Desigualdade, sintoma do fracasso da democracia?

O cerne da profunda crise que a democracia atravessa é o abismo entre o palácio e o barraco. Sem atacá-lo, centros de decisão continuarão espaços abstratos, blindados por instituições que domesticam anseios populares para, depois, destruí-los

Foto: Daniel Marenco/Divulgação
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A pergunta que a modernidade finge não ouvir é simples, porém fatal: quanto abismo social um sistema de iguais consegue suportar antes de se converter em um simulacro de soberania? O que chamamos de democracia hoje não é um projeto ético de liberdade, mas uma tecnocracia da gestão biopolítica: o Estado tornou-se o síndico de um condomínio de luxo cercado por periferias existenciais, onde o voto é um signo vazio, mas a vida permanece prisioneira de uma ontologia da sobrevivência. No Brasil, o que vemos não é uma disfunção, mas a estrutura atingindo sua hiper-realidade: a transformação da miséria em dado algorítmico e da política em um teatro de sombras onde o real foi devorado pela performance.

A desigualdade que nos consome não é um erro de percurso; é a arquitetura central da acumulação que, conforme uma análise pikettyana, revela a contradição fundamental do capital no século XXI. Vivemos sob uma ontologia do patrimônio, onde a essência do ser é substituída pela herança do ter, criando uma dinâmica onde o rendimento da riqueza acumulada asfixia a mobilidade do trabalho. Isso mata a democracia na raiz. Quando o poder econômico se torna hereditário, o mérito vira uma fábula metafísica e a cidadania, um simulacro jurídico. A democracia não é apenas um rito de manipulação de signos; é, antes de tudo, uma materialidade compartilhada. Sem o suporte do ente — pão na mesa e chão debaixo dos pés —, a liberdade é apenas o direito de gritar no vácuo de uma existência despojada de mundo.

Nesse cenário, a nossa subjetividade foi colonizada. A opressão sofreu uma transmutação ontológica: o carrasco tornou-se o próprio eu dentro de uma “sociedade do desempenho”. Já não somos coagidos apenas por uma alteridade soberana, mas nos autoexploramos em um regime de produtividade que alimenta a abstração financeira. A democracia se esvazia em um solipsismo produtivo porque o cidadão está exausto demais para habitar o espaço público. Estamos imersos em um simulacro de autonomia, onde o sistema nos vende a ilusão do “sujeito empreendedor”, enquanto oculta a verdade da nossa precarização absoluta. É a vitória do mercado sobre a psique: ele não domina apenas o capital, domina o tempo e o desejo.

O resultado é uma fragmentação social baseada na distribuição desigual da vulnerabilidade. A democracia operou uma clivagem ontológica: há corpos que detêm o estatuto de humanidade protegida e corpos que são meras “vidas nuas”, expostas ao descarte. Segundo uma análise arendtiana, a política só é possível quando há a garantia de um “espaço de aparência” onde os sujeitos são protegidos das necessidades biológicas imediatas. Sem essa base, o que resta não é democracia, mas uma necropolítica orçamentária que decide quais existências são dignas de luto e quais são meros resíduos do processo produtivo. O neoliberalismo gere uma ontologia da morte, onde o futuro é um privilégio de classe.

A cultura, então, torna-se o último campo de batalha, mas imersa no simulacro, ela corre o risco de virar apenas mercadoria simbólica. Na modernidade líquida, até a insurreição é liquefeita em consumo. Ocupamos as redes sociais com uma fúria mediada por interfaces, mas essa energia é capturada pelo capitalismo de vigilância antes de tocar a estrutura material do poder. O espetáculo da indignação substituiu a práxis política. Consumimos o ódio ao “outro” como uma catarse estética, enquanto os verdadeiros centros de decisão operam em uma abstração sistêmica, blindados por instituições que mimetizam a democracia para melhor destruí-la.

Precisamos encarar o fato de que a democracia está em um estado de metástase ontológica. Ela não suporta a desigualdade infinita porque a desigualdade é a negação do “ser-com”. O desafio não é apenas reformar o simulacro das instituições, mas refundar a política sobre uma ética da alteridade. Se a política não serve para desconstruir o abismo entre o palácio e o barraco, ela serve apenas para conferir uma estética civilizatória à barbárie.

Portanto, a resistência não reside na repetição de slogans vazios, mas no resgate da espessura do real. Enquanto a desigualdade for a nossa estrutura fundamental, a democracia será apenas o nome que damos à nossa incapacidade de habitar um mundo comum. Romper esse ciclo exige uma ruptura metafísica: a coragem de admitir que uma sociedade que tolera a fome enquanto diviniza o lucro já operou sua própria autodestruição ontológica. Resta-nos a tarefa de recuperar o humano entre os escombros do capital.

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