Por que ler Albert Camus hoje?
Escritor francês instiga a compreender o absurdo da vida em tempos de guerras, solidão virtual e precarização. Mas sugere que, mesmo assim, é dever se revoltar contra injustiças – e reivindicar humanidade aos humanos e, mais do que nunca, imaginá-los felizes
Publicado 29/08/2025 às 16:41

Tornaram-se públicos e notórios diversos fatos sobre a vida de Albert Camus (1913–1960). Que morreu jovem, que adoeceu cedo, que obteve sucesso literário, mesmo que com um número diminuto de obras publicadas em vida, e que, além de talentoso, era adúltero. Sem embargo, ao excetuar a sedução de sua prosa e sua imortalidade — decorrente, sobretudo, da consagração com o Nobel de Literatura de 1957 —, há mais o que falar sobre o contínuo interesse, reaquecido recentemente, sobre sua obra.
Especialmente em 2020, as vendas de A peste dispararam no Brasil. Desde então, a editora Record, a casa editorial que comercializa o espólio de Camus em solo brasileiro, lançou textos inéditos do autor no país, do mesmo modo que reeditou títulos que há muito não circulavam em terras brasileiras — além de elaborar uma nova identidade visual para a coleção. É claro, pode-se associar o súbito interesse coletivo com a experiência da pandemia, vivida especialmente entre 2020 e 2021. Não obstante, entende-se que essa tese é insuficiente para sustentar a atração que seu trabalho manteve desperta após o período assinalado.
Primeiro, faça-se uma ressalva: malgrado A peste tenha sido o maior sucesso editorial em vida desse distinto escritor, seu O estrangeiro é um dos títulos literários mais lidos na história da literatura francófona. Esse último, aliás, encontra-se atrás somente de O pequeno príncipe (de Antoine de Saint-Exupéry) e Vinte mil léguas submarinas (de Jules Verne).
Logo, os dados corroboram a interpretação de que sua literatura ficcional não erodiu com o tempo; ao contrário, seguiu aguçando o grande público leitor, mais de seis décadas após sua morte. Não obstante, esse não seria motivo para ignorar a relevância de outros textos. Afinal, além de captar o interesse da audiência, possuem um papel significativo, no que concerne à conservação da atualidade de suas ideias.
Convém esclarecer que o corpo de trabalho de Camus não foi constituído aleatoriamente. Na realidade — esclarecendo àqueles que não o conhecem tão bem, de maneira resumida —, o escritor organizou seus trabalhos mais relevantes em “ciclos”. Esses foram concebidos em tríades e elas correspondem a grandes temas de seu interesse, formadas sempre por um ensaio filosófico, uma peça teatral e um romance.
Dos ciclos publicados em vida, dois foram inteiramente lançados e trabalhados — enquanto o terceiro foi abreviado por sua morte, restando apenas uma versão preliminar de O primeiro homem. O primeiro tratou do “absurdo”, composto de Calígula (peça teatral), O estrangeiro (romance) e O mito de Sísifo (ensaio filosófico), publicados entre 1942 e 1944. Anos depois, veio a segunda tríade, agora referente à “revolta”, a qual, além do romance A peste, contava com Estado de sítio (peça) e O homem revoltado (ensaio).
Diga-se de passagem, os textos não são correspondentes de equivalência, ou seja, um não traduz o outro em uma linguagem diferente. Em vez disso, as obras articulam reflexões acerca do assunto, dispondo de tratamentos e objetivos distintos.
Dentre os temas que é possível destacar, dois sobressaem ao caso: a condição humana e a legitimação do assassinato em nome da eficácia política. Esse último, em especial, teve reflexões antecipadas através de sua participação como jornalista, ao longo da década de 1940 e, posteriormente, na de 1950. Período em que participou de pleitos públicos como publicista e que, ao cabo, marcaram o seu declínio na vida pública francesa.
Sobre a condição humana
A condição humana da qual Camus falou não é a mesma sobre a qual diversos sociólogos, dentre outras categorias, lançaram-se a examinar. Sua questão não concerne à desigualdade social, como a maioria dos demais casos parece tratar. Na verdade, sua perspectiva não pertence à vida social, grosso modo. A espécie de “condição humana” sobre a qual o autor em questão discorreu diz respeito aos limites da existência. Portanto, trata-se de sua gratuidade.
Vale a ressalva: Camus não foi pioneiro, tendo em vista que essa, como tantas outras questões, data desde os gregos antigos. Entretanto, seu argumento recobra diferentes aspectos que resultam em um verniz de originalidade. Quer dizer, é, no mínimo, arrojado pensar que alguém, já durante a II Guerra Mundial, ousaria dizer que a vida não possui sentido — e, mais ainda, dizer que quanto menos sentido tiver, melhor ela será vivida.
Não há ilusão em seu argumento, pois o autor não rechaça ou tampouco menospreza o fato de que “muitas pessoas morrem porque consideram que a vida não vale a pena ser vivida”. Sobretudo, se se considerar que, em diversos casos, germina uma crescente melancolia, que as desarma dessa vontade de viver. Leia-se uma invencível ausência de sentido, subjacente à própria vida. Assim sendo, adquire valor, essa ideia, ao passo em que se percebe: “os homens morrem e não são felizes”; não obstante, muitos se recusam a aceitar que esse assunto permanece vivo, mesmo que atrás de sorrisos ou discursos.
Considerando o exposto, salienta-se que, hoje, vive-se uma epidemia de solidão, catalisada pelo uso excessivo de telas, além do próprio isolamento social, em decorrência da recente pandemia — como tem sido bastante divulgado nos últimos tempos. Além dela, especialmente no caso brasileiro, também está em curso o auge da nova precarização do trabalho, aquela em que a maioria de uma geração, em troca de uma remuneração moderadamente melhor, aceitou abdicar de diversos direitos trabalhistas relevantes. Esse fenômeno, conhecido no popular como “pejotização”, tem, inclusive, “catequizado” vários jovens a associar a carteira de trabalho às camadas baixas da pirâmide econômico-social.
Ambas as circunstâncias estão ligadas por uma série de fatores — como aumento do tempo da jornada, home office e assim sucessivamente —, mas, aqui, deseja-se ressaltar um elemento que, por vezes, é esquecido ou tratado de sobrevoo: o valor associado à ocupação profissional. Segundo uma pesquisa realizada pela antropóloga espanhola Esther Solano, houve uma adesão das classes C e D brasileiras ao ideário neoliberal, sobretudo, representado pela reprodução do discurso de merecimento próprio. Grosso modo, perdeu-se o vínculo de pertencimento à classe social à qual se pertence e, em compensação, vê-se no ganho salarial (via pejotização) um atalho para ascender socialmente — ou, ao menos, aparentar.
A questão é que, dada a situação, os sujeitos trabalham mais, investem menos em seu futuro e, como pesquisas recentes têm mostrado, estão cada vez mais insulados em melancolia. A conjuntura atual concerne, assim, à condição humana. Afinal, trabalhar de oito a doze horas diárias, durante seis dos sete dias da semana, enclausuram o sujeito aos limites de seu próprio ofício.
Escrevendo durante os anos finais do entreguerras e o início da II Guerra Mundial, Camus recorre à figura de Sísifo como contraponto. Condenado à pena perpétua pelos deuses gregos, Sísifo foi obrigado a rolar uma rocha até o topo de uma montanha com um único e exclusivo propósito: vê-la rolar para a base do monte e, ato contínuo, reiniciar todo o processo eternamente. Entretanto, “é preciso imaginar Sísifo feliz”, insiste Camus. Por quê?
A interpretação do autor se reflete pela permanente queda de braço com a falta de sentido, procurando, através do proveito dos prazeres mundanos e particulares, desafiar o infinito do vazio que circunda a humanidade. “A própria luta para chegar ao cume [do monte no qual se carrega a própria eterna penitência humana] basta para encher o coração de um homem”, escreveu. Afinal, deve-se reconhecer que o trabalho é sem sentido, como a própria vida. É exatamente por isso que se pode ser livre: sabe-se que tudo isso não é comparável a tudo aquilo que nos dá prazer e toda a experiência que tudo o que nos faz feliz nos proporciona.
Como o anti-herói da mitologia greco-romana, somos condenados a empurrar nossas próprias rochas para o cume de um morro ao longo da semana, mas fazemos sabendo que aquilo jamais será capaz de frear nossos corações. Longe disso, não há semana de trabalho que propicie o que a arte confere ao espírito. Como postulado por Camus: “se o mundo fosse claro, a arte não existiria”.
Transeuntes do efêmero, nós, os humanos, somos tão passadiços quanto qualquer outra coisa viva. Não é preciso, tendo isso em mente, recorrer a sofismas ou ao incerto; senão, compreender o vazio que circunda nossa própria brevidade.
Política e moral
Anos depois de publicar O mito de Sísifo, a preocupação de Camus era outra: a Europa não dava sinais de superação da dicotomia estabelecida na II Guerra Mundial, ou seja, era-se vítima ou carrasco. Da segunda metade da década de 1940 em diante, o jornalista procurou propor uma refundação moral da civilização, de sorte a reorganizar suas relações e a maneira de como os sujeitos se posicionavam em relação à própria humanidade.
Suas tentativas foram todas em vão. Ao passo que procurou interceder moralmente, a sociedade se reconfigurava pautada pelas ideologias em voga. A ruína da humanidade, anunciada pelos tanques e explosões de tropas dos Aliados e do Eixo, foi envernizada pela disputa subsequente, durante a Guerra Fria. Camus não aceitava a situação. A violência em regime de exceção se justificava até certo ponto, porém, segundo sua análise, havia se tornado uma política de Estado.
No decorrer desse debate, rompeu com Sartre, então defensor da União Soviética, e se afastou da esquerda comunista. Sentia-se quase que completamente isolado do resto da intelectualidade da França da época, como contam seus biógrafos. Mais do que seu sentimento de deriva, foi discutivelmente seu pior momento como homem público. Algo que foi agravado anos depois, durante o conflito de independência argelino.
Se, entre estadunidenses e soviéticos, Camus se recusava a aderir a um dos lados, tampouco o fez quando surgiu o confronto entre metrópole e colônia. Refratário à proposta de garantir a soberania árabe no território ultramarino — ainda mais considerando a ascensão do pan-arabismo e da espreita franquista —, defendeu uma solução impossível.
Argelino etnicamente francês, defendia que a França reparasse os muçulmanos da Argélia, garantindo-lhes direitos de toda sorte e uma verdadeira participação política. Da mesma maneira, condenava os ataques da população muçulmana contra pieds noirs inocentes, “o terrorismo” que era exercido “nas ruas de Argel”, como disse em uma conhecida manifestação. Entendia, em síntese, que a França apenas conseguiria alcançar uma democracia legítima se fornecesse o mesmo à Argélia; entendendo, ademais, os vários povos argelinos (árabes, berberes, espanhóis étnicos, gregos étnicos, franceses étnicos etc.) como filhos da mesma terra: “condenados a viver e morrer juntos”.
Sua solução, na melhor das hipóteses, era utópica: os franceses metropolitanos precisariam, de bom grado, abrir mão de parcela de sua hegemonia política e, assim, concedê-la aos muçulmanos da Argélia e, em grau muito menor, aos pieds noirs.
Poder-se-ia dizer, não obstante, que sua principal preocupação durante a conflagração era com a falência moral que se alastrava pela população argelina. Assassinavam-se pais, mães, filhos e filhas; jovens e idosos; combatentes e civis, todos supostamente vítimas das necessidades beligerantes que se impunham como destino do território. Fossem elas associadas à emancipação, à manutenção colonial, ou qualquer que seja o ideal em questão.
Camus propôs que, em carne e osso, os líderes políticos e religiosos se encontrassem em uma mesa redonda com o propósito de ver que o conflito sequer possuía sentido. Também suplicou por tréguas, com a finalidade de poupar as vidas dos inocentes e daqueles que eram coagidos ao conflito. Além de advogar pela coexistência das diferentes etnias magrebinas, como referido anteriormente.
Malgrado suas ideias repercutiriam possivelmente de modo positivo na atualidade, pelo endosso a valores que hoje parecem ser panfletários; à época, foi associado à defesa do colonialismo, sem embargo. Feita essa ressalva, bem como a inexequibilidade de suas propostas, há de se reiterar alguns pontos.
Falando grosseiramente, presenciam-se disputas bipolares há algum tempo: Aliados versus Eixo, Estados Unidos versus União Soviética, mais recentemente Rússia versus Ucrânia e, com duração distinta, Israel versus Hamas, para não citar outras tantas. Importa salientar a despolitização das coberturas, por um lado, e, por outro, o partidarismo. Se o primeiro deteriora a qualidade do debate a ponto de esterilizar seu conteúdo, o segundo, na conformação atual, torna-o impossível.
Não é como se, na época de Camus, todos se sentassem à mesa e conversassem civilizadamente, esperando sua vez de falar, com interesse verdadeiro no que seus interlocutores tivessem a dizer. Embora houvesse debate, ele não acontecia sem polêmicas. No entanto, havia debate, como é possível aferir através da história do jornalismo e dos intelectuais.
Os esforços de Camus foram, em determinado sentido, para lembrar seus interlocutores metropolitanos e ultramarinos de que aquela guerra era resultado de uma degradação moral generalizada em que as verdadeiras vítimas eram seus próprios habitantes. Sua experiência na pobreza lhe servia como testemunho: via árabes e descendentes de europeus conviverem pacificamente. Acreditava na coexistência como um expediente, não um horizonte. Diante do fracasso de suas ideias — em parte, ignoradas, e noutra, vilipendiadas, fez voto de silêncio sobre a tragédia argelina.
No ínterim entre seu silêncio (em meados de 1956) e o dia de sua morte (nos primeiros dias de 1960), falou em raras ocasiões e sem a ambição que empregava em seu jornalismo. Não obstante, jamais deixou de agir: escreveu cartas e petições ao presidente da República, intercedendo pela vida de muçulmanos condenados à pena de morte. Em alguns casos, com sucesso e noutros sem, mas nunca de costas para aquilo que lhe era caro.
Palavras finais
Camus não foi um santo salvador, que resolveria os problemas da humanidade e, destarte, tornar-se-ia uma unanimidade capaz de resolver todas as diferenças de um tempo histórico turbulento, cujos povos sangravam a torto e a direito. Não, era um homem. Apenas um homem. Em certa medida, era um homem como outro qualquer, com a diferença que procurava exercer seu ofício de homem público por meio de uma irrepreensível capacidade de expressão, desde seus posicionamentos políticos.
Desde O homem revoltado, apareceram eventuais detratores do homem e de sua obra. Mesmo assim, seu nome permanece, enquanto uma parte de seus difamadores é soterrada pelas areias do tempo. As épocas passam e novas épocas vêm; Camus segue sendo lido. O falso moralismo puritano desempenhado contra ele ora arrefece e ora reaquece, mas é sempre incapaz de deteriorar o artesanato que esse pensador público legou a seus leitores.
“Em uma era de intelectuais da mídia que se autopromovem, enfeitando-se inexpressivamente diante do espelho admirador de seu público eletrônico”, escreveu o historiador britânico Tony Judt, “a honestidade patente de Camus tem apelo de um artigo genuíno, uma obra-prima artesanal em um mundo de reproduções de plástico”.
Passados os diversos conflitos que pautaram o século XX, a contemporaneidade permanece, mais ou menos, no mesmo lugar, no que concerne ao tratamento de seu espírito. A reflexão camusiana sobreviveu relativamente intacta, malgrado à sombra do grande brilho e valorização dado às transformações tecnológicas. Afinal, é possível considerar que a humanidade segue perturbada por sua falta de sentido.
Tal como o oficial kafkiano de Na colônia penal, vive-se um comportamento contemplativo, senão hipnótico, em direção a todo tipo de luz emanada por todo o maquinário disponível no presente. Tem-se terceirizado o encontro e o destino. Tão logo se permitirá, ademais, a concessão do próprio espírito — há quem o diga, outrossim.
De mesma sorte, também sofre com o binarismo superficial em disputas políticas. Camus almejou doutrinar o público em direção a uma nova moral. Essa seria erigida a partir de um objetivo comum, que, ao menos supostamente, seria a construção de uma sociedade que agisse e pensasse de maneira coletiva, cujos objetivos estivessem, por primazia, no combate ao arrivismo. A moral que defendia era avessa à eficácia e baseada em um pacifismo crítico e na justiça (como valor universal).
Por mais que esses valores, hoje, sejam utópicos — ou, ao menos pareçam assim —, a atualidade de Camus, portanto, encontra-se em sua fortuna, sem demagogia: reivindicar o humano que pertence ao próprio humano; e é preciso, mais do que nunca, imaginá-lo feliz.
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