Encontro de um psicanalista com o perspectivismo ameríndio
A antropologia de Viveiros de Castro não é espelho narcisístico para a psicanálise se endossar, mas um estrangeiro que pode desestabilizar certezas e, assim, arejá-la. Ou seja: levar o conhecimento a um “trabalho de campo” dentro de si mesmo
Publicado 29/08/2025 às 16:46 - Atualizado 29/08/2025 às 16:48

A psicanálise decolonial ou o debate entre psicanálise e decolonialidade, apesar de suas origens poderem ser recuadas até o início da década de 80, tem adquirido impulso maior nos últimos anos. De minha parte, como estou longe de dominar toda ou a maior parte da literatura sobre o tema e nem é minha expectativa abordar todos os seus aspectos, as pretensões deste artigo ficam drasticamente reduzidas. Portanto, pretendo apenas fazer um relato de meu encontro enquanto psicanalista com o perspectivismo ameríndio apresentado na obra A inconstância da alma selvagem, de Eduardo Viveiros de Castro.
Você vai perceber que esse relato não pretende ser uma contribuição para o debate sobre a decolonialidade ou mesmo sobre a interdisciplinaridade entre psicanálise e antropologia. Também não pretende ser nem uma proposta de interpretação da psicanálise pela antropologia nem da antropologia pela psicanálise. Trata-se, na verdade, de investigar o lugar que a antropologia – mais especialmente, o perspectivismo ameríndio – pode ocupar em relação à psicanálise. Esse meu interesse surgiu como reação ao ponto de vista de alguns psicanalistas que entendem ser o perspectivismo ameríndio a expressão da antropologia de determinada psicanálise. Sem receio de dar spoilers, já me adianto dizendo que esse ponto de vista parece não contribuir para o debate.
A noção de lugar do perspectivismo ameríndio em relação à psicanálise pode ficar mais clara se aproximarmos esse lugar ao lugar ocupado pela mulher na obra freudiana. De acordo com o psicanalista Paul-Laurent Assoun, “produziu-se para Freud uma estranha identificação da mulher com a própria verdade analítica”. Ou seja: as mulheres analisadas por Freud, principalmente nos primórdios da psicanálise, não eram uma amostra de casos destinados a confirmar ou refutar as teses psicanalíticas, mas eram, elas mesmas, responsáveis por fazer a psicanálise ascender à sua verdade, por fazer a psicanálise se tornar… psicanálise.
Entendo que o perspectivismo ameríndio pode assumir esse lugar para a psicanálise. Entretanto, diferentemente da mulher, não se trata de revelar a verdade analítica, e sim de indicar uma verdade não acessível à análise, de fazer a psicanálise confrontar sua verdade justamente com aquilo que não é espelho. Para prosseguirmos nesse caminho, precisamos fazer um considerável recuo no tempo histórico.
Por volta de 1510 – ou em alguma data após 1530, segundo algumas fontes –, o marinheiro português Diogo Álvares Correia (1475-1557) foi vítima de um naufrágio ocorrido na baía de Todos os Santos, costa do atual Brasil. Aqueles que o acompanhavam foram todos dizimados, mas Diogo foi acolhido pelos Tupinambá. Diogo encontrou, entre os Tupinambá, alívio para seus sofrimentos e respostas para questões que nenhum filósofo europeu havia sido capaz de elucidar. A assimilação de Diogo entre os Tupinambá foi tão profunda que o cacique Taparica ofereceu sua filha, Paraguaçu (1503-1583), para casamento. Realizava-se, assim, uma verdadeira fábula que indicava uma alternativa à visão de mundo estabelecida nos primórdios da modernidade europeia. De acordo com essa fábula, somente os povos indígenas poderiam salvar a Europa da miséria e destruição provocadas pela própria Europa.
Como você deve saber, Diogo Álvares Correia, também conhecido como Caramuru, não virou as costas para a civilização europeia. Não somente contribuiu para estabelecer trocas comerciais entre os portugueses e os Tupinambá como também viajou algumas vezes à Europa com sua esposa, a qual chegou a ser batizada na religião cristã. No entanto, a paródia que eu apresentei das peripécias de Caramuru nos serve para pensar na relação que alguns psicanalistas podem estabelecer com o perspectivismo ameríndio. Em uma apropriação muito aquém e pobre da complexidade original da filosofia de Deleuze e Guattari, podemos dizer que Caramuru é um dos dois personagens conceituais que quero hoje apresentar a você.
O outro personagem é um velho conhecido nosso: Narciso. Assim como ocorreu com Caramuru, será apresentada uma paródia desse personagem – não tão distorcida quanto a paródia anterior. Partindo do princípio de que é feio o que não é espelho, Narciso ficou conhecido por recolher, de outros povos e culturas, testemunhos e relatos que pudessem confirmar e dar consistência à sua imagem e semelhança. Cada saber era desapropriado de seu contexto original para ser reapropriado segundo seus próprios cânones. Os estrangeiros serviam para mostrar a Narciso que tudo o que ele via nos outros já havia sido visto… nele mesmo.
Na companhia desses dois personagens (Caramuru e Narciso), posso me dedicar a um comentário daquilo que foi minha experiência no estudo do perspectivismo animista investigado pelo antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro.
Quando me debrucei sobre A inconstância da alma selvagem, eu não estava interessado em extrair, do perspectivismo animista, saberes que pudessem dar consistência à psicanálise – longe de mim, muito pelo contrário… Eu já estava um tanto quanto advertido de não me tornar um Narciso. No entanto, isso não me impediu de acender uma vela para Caramuru – apesar de contestada por vários historiadores, um dos significados de Caramuru é “homem do fogo” (não por acaso, esse nome foi utilizado para batizar uma conhecida fábrica de fogos de artifício, ainda que o logo da marca represente um indígena estadunidense, e não um viajante português). Pretendia, assim, entender de que maneira o perspectivismo animista, diferentemente do totemismo freudiano, poderia contribuir para um novo entendimento e tratamento do narcisismo patológico. Minha esperança era encontrar respostas para essa pergunta.
As leituras individuais e as conversas com colegas psicanalistas foram me mostrando que o perspectivismo animista não poderia responder à minha pergunta. Não porque os povos indígenas fossem incapazes de transmitir um saber ou porque seus saberes fossem inferiores aos saberes da psicanálise. O que me foi mostrado é que o perspectivismo ameríndio não poderia responder a uma pergunta que não fazia sentido a partir de seu horizonte.
Diferentemente do entendimento estabelecido por Freud, a obra de Viveiros de Castro nos apresenta um animismo que não pode mais ser situado como o estágio primeiro do desenvolvimento do indivíduo e da espécie, uma etapa solidária entre as crianças e os chamados “povos primitivos” – expressão utilizada por Freud. O perspectivismo animista não é uma etapa comum às diferentes culturas humanas, mas é o modo como a humanidade dos ameríndios se constituiu. Aponta não somente para uma outra relação entre natureza e cultura, mas também para o entendimento de que natureza e cultura não são substâncias como são entendidas por nós, não-indígenas. Enfim, enquanto o animismo define a dimensão ontológica dos povos ameríndios, seu equivalente entre nós não-indígenas é o naturalismo. Estamos falando, assim, de duas dimensões ontológicas distintas (animismo e naturalismo), com suas potências imanentes e suas problemáticas próprias, e não de duas etapas subsequentes na história do desenvolvimento humano.
E onde entraria o totemismo nessa história? Na verdade, ao contrário do que eu imaginava, no perspectivismo ameríndio o totemismo não se opõe ao animismo. Animismo e naturalismo possuem dimensão ontológica, mas o totemismo é de natureza classificatória. Não somente animismo e totemismo não seriam etapas do desenvolvimento da espécie e do indivíduo como também não seriam necessariamente categorias antagônicas. A coexistência do animismo e do totemismo em um mesmo povo nos mostra que essas categorias possuem naturezas distintas.
Para mim, o que nos interessa, aqui, são esses dois postulados: nunca fomos animistas, jamais seremos ameríndios. Isso não significa a interdição de uma aproximação entre a psicanálise e os resultados das investigações antropológicas de Viveiros de Castro, mas, talvez, o diálogo entre essas disciplinas exija um novo personagem conceitual. Não um Narciso, não um Caramuru, e sim um Estranho ou um Estrangeiro – o que, etimologicamente, dá no mesmo. Estranho não como efeito do reconhecimento do animismo que supostamente residiria em nós, mas recalcado, e sim como Estrangeiro em relação a nós mesmos, psicanalistas. O estudo do perspectivismo animista pode contribuir para nos provocar, assim como o chá de Ayahuasca, uma espécie de miração, que nos faça olhar com estranhamento para nossa dimensão ontológica naturalista e, principalmente, para nossa prática psicanalítica.
Fico pensando de que maneira podemos nos utilizar dos resultados da antropologia de Viveiros de Castro para desestabilizar nossas certezas, não com o intuito de fundarmos uma nova psicanálise, e sim para arejarmos nossa relação com outras disciplinas. Assim como a psicanálise foi (e é) incontornável para a maior parte das ciências humanas, talvez hoje seja o momento de verificarmos em que medida a antropologia pode se tornar incontornável para nossa prática – não por aquilo que transmite, mas justamente por aquilo que não se pode transmitir.
Não se trata de colocar, mais uma vez, a psicanálise no divã. Psicanalistas analisando psicanálise a partir de (outra) psicanálise é uma prática tão antiga quanto a própria psicanálise. No diálogo com a antropologia conduzida por Viveiros de Castro, trata-se, a meu ver, de colocar a psicanálise no campo, entendido enquanto campo de pesquisa do antropólogo, ou seja, trata-se de realizar uma etnografia da psicanálise a partir do perspectivismo ameríndio.
O resultado já nos é conhecido. Mais uma ferida narcísica no seio da modernidade: a psicanálise já não é mais senhora em sua própria casa.
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