Para compreender o que está em jogo quando grandes corporações de tecnologia avançam sobre universidades públicas, é necessário deslocar o olhar. O problema não reside em uma empresa específica, em seus executivos ou em suas narrativas públicas. O problema é a forma histórica do capital que se consolidou no século XXI e que passou a organizar a produção, a circulação e o controle do conhecimento como eixo central da dominação contemporânea. Essa forma tem nome: capitalismo informacional.
Diferentemente do capitalismo industrial clássico, cuja base material era a fábrica, a energia e a produção de bens tangíveis, o capitalismo informacional opera a partir do controle da infraestrutura cognitiva da sociedade. Ele não se limita a vender produtos ou serviços; ele organiza ambientes, ecossistemas, padrões técnicos, linguagens, protocolos e formas de mediação da realidade. Seu poder não se manifesta apenas no mercado, mas na capacidade de definir como o mundo é percebido, interpretado e governado.
Nesse novo regime, informação, dados, capacidade computacional e modelos cognitivos deixam de ser insumos auxiliares e passam a ser forças produtivas centrais. Quem controla essas forças controla não apenas setores econômicos, mas o próprio horizonte do possível. O capital informacional não disputa apenas consumidores; ele disputa a produção do sentido, a formação das subjetividades e a arquitetura invisível que organiza decisões individuais e coletivas.
Sob essa lógica, infraestrutura deixa de ser um elemento neutro. Plataformas digitais, serviços de nuvem, sistemas de comunicação, ambientes educacionais e ferramentas de pesquisa passam a funcionar como camadas estruturantes da vida social. Elas não apenas suportam atividades; elas moldam práticas, induzem comportamentos, definem limites técnicos e criam dependências. O poder se desloca da coerção direta para a organização silenciosa das condições materiais da ação.
É nesse ponto que o capital informacional se diferencia qualitativamente das formas anteriores de dominação. Ele não precisa impor sua vontade de maneira explícita. Basta que se torne indispensável. Basta que Estados, instituições públicas e sistemas educacionais passem a operar dentro de seus ecossistemas como condição para funcionar. Quando isso ocorre, a autonomia deixa de ser uma decisão política e passa a ser um problema operacional. E problemas operacionais, na lógica do capital, sempre têm soluções privadas.
Do ponto de vista do materialismo histórico-dialético, estamos diante de uma nova etapa de subsunção. Não se trata apenas da subsunção formal do trabalho ao capital, nem da subsunção real observada na indústria. Trata-se da subsunção cognitiva, na qual a produção de conhecimento, os critérios de validação científica, as metodologias e até as perguntas consideradas legítimas passam a ser condicionadas por infraestruturas privadas de alcance global.
Essa forma de capital não se apresenta como força econômica tradicional. Ela se apresenta como inovação, eficiência, modernização e neutralidade técnica. Sua ideologia central é a despolitização. Ao transformar decisões políticas em escolhas técnicas, ela desloca o debate do campo da soberania para o campo da gestão. E, uma vez nesse terreno, a vantagem estrutural das corporações transnacionais se torna praticamente incontestável.
No capitalismo informacional, o controle não se exerce apenas sobre o que é produzido, mas sobre como se produz, com que ferramentas, em quais ambientes e segundo quais critérios. Isso é especialmente sensível no campo científico e acadêmico. Quando a pesquisa depende de infraestrutura privada para existir, quando a formação técnica se dá dentro de ecossistemas proprietários e quando o prestígio acadêmico passa a circular por redes financiadas pelo capital informacional, a autonomia científica se transforma em exceção heroica, não em regra institucional.
É por isso que a presença do capital informacional dentro da universidade pública não pode ser tratada como um simples intercâmbio entre mundos distintos. Não se trata de “aproximar academia e mercado”. Trata-se da entrada de uma forma histórica de poder em um espaço que deveria operar como instância crítica e autônoma. Uma vez instalada, essa forma não se limita a financiar projetos; ela reorganiza prioridades, redefine métricas de sucesso e impõe uma racionalidade que passa a ser internalizada como natural.
A dominação informacional não elimina o Estado de imediato. Ela o reconfigura. O Estado continua existindo, legislando e administrando, mas passa a fazê-lo dentro de limites técnicos, conceituais e operacionais que não controla. A soberania, nesse contexto, não é abolida por decreto; ela é esvaziada por dependência. O país continua decidindo, mas decide com ferramentas, dados e diagnósticos produzidos fora de sua esfera de controle.
É nesse cenário que se deve compreender o avanço de grandes corporações de tecnologia sobre universidades públicas. Não como eventos isolados, mas como parte de um movimento histórico mais amplo de reorganização do poder no capitalismo contemporâneo. Um movimento no qual a produção de conhecimento deixa de ser um campo relativamente autônomo e passa a ser integrada à lógica de expansão, acumulação e hegemonia do capital informacional.
A partir desse ponto, a questão não é mais se determinadas parcerias são “bem-intencionadas” ou “úteis no curto prazo”. A questão é se um Estado soberano pode permitir que a forma dominante de capital do seu tempo organize, desde dentro, os espaços responsáveis por formar seus quadros, produzir seu pensamento estratégico e definir os contornos do futuro. A resposta, quando analisada com rigor histórico e material, é inequívoca.
É com essa compreensão que avançamos para o próximo nível da análise: a identificação do papel específico desempenhado pelas grandes corporações de tecnologia como aparelhos privados de hegemonia no mundo contemporâneo.
O Google como aparelho privado de hegemonia global
Para compreender o papel desempenhado por Google e por sua controladora, a Alphabet, no mundo contemporâneo, é necessário abandonar definitivamente a ideia de que estamos diante de uma empresa “apenas tecnológica”. Essa leitura, além de ingênua, é funcional à própria lógica de poder que se pretende analisar. O Google não é apenas um agente econômico: ele opera como aparelho privado de hegemonia, no sentido mais preciso do termo.
A noção de aparelho privado de hegemonia permite compreender como o poder se exerce para além do Estado, por meio de instituições, práticas e dispositivos que produzem consenso, organizam visões de mundo e naturalizam determinadas relações sociais. No capitalismo informacional, esse papel deixa de ser desempenhado prioritariamente por partidos, igrejas ou meios de comunicação tradicionais e passa a ser exercido por infraestruturas digitais globais que mediam o acesso ao conhecimento, à informação, à educação e à própria realidade social.
O Google ocupa uma posição singular nesse processo. Ele não atua apenas em um setor específico da economia. Ele atravessa, simultaneamente, comunicação, educação, ciência, publicidade, infraestrutura computacional, sistemas operacionais, inteligência artificial e gestão de dados em escala planetária. Essa transversalidade lhe confere um poder qualitativamente distinto: a capacidade de organizar o ambiente no qual outras instituições passam a operar.
Diferentemente do lobby clássico, que atua pressionando legisladores ou financiando campanhas, o poder exercido pelo Google é estrutural. Ele se manifesta na definição de padrões técnicos, na imposição de formatos de interoperabilidade, na centralização de serviços essenciais e, sobretudo, na produção do que passa a ser reconhecido como “estado da arte”. Ao controlar as condições materiais da produção e da circulação do conhecimento, a empresa não precisa impor posições políticas explícitas. Basta que ela se torne indispensável.
É nesse ponto que a atuação do Google no campo acadêmico e científico ganha centralidade estratégica. Universidades não são apenas locais de ensino e pesquisa; são instâncias produtoras de legitimidade. O que emerge da universidade como conhecimento validado tende a irradiar-se para a imprensa, para o judiciário, para o legislativo e para a administração pública. Quando o Google se insere nesse circuito por meio de financiamento, infraestrutura, cátedras e programas de formação, ele passa a influenciar não apenas o conteúdo da pesquisa, mas o marco cognitivo dentro do qual as decisões públicas são tomadas.
Esse movimento não se dá de forma abrupta ou autoritária. Ao contrário, ele se apresenta como cooperação, modernização e compromisso com valores universais como ética, transparência e responsabilidade. Trata-se de uma estratégia sofisticada de hegemonia: o poder não se afirma pela coerção, mas pela internalização de sua racionalidade como senso comum técnico e científico.
No campo da inteligência artificial, esse processo é particularmente visível. O Google não apenas desenvolve tecnologias; ele se posiciona como referência ética, como formulador de princípios e como interlocutor legítimo sobre os riscos e benefícios da própria tecnologia que controla. Essa circularidade é central para o funcionamento do aparelho hegemônico: o agente que cria o problema se apresenta como especialista indispensável para solucioná-lo.
Quando essa lógica adentra a universidade pública, o impacto é profundo. A pesquisa crítica passa a coexistir com incentivos materiais, simbólicos e institucionais que favorecem abordagens compatíveis com o ecossistema dominante. Não é necessário proibir investigações incômodas; basta torná-las menos viáveis, menos financiáveis e menos prestigiadas. A hegemonia se consolida quando o dissenso deixa de ser reprimido e passa a ser desestimulado estruturalmente.
Do ponto de vista do Estado, o risco é evidente. Ao permitir que um aparelho privado de hegemonia se instale no interior de suas instituições de produção de conhecimento, o país transfere, ainda que de forma indireta, parte de sua capacidade de definir prioridades, diagnósticos e soluções. A soberania deixa de ser exercida de maneira plena e passa a ser mediada por estruturas que respondem a interesses externos.
Esse tipo de captura não ocorre por conspiração, mas por convergência de racionalidades. A universidade, pressionada por restrições orçamentárias, busca recursos e infraestrutura. O capital informacional oferece soluções rápidas, eficientes e aparentemente neutras. O resultado é uma relação assimétrica na qual o parceiro privado passa a exercer influência desproporcional sobre um espaço que deveria operar como instância autônoma e crítica.
É por isso que a presença do Google na universidade pública não pode ser analisada apenas em termos contratuais ou administrativos. Trata-se de uma questão política e estratégica, que diz respeito à disputa pela hegemonia no capitalismo informacional. Quando um aparelho privado de poder passa a organizar o pensamento científico e a formação de quadros do Estado, o problema deixa de ser setorial e passa a ser nacional.
A partir desse ponto, torna-se necessário examinar como essa hegemonia se constrói passo a passo, desde a entrada aparentemente inocente pela infraestrutura até a consolidação de uma dependência estrutural que limita a capacidade de ruptura. É isso que será analisado a seguir.
Da infraestrutura à captura: como a dependência se constrói passo a passo
A captura da universidade pública pelo capital informacional não ocorre por choque frontal. Ela se constrói por encadeamento material, por decisões aparentemente técnicas, por soluções apresentadas como inevitáveis e por escolhas administrativas que, isoladamente, parecem racionais, mas que, combinadas, produzem dependência estrutural. O processo é cumulativo, silencioso e profundamente assimétrico.
O primeiro passo é quase sempre a entrada pela infraestrutura. Serviços de e-mail institucional, armazenamento em nuvem, videoconferência, ambientes virtuais de aprendizagem e sistemas de autenticação passam a ser oferecidos como soluções prontas, eficientes e de baixo custo. Em contextos de restrição orçamentária crônica, a adoção dessas plataformas aparece como decisão pragmática, não política. É exatamente aí que reside o erro estratégico. Infraestrutura não é neutra; ela organiza práticas, cria padrões e impõe caminhos.
Uma vez instalada, a infraestrutura redefine o cotidiano institucional. Processos administrativos, comunicação interna, pesquisa colaborativa e ensino passam a operar dentro de um ecossistema proprietário. A universidade deixa de “usar uma ferramenta” e passa a funcionar dentro de um ambiente. A partir desse momento, a reversão deixa de ser trivial. Migrar dados, alterar rotinas e reconstruir sistemas passa a ter custo técnico, financeiro e político elevado. O que era provisório se torna permanente.
O segundo passo é a padronização cognitiva. Ferramentas moldam formas de pensar. Quando estudantes, pesquisadores e gestores são formados utilizando os mesmos ambientes, as mesmas interfaces e os mesmos fluxos de trabalho, internalizam uma racionalidade específica como natural. A tecnologia deixa de ser percebida como escolha e passa a ser vista como condição. Forma-se, assim, uma geração de quadros “nativos” de determinado ecossistema, incapazes de imaginar alternativas sem fricção.
O terceiro passo é a integração da formação técnica ao ecossistema dominante. Cursos, certificações, trilhas de aprendizado, programas de capacitação e bolsas passam a girar em torno das ferramentas, linguagens e plataformas do fornecedor. O argumento é sempre o mesmo: empregabilidade, atualização, alinhamento com o “mercado”. O efeito real é a conversão da universidade pública em linha auxiliar de formação de mão de obra especializada para um único ecossistema corporativo.
O quarto passo é o financiamento direcionado da pesquisa. Editais, grants, prêmios e cátedras passam a estimular determinados temas, abordagens e metodologias. Não se trata de censura explícita, mas de orientação estrutural. Pesquisas que exigem infraestrutura externa, grandes volumes de dados ou capacidade computacional avançada tornam-se dependentes do acesso concedido pelo próprio capital informacional. A autonomia científica passa a depender da boa vontade do fornecedor.
Nesse estágio, a universidade já não é apenas usuária de tecnologia; ela é coprodutora de legitimidade. Artigos, relatórios e estudos produzidos nesse ambiente passam a compor o chamado “estado da arte”. Essa produção irradia para a imprensa, para órgãos reguladores, para o judiciário e para o legislativo. A linguagem técnica adotada nesses estudos delimita o campo do debate público. Certos problemas ganham centralidade; outros desaparecem do radar. A captura da agenda se consolida.
O quinto passo é a influência indireta sobre políticas públicas e regulação. Quando o conhecimento validado pela universidade passa a ser produzido em simbiose com o ecossistema corporativo, o próprio Estado começa a formular políticas com base em diagnósticos que não controla integralmente. A regulação deixa de ser confrontacional e passa a ser “colaborativa”. O discurso da ética e da responsabilidade substitui o enfrentamento estrutural. O conflito de interesses é dissolvido na linguagem da governança.
O sexto e último passo é a impossibilidade prática de ruptura. Nesse ponto, a universidade já depende da infraestrutura, da formação, do financiamento, do prestígio e da linguagem técnica produzida dentro do ecossistema dominante. Qualquer tentativa de reversão encontra resistência interna, não por má-fé, mas por dependência funcional. A pergunta deixa de ser “devemos sair?” e passa a ser “como sair sem colapsar?”. A soberania já foi comprometida.
Esse encadeamento não é acidental. Ele corresponde a uma lógica de expansão típica do capital informacional, que não busca apenas mercados, mas ambientes de reprodução. A universidade pública, por sua centralidade na formação de quadros e na produção de conhecimento, é um alvo estratégico privilegiado. Controlar seu funcionamento não é apenas lucrativo; é hegemonicamente decisivo.
Do ponto de vista do Estado, o erro fundamental é tratar cada etapa desse processo como decisão isolada. A adoção de uma plataforma, a aceitação de um financiamento, a criação de uma cátedra ou a assinatura de um convênio são avaliadas separadamente, sem consideração pelo efeito sistêmico. O resultado é a construção gradual de uma dependência que ninguém planejou explicitamente, mas que todos passaram a reproduzir.
É por isso que a discussão sobre a presença de grandes corporações de tecnologia na universidade pública não pode ser fragmentada. Não se trata de analisar contratos individuais, mas de compreender o processo histórico de captura que se estabelece quando infraestrutura, formação, pesquisa e política pública passam a operar sob a mesma racionalidade externa. Quando isso ocorre, a soberania não é perdida por traição, mas por acúmulo de decisões técnicas despolitizadas.
Compreendido esse mecanismo, torna-se inevitável enfrentar o ponto mais sensível da disputa atual: a institucionalização dessa lógica por meio de cátedras corporativas, que operam como instrumentos formais de organização do pensamento e da agenda científica dentro da universidade pública.
Cátedras corporativas: quando o capital passa a organizar o pensamento do Estado
Cátedras não são projetos periféricos. Historicamente, elas ocupam o centro simbólico e institucional da universidade. Uma cátedra define prioridades de pesquisa, legitima campos de estudo, organiza redes acadêmicas e estabelece o que passa a ser reconhecido como conhecimento de referência. Quando uma corporação transnacional financia uma cátedra em universidade pública, não está apenas aportando recursos: está intervindo na arquitetura do pensamento produzido por uma instituição estratégica do Estado.
No capitalismo informacional, essa intervenção assume uma forma particularmente sofisticada. Não se trata de impor teses, censurar pesquisas ou ditar conclusões. Trata-se de organizar o campo no qual o conhecimento será produzido. Definir temas, metodologias, interlocutores legítimos, linguagens aceitáveis e objetivos considerados “relevantes”. O poder, aqui, não opera por comando direto, mas por delimitação do possível.
Cátedras corporativas funcionam como dispositivos de hegemonia porque transformam interesses privados em problemas públicos e apresentam soluções compatíveis com esses interesses como consensos técnicos. A corporação deixa de ser objeto de análise crítica e passa a ocupar a posição de parceira epistemológica. A universidade, por sua vez, deixa de atuar como instância de contrapoder e passa a operar como instância de validação.
Essa dinâmica é particularmente perigosa quando a cátedra se propõe a discutir temas normativos, como ética, governança, regulação e políticas públicas. Nesses casos, o financiamento corporativo não incide apenas sobre a produção científica, mas sobre a formulação do marco cognitivo que orientará decisões do Estado. A fronteira entre pesquisa e normatividade se dissolve, e o conflito de interesses é mascarado sob o discurso da cooperação.
Do ponto de vista da soberania informacional, esse arranjo é inaceitável. Um Estado não pode permitir que agentes privados organizem, ainda que indiretamente, o debate sobre os limites e as regras de tecnologias que eles próprios controlam. Isso equivale a conceder ao regulado o poder de definir os termos da regulação. Não se trata de corrupção explícita, mas de algo mais profundo: a captura do processo de formação de consenso.
A gravidade do problema aumenta quando a cátedra se instala em universidades públicas de alta centralidade simbólica e política. Nessas instituições, o conhecimento produzido tende a irradiar-se para todo o sistema acadêmico nacional, influenciando currículos, linhas de pesquisa, decisões editoriais e prioridades de financiamento. O efeito multiplicador é enorme. Uma cátedra corporativa nesse contexto não afeta apenas um departamento; ela reorganiza o campo inteiro.
Há, ainda, um efeito interno frequentemente subestimado: a reconfiguração das hierarquias acadêmicas. Cátedras atraem recursos, prestígio e visibilidade. Pesquisadores associados a elas passam a ocupar posições centrais em conselhos, comissões e espaços de decisão. A crítica estrutural, quando não alinhada a esse eixo, tende a ser marginalizada. Não por censura, mas por escassez de meios. A autonomia formal da universidade permanece, mas sua autonomia material se esvai.
Esse processo não é neutro nem inevitável. Ele é o resultado de escolhas políticas travestidas de decisões técnicas. Em contextos de subfinanciamento crônico da ciência pública, a oferta de recursos privados aparece como solução pragmática. O custo oculto dessa solução é a transferência progressiva de soberania cognitiva. A universidade passa a depender do capital não apenas para funcionar, mas para pensar.
É nesse ponto que a retórica da “responsabilidade”, da “ética” e da “governança colaborativa” cumpre seu papel ideológico. Ao deslocar o debate do conflito para a cooperação, ela neutraliza a crítica e transforma a assimetria de poder em parceria virtuosa. A cátedra corporativa deixa de ser vista como problema e passa a ser celebrada como inovação institucional. A captura se completa quando já não é percebida como captura.
Para o Estado, aceitar esse arranjo significa abrir mão de uma prerrogativa fundamental: a capacidade de produzir conhecimento estratégico sem tutela externa. Significa admitir que a formação de seus quadros, a definição de suas políticas e a interpretação de seus desafios podem ser organizadas por interesses privados transnacionais. É a renúncia silenciosa à soberania, apresentada como modernização inevitável.
Não há saída honrosa nesse caminho. Um país que permite que o capital organize o pensamento produzido em suas universidades públicas abdica, na prática, de decidir seu próprio futuro. A questão, portanto, não é se cátedras corporativas podem trazer benefícios pontuais. A questão é se um Estado soberano pode aceitar que o coração de sua produção intelectual seja estruturado por agentes que não respondem ao interesse público nacional.
A resposta, quando examinada com rigor histórico e estratégico, é inequívoca. E é ela que conduz à necessidade de olhar para fora, para os precedentes internacionais que mostram como esse processo se desenvolve, quais são seus efeitos concretos e por que o custo da omissão é sempre maior do que o custo da ruptura.
Casos internacionais: o futuro que o Brasil está prestes a repetir
Não é necessário especular sobre os efeitos da entrada estrutural de grandes corporações de tecnologia na educação pública e na pesquisa estatal. O mundo já oferece um conjunto robusto de precedentes verificáveis, nos quais a adoção de infraestrutura, parcerias acadêmicas e arranjos de governança com big techs resultou em perda de autonomia, crises jurídicas, dependência operacional e recuos tardios. O padrão se repete com variações locais, mas a lógica é sempre a mesma.
Na Europa, onde a proteção de dados e a soberania informacional são tratadas como temas de Estado, os conflitos se tornaram públicos. Autoridades educacionais e municípios que adotaram ambientes educacionais baseados no ecossistema do Google passaram a enfrentar impasses jurídicos relacionados à transferência internacional de dados, à opacidade no tratamento das informações e à impossibilidade de garantir controle efetivo sobre fluxos informacionais críticos. Em diversos casos, avaliações de impacto revelaram que o Estado não conseguia assegurar, na prática, a conformidade soberana dos sistemas adotados.
O episódio mais didático ocorreu quando autoridades nacionais de proteção de dados, com respaldo do European Data Protection Board, concluíram que ambientes educacionais baseados em plataformas corporativas apresentavam riscos sistêmicos inaceitáveis. O resultado foi a determinação de suspensão ou revisão profunda do uso dessas plataformas, com impactos imediatos sobre escolas, professores e estudantes. A lição foi clara: quanto mais profunda a dependência, maior o custo político, administrativo e pedagógico da ruptura. O erro não estava na saída; estava na entrada sem critérios soberanos.
Nos Estados Unidos, onde o discurso da inovação costuma se sobrepor ao da soberania, o problema assumiu outra forma: a captura da agenda acadêmica e regulatória. Investigações jornalísticas demonstraram que grandes corporações de tecnologia financiaram pesquisas, programas universitários e especialistas que, posteriormente, passaram a ocupar posição central no debate público sobre regulação digital. O mecanismo não envolveu censura ou fraude, mas influência estrutural. A produção acadêmica financiada tornou-se referência, e essa referência passou a moldar políticas públicas.
O efeito colateral desse arranjo foi a erosão da confiança na independência científica. Instituições de pesquisa passaram a ser questionadas não por erros metodológicos, mas por conflitos de interesse estruturais. Como resposta, centros de pesquisa voltados à responsabilização tecnológica decidiram romper com o financiamento corporativo. O caso do AI Now Institute, que anunciou publicamente a recusa de recursos de big techs para preservar sua capacidade crítica, tornou-se emblemático. Quando até pesquisadores do Norte Global reconhecem que a independência exige ruptura com o financiamento corporativo, o alerta é inequívoco.
No Canadá, a estratégia adotada foi a da parceria híbrida, com institutos de inteligência artificial fortemente integrados ao setor privado. O discurso oficial enfatizou competitividade e atração de investimentos. O resultado foi a consolidação de um ecossistema de pesquisa altamente dependente de infraestrutura, dados e capital privados, no qual o Estado perdeu progressivamente a capacidade de definir prioridades autônomas. A ciência avançou, mas a direção estratégica passou a responder a interesses externos, não a projetos nacionais de longo prazo.
Em países do Sul Global, o padrão é ainda mais duro. Programas educacionais baseados em plataformas corporativas foram apresentados como soluções para a falta de infraestrutura estatal. Em poucos anos, sistemas educacionais inteiros passaram a operar dentro de ecossistemas privados, sem capacidade técnica ou política de migração. A educação pública transformou-se em mercado cativo, e a soberania informacional foi substituída por dependência permanente. Quando surgiram conflitos contratuais, mudanças de termos ou crises políticas, os Estados descobriram que não tinham alternativa operacional.
Esses casos, tomados em conjunto, revelam um padrão incontornável. A entrada de big techs em sistemas públicos de educação e pesquisa segue uma trajetória previsível: começa com soluções eficientes e aparentemente neutras, avança para a padronização operacional, consolida-se na formação de quadros e termina na perda da capacidade de decisão soberana. A reversão, quando ocorre, é sempre tardia, custosa e traumática.
O erro recorrente dos Estados foi tratar essas iniciativas como decisões técnicas isoladas, e não como opções estratégicas de longo prazo. Nenhum dos países que hoje enfrenta crises de soberania informacional acreditava estar abrindo mão de sua autonomia quando adotou plataformas corporativas ou aceitou financiamento estruturante. A captura não foi percebida porque se deu por acumulação, não por ruptura.
Para o Brasil, a lição é direta. Não se trata de aprender com o sucesso alheio, mas de aprender com o fracasso dos outros. Os exemplos internacionais mostram que não existe neutralidade possível quando multinacionais de tecnologia passam a operar no núcleo da produção de conhecimento estatal. A questão não é se haverá consequências, mas quando elas se tornarão incontornáveis.
Ignorar esses precedentes não é ingenuidade; é imprudência estratégica. Persistir nesse caminho, apesar das evidências, é aceitar conscientemente uma trajetória de dependência. O Brasil ainda está em tempo de decidir. Mas o tempo não é infinito, e a janela de autonomia se fecha à medida que a dependência se aprofunda.
É a partir dessa constatação empírica que se torna necessário avançar para a dimensão mais sensível da análise: a relação direta entre soberania informacional, defesa nacional e guerra cognitiva no século XXI.
Soberania informacional, defesa nacional e guerra cognitiva
No século XXI, a defesa nacional não se limita ao controle do território, ao poder de fogo ou à dissuasão convencional. Ela se estende ao domínio informacional, ao controle dos fluxos de dados, à autonomia cognitiva das instituições e à capacidade do Estado de formar, proteger e empregar seus quadros estratégicos sem interferência externa. Não existe defesa soberana possível quando a produção de conhecimento, a formação técnica e a infraestrutura informacional dependem de agentes privados transnacionais.
A soberania informacional é o fundamento invisível da soberania militar. É ela que garante que o Estado possa avaliar ameaças, formular doutrinas, planejar cenários e tomar decisões estratégicas com base em diagnósticos próprios, e não em modelos, métricas ou categorias importadas. Quando essa soberania é corroída, a defesa não desaparece formalmente, mas passa a operar sob limitações cognitivas impostas de fora.
É nesse contexto que emerge o conceito de guerra cognitiva. Diferentemente das guerras tradicionais, que visam destruir capacidades materiais do adversário, a guerra cognitiva busca desorganizar a capacidade de perceber, interpretar e decidir. Ela atua sobre sistemas educacionais, ambientes informacionais, produção científica, mídia e formação de elites. Seu objetivo não é derrotar o inimigo no campo de batalha, mas condicionar suas escolhas antes mesmo que o conflito se manifeste.
A universidade pública ocupa posição central nesse tabuleiro. É nela que se formam oficiais, engenheiros, especialistas em dados, estrategistas, analistas, juristas e gestores que irão compor o núcleo decisório do Estado. Quando essa instituição passa a operar dentro de ecossistemas tecnológicos controlados por corporações estrangeiras, a vulnerabilidade não é apenas técnica; ela é estrutural. O Estado passa a depender de infraestruturas, metodologias e referenciais que não controla, e que podem ser reconfigurados unilateralmente em função de interesses externos.
A dependência informacional cria uma assimetria silenciosa, porém profunda. Em um cenário de crise geopolítica, conflito híbrido ou pressão internacional, Estados que não controlam sua infraestrutura cognitiva enfrentam limitações severas. Atualizações de sistemas, mudanças contratuais, restrições de acesso, disputas jurídicas ou simples reorientações estratégicas do fornecedor podem comprometer cadeias inteiras de decisão. Não é necessário sabotagem explícita; basta a fragilidade estrutural.
Do ponto de vista da defesa, isso equivale a permitir que um ator externo tenha influência indireta sobre os sistemas que sustentam planejamento, pesquisa, simulação, formação e análise estratégica. Nenhuma doutrina militar séria aceitaria que a logística, as comunicações ou a inteligência fossem terceirizadas a agentes que não respondem ao comando nacional. No entanto, é exatamente isso que ocorre quando a infraestrutura informacional e acadêmica é entregue ao capital transnacional sob o pretexto de modernização.
A guerra cognitiva não opera apenas em momentos de conflito aberto. Ela se dá em tempos de paz, de forma contínua, por meio da normalização da dependência. Ao longo do tempo, o Estado perde capacidade de imaginar alternativas, de desenvolver soluções próprias e de romper com ecossistemas dominantes. A dependência deixa de ser percebida como risco e passa a ser tratada como realidade incontornável. Nesse estágio, a derrota estratégica já ocorreu, ainda que nenhum tiro tenha sido disparado.
Para países periféricos ou semiperiféricos, como o Brasil, o risco é ampliado. A assimetria de poder tecnológico, econômico e político torna a dependência informacional um vetor privilegiado de pressão externa. Em um mundo marcado por disputas geopolíticas intensas, sanções, guerras comerciais e conflitos híbridos, abrir mão da autonomia cognitiva equivale a desarmar-se preventivamente.
É por isso que a soberania informacional não pode ser tratada como tema setorial ou técnico. Ela é parte integrante da segurança nacional. Proteger a universidade pública, a pesquisa científica e a formação de quadros estratégicos não é uma pauta corporativa nem ideológica; é uma necessidade de defesa. Estados que não compreendem isso acabam terceirizando sua própria capacidade de decidir, e passam a operar reativamente, sempre um passo atrás.
Quando multinacionais de tecnologia se instalam no coração da produção de conhecimento estatal, o que está em jogo não é apenas inovação ou eficiência. O que está em jogo é a capacidade do país de resistir, reagir e decidir em cenários de alta complexidade. A perda dessa capacidade não é imediata, mas é progressiva, cumulativa e, uma vez consolidada, extremamente difícil de reverter.
Compreender essa dimensão é fundamental para avaliar o que está por vir. A questão já não é apenas o que está acontecendo agora, mas para onde essa trajetória conduz. É isso que exige uma análise prospectiva rigorosa, capaz de projetar cenários e tornar visível o custo da omissão.
Cenários preditivos: o Brasil em 2030 se nada for feito
A análise estratégica não se completa sem projeção. Estados não fracassam apenas por decisões erradas, mas por inércia diante de tendências visíveis. Quando padrões estruturais se repetem em diferentes países, setores e contextos, ignorá-los deixa de ser prudência e passa a ser negligência estratégica. No caso da soberania informacional, os sinais são claros e convergentes. Se a trajetória atual não for interrompida, o Brasil de 2030 enfrentará um conjunto de restrições que não poderão mais ser tratadas como escolhas políticas reversíveis.
O primeiro cenário previsível é o da expansão irreversível das cátedras corporativas. Iniciativas pontuais tendem a se multiplicar, especialmente em áreas associadas à inteligência artificial, ciência de dados, governança digital e inovação. Cada nova cátedra reforça a legitimidade do modelo anterior, criando um efeito de normalização institucional. Em poucos anos, a presença corporativa deixa de ser exceção e passa a ser critério de prestígio acadêmico. O resultado é a reorganização silenciosa da agenda científica nacional em torno de interesses externos.
O segundo cenário é o da dependência normativa. À medida que relatórios, pesquisas e pareceres produzidos em ambientes capturados passam a circular como referência técnica, o Estado perde capacidade de formular políticas a partir de diagnósticos próprios. Projetos de lei, marcos regulatórios e decisões administrativas passam a reproduzir a linguagem, os limites e as soluções propostas por esse ecossistema. A regulação deixa de confrontar estruturas de poder e passa a administrar assimetrias, apresentadas como inevitáveis.
O terceiro cenário é o da captura da formação de quadros estratégicos. Em 2030, a maior parte dos profissionais formados em áreas sensíveis terá sido educada integralmente dentro de ecossistemas tecnológicos corporativos. Suas habilidades, referências e práticas estarão profundamente alinhadas a plataformas específicas. A capacidade de desenvolver soluções soberanas, interoperáveis e independentes será residual. O Estado continuará existindo, mas dependerá de consultorias, fornecedores e “parcerias” para executar funções que deveriam ser internas.
O quarto cenário é o da crise de ruptura impossível. Em algum momento, seja por disputa geopolítica, seja por mudança abrupta de termos, seja por conflito jurídico, o Brasil se verá diante da necessidade de reavaliar sua dependência. Nesse ponto, a reversão já será extremamente custosa. Sistemas inteiros estarão integrados, dados distribuídos, rotinas institucionalizadas e competências internas atrofiadas. A pergunta deixará de ser “devemos romper?” e passará a ser “quanto colapso estamos dispostos a aceitar para romper?”. A soberania, nesse estágio, já terá sido comprometida.
O quinto cenário é o da subordinação estratégica permanente. Mesmo sem crise explícita, o país passará a operar dentro de limites definidos externamente. Planejamentos de longo prazo, políticas industriais, estratégias de defesa e projetos de desenvolvimento estarão condicionados à compatibilidade com ecossistemas tecnológicos dominantes. O Brasil continuará formalmente soberano, mas materialmente dependente, incapaz de definir caminhos próprios sem autorização implícita.
Esses cenários não são projeções alarmistas. Eles resultam da extrapolação direta de tendências já observáveis. Cada etapa descrita encontra correspondência empírica em experiências internacionais e em sinais internos já em curso. O elemento decisivo não é a intenção declarada dos atores envolvidos, mas a lógica estrutural do capitalismo informacional, que transforma dependência em condição normal de funcionamento.
O mais grave é que, em 2030, a discussão já não será sobre se essas escolhas foram corretas ou não. Ela será sobre como administrar os efeitos de decisões tomadas anos antes, em nome da modernização, da eficiência e da inevitabilidade tecnológica. A janela de decisão soberana se fecha antes que a maioria perceba que ela existia.
Ainda há tempo para alterar essa trajetória, mas o tempo é curto. A soberania não se perde de uma vez; ela se dissolve por acúmulo. Cada convênio, cada cátedra, cada adoção “provisória” de infraestrutura contribui para um cenário em que o Estado já não controla as condições materiais da sua própria existência cognitiva.
É por isso que, diante desse horizonte, não basta diagnosticar riscos. É necessário definir linhas vermelhas, estabelecer critérios inegociáveis e afirmar, de forma clara, o que um Estado soberano pode e não pode aceitar. É essa afirmação que diferencia países que decidem seu futuro daqueles que apenas se adaptam ao futuro decidido por outros.
Linhas vermelhas da soberania: o que um Estado sério não negocia
Estados soberanos não existem apenas porque proclamam sua independência. Eles existem porque estabelecem limites claros sobre o que é negociável e o que é inegociável. No campo da soberania informacional, esses limites não podem ser ambíguos, graduais ou condicionais. Ou são afirmados com clareza, ou são corroídos pela prática cotidiana da dependência. Não há meio-termo sustentável.
A primeira linha vermelha é a produção de conhecimento estratégico. Nenhuma multinacional pode organizar, financiar ou estruturar instâncias que definem o estado da arte em áreas sensíveis dentro de universidades públicas. Isso inclui cátedras, centros de excelência, observatórios normativos e programas de pesquisa voltados à regulação, à ética ou à governança de tecnologias controladas por essas mesmas empresas. Um Estado que permite isso concede ao regulado o poder de delimitar o campo da regulação.
A segunda linha vermelha é a infraestrutura cognitiva. Sistemas de comunicação, armazenamento, colaboração, identidade digital e computação que sustentam a pesquisa pública e a formação de quadros do Estado não podem estar sob controle estrutural de agentes estrangeiros. Infraestrutura não é serviço acessório; é condição de existência. Estados que terceirizam sua infraestrutura informacional aceitam, de fato, uma vulnerabilidade permanente.
A terceira linha vermelha é a formação de quadros estratégicos. A universidade pública não pode se transformar em linha auxiliar de treinamento para ecossistemas corporativos globais. Currículos, certificações e programas de capacitação não podem ser organizados de forma a criar dependência tecnológica, cognitiva e operacional de plataformas proprietárias. Formar quadros soberanos significa formar profissionais capazes de construir alternativas, não apenas operar soluções alheias.
A quarta linha vermelha é a produção normativa indireta. Relatórios, pesquisas e pareceres produzidos em ambientes capturados não podem orientar políticas públicas, decisões regulatórias ou interpretações judiciais. O Estado precisa garantir que as bases cognitivas de sua ação normativa sejam produzidas em espaços materialmente independentes, livres de conflitos estruturais de interesse. A neutralidade não é declaratória; ela é material.
A quinta linha vermelha é a naturalização da dependência. O discurso da inevitabilidade tecnológica é uma forma sofisticada de renúncia política. Nenhum Estado sério aceita o argumento de que “não há alternativa” quando se trata de defesa, energia ou território. O mesmo princípio deve valer para informação, ciência e tecnologia. Aceitar a dependência como dado da realidade é abdicar da soberania como projeto.
Essas linhas vermelhas não são expressão de isolamento, atraso ou hostilidade à inovação. São expressão de responsabilidade histórica. Estados que preservam sua autonomia tecnológica e cognitiva não o fazem por desconfiança abstrata, mas porque compreendem que a capacidade de decidir é o ativo mais valioso que possuem. Inovação sem soberania é apenas modernização subordinada.
A defesa dessas linhas exige decisão política, investimento público e coragem institucional. Exige romper com a lógica da solução fácil e do curto prazo. Exige fortalecer infraestrutura pública, consórcios nacionais, padrões abertos, interoperabilidade e financiamento estável da ciência. Exige, sobretudo, afirmar que a universidade pública não está à venda, nem simbólica, nem materialmente.
Quando essas linhas não são traçadas, a captura não precisa ser imposta. Ela acontece por conveniência, por carência e por hábito. O Estado não é derrotado; ele se acomoda. E essa acomodação, no campo da soberania informacional, é irreversível sem custos profundos.
É por isso que a questão colocada neste texto não é técnica, nem administrativa, nem setorial. Ela é civilizatória. Trata-se de decidir se o Brasil será capaz de produzir conhecimento, formar quadros e definir políticas a partir de seus próprios interesses históricos, ou se aceitará operar permanentemente dentro de limites definidos por estruturas que não controla.
Com essas linhas afirmadas, resta apenas encerrar o argumento onde ele começou: na compreensão de que a universidade pública é a trincheira decisiva da soberania nacional. Quando ela cai, tudo o mais se torna negociável. Quando ela é defendida, o futuro permanece em disputa.
Conclusões
A história mostra que nações não perdem sua soberania apenas quando são derrotadas em guerra, mas quando abdicam do direito de pensar por conta própria. No século XXI, essa abdicação não se dá pela ocupação de territórios, mas pela ocupação silenciosa da infraestrutura cognitiva que sustenta o Estado, a ciência e a decisão política. Quando a universidade pública é capturada, o país continua existindo, mas passa a existir dentro dos limites do pensamento alheio.
Não há inovação que compense a renúncia à autonomia. Não há parceria que justifique a entrega da formação de quadros, da produção científica e da linguagem regulatória a interesses privados transnacionais. O discurso da modernização, quando dissociado da soberania, é apenas a forma elegante da dependência. Estados que confundem eficiência com submissão descobrem tarde demais que o preço do curto prazo é a irreversibilidade do longo prazo.
A universidade pública é a última trincheira antes da capitulação cognitiva. Defendê-la não é um gesto ideológico, corporativo ou nostálgico; é um ato de sobrevivência histórica. Um país que não protege seu pensamento estratégico não decide seu futuro — apenas se adapta ao futuro decidido por outros. E nenhuma nação que aceitou essa condição conseguiu, depois, reivindicar dignidade, autonomia ou destino próprio.
Este texto não é um alerta abstrato. É um marco de decisão. O Brasil ainda pode escolher. Mas toda escolha tem prazo. E a soberania, uma vez perdida por acomodação, não retorna por negociação.
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