Guerra cultural: hora de praticar o materialismo
Idealista, esquerda está perdendo a batalha por corações e mentes. Desconectada da vida das maiorias, insiste em persuadi-las. Para projetar outras visões de mundo o central não é “pregar”, mas ressoar experiências cotidianas transformadoras
Publicado 04/04/2025 às 20:05 - Atualizado 04/04/2025 às 20:08

Por Amador Fernández-Savater, no CTXT | Tradução: Rôney Rodrigues
“Somos uma derrota que governa”. Leio esta dura caracterização do presente no último livro do filósofo Juan Manuel Aragües, A escrita dos deuses. Apesar de hoje governar uma coalizão de esquerda, onde se encontram as posições antagonistas com as quais o autor se identifica, é a direita (mais ou menos extrema) que leva a iniciativa no plano social, das ruas e do ânimo, colocando a esquerda na defensiva. O impulso de mudança radical na sociedade expresso pelo movimento 15M congelou-se, e as políticas de esquerda limitam-se (no melhor dos casos) a medidas de contenção, incapazes de reverter as desigualdades estruturais.
Por que a energia e a iniciativa mudaram de lado? Uma resposta que surge entre os atores de esquerda envolvidos no que se conhece como batalha cultural é a seguinte: “A direita tem mais dinheiro, mais meios e mais talento comunicativo”. Esse “mais” explicaria a influência dos discursos de ódio, principalmente entre os mais jovens, a propagação de fake news, o enfraquecimento das mensagens progressistas e dos horizontes de esperança.
Mas, por acaso houve mais dinheiro, mais meios e melhores estratégias midiáticas durante a década anterior, quando o desejo de mudança teve claramente a hegemonia social e cultural? E se não estivermos pensando corretamente sobre as forças em jogo, assumindo que tudo é uma questão quantitativa, de poder, de técnicas e engenharia social?
O desafio político, diz Juan Manuel Aragües, também é filosófico, tem a ver com maneiras de pensar. Há modos de pensar que carregam em si mesmos a derrota. A batalha cultural é uma disputa de mensagens contra mensagens, com os meios e as redes sociais como terreno único ou privilegiado? Tudo se resume a ver quem coloca melhor a mensagem? Poderíamos pensar a comunicação de outra forma?
Idealismo e materialismo
O livro de Juan Manuel Aragües reivindica a tradição materialista do pensamento para as práticas de emancipação. Uma constelação da qual fazem parte desde Epicuro até Gilles Deleuze, passando por Spinoza e Marx, firmemente oposta ao idealismo. O que diz o idealismo? Aragües o resume assim: é a crença de que um “etéreo mundo de nomes” define a realidade, detém a verdade do real. O fundador da corrente idealista seria Platão, com sua famosa teoria de um mundo de ideias que rege acima da matéria imperfeita.
Qual é o problema do idealismo? Esse “etéreo mundo de nomes” simplifica (até o apagamento) a complexidade e riqueza do real, que consiste na emergência contínua de diferenças impossíveis de captar (sem mutilação) em ideias, conceitos ou esquemas a priori. O idealismo é uma “lógica representativa” que pretende dar conta da realidade, como se fosse um espelho, mas não consegue captar seu dinamismo de mudança e movimento.
Da filosofia à política. A batalha cultural, tal como é proposta hoje, não seria profundamente idealista? A verdade está na teoria ou nas narrativas, trata-se de transmitir essa verdade às massas/audiências através da persuasão (no caso da esquerda clássica) ou da sedução (no caso do populismo). Em ambos os casos, concede-se ao ideal – a teoria ou as narrativas – o privilégio de definir o sentido do material. Os construtores de explicações e narrativas, os intelectuais ou storytellers, têm o poder e a agência nessa concepção de política.
Como pensar em chave materialista? A verdade não está acima da matéria, em um céu abstrato de ideias ou narrativas, mas na própria matéria, em seu movimento perpétuo, em sua produção contínua de singularidades, na trama de relações entre elas que constitui a vida. A matéria se define assim como um “tecido de diferenças”. Também a matéria da sociedade, a matéria social.
Há singularidade e há diferença, cada um de nós é uma perspectiva do mundo, um leitor único e irrepetível da realidade. A percepção é ativa, os sentidos não apenas reproduzem ou refletem o que existe, mas o recriam. Porém, ao mesmo tempo, essa diferença e essa singularidade, a de cada um de nós, é relacional, ou seja, entra em contato e diálogo com os outros, deixando-se afetar e afetando, mudando através dos encontros.
Mas, o que importa tudo isso? Para que servem essas divagações filosóficas? No final, não se trata de ter mais dinheiro, mais meios e mais eficácia em termos de mensagem? A diferença é decisiva. Se pensamos em chave idealista, o emissor (que detém a verdade da teoria ou da narrativa) dirige-se a um receptor isolado e passivo. A comunicação torna-se um bombardeio de informações para um conjunto de indivíduos atomizados, cada um fechado em si mesmo e sem relação com os outros.
É exatamente assim que o mercado pratica a comunicação. A fraqueza da batalha cultural hoje, tanto da esquerda clássica (que quer convencer) quanto da esquerda populista (que quer seduzir), é transformar a comunicação em uma prática de mercado, que pressupõe um conjunto de consumidores isolados, sem percepção ativa, sem conversa ou laços entre si. Estações repetidoras de estereótipos, de memes, de conteúdos virais.
A questão da prática
O idealismo, tal como explica Juan Manuel Aragües, é a crença de que primeiro vem a consciência, as ideias, a linguagem, e só depois a vida. O “etéreo mundo de nomes” dá sentido, orientação e direção à vida. O materialismo afirma algo muito diferente: a prática, a experiência, tem um efeito determinante sobre a consciência. As práticas e as experiências de vida podem gerar novos olhares, novas ideias, novas maneiras de pensar.
Por que a direita leva a iniciativa na disputa das ideias? Poderíamos pensar: não apenas porque tem mais dinheiro, mais meios e mais talento comunicativo, mas porque as práticas e as experiências de vida estão do seu lado. A quais me refiro? Às mais diárias e cotidianas: desde o supermercado até o cartão de crédito, passando pelo entretenimento e o turismo, a vida hoje está inteiramente organizada pelo mercado.
Ou seja, a mensagem da direita pega porque ressoa e sintoniza com os medos e as esperanças de uma vida imersa no líquido amniótico do mercado. A esquerda ri com arrogância dos disparates de Trump ou de Ayuso, mas eles conectam com desejos, formas de vida e linguagens comuns. A direita hoje é materialista, tem as práticas de vida majoritárias ao seu lado. É um materialismo cínico, um materialismo do dado, do que existe, do estabelecido, mas enraizado no real.
A batalha cultural não é apenas questão de ideias, teorias, narrativas sedutoras, significantes ou mensagens a veicular, mas tem a ver com práticas, experiências, abalos da vida capazes, segundo explica a tradição materialista, de gerar novas visões de mundo. Não foi essa, por exemplo, a força do 15M? Sem dinheiro, sem meios, sem nenhum roteiro argumentativo, mas apoiado em uma prática de vida diferente, que contagiava afetos e valores distintos, foi capaz de mudar o olhar de um país.
Razões e paixões
Por fim, o idealismo, conforme caracterizado por Juan Manuel Aragües, desconhece o caráter passional e desejante da matéria humana. Um medo do corpo, uma ignorância dos saberes do corpo, o acompanham desde sempre, pelo menos desde o momento em que Platão decidiu expulsar os poetas de sua cidade ideal.
A batalha cultural idealista imagina a eficácia de uma verdade discursiva purificada de paixões. No caso da esquerda clássica, é a confiança na pedagogia, na ideologia, nos roteiros argumentativos. A esquerda clássica pensa a batalha cultural como um grande quadro-negro onde os especialistas (que sabem) ensinam às audiências (que não sabem) o que deveriam saber. No caso da esquerda populista, as emoções são levadas em conta – um certo avanço em relação à esquerda clássica –, mas são pensadas como meras identificações. A emoção é algo a ser captado ou suscitado para “colocar” melhor a mensagem.
Em ambos os casos, ignora-se a capacidade motora dos afetos, sua grande força de deslocamento, o poder que têm para nos mover e comover. Os afetos não são nem uma interferência no pensamento correto, nem a emoção passiva que adere ou não aos significantes propostos, mas uma intensidade vital que pode produzir novos olhares, novas visões e novos sentidos para a vida.
A batalha do pensamento
Singularidade e relacionalidade, percepção ativa e criadora, tecido de diferenças, práticas de vida, caráter passional e desejante do humano… A partir dessas chaves, poderíamos pensar uma batalha cultural diferente? Como seria?
Imagino-a, em primeiro lugar, como a abertura de espaços de conversa. Sem divisão rígida entre emissores e receptores, criadores de conteúdos e consumidores passivos ou repetitivos. A conversa como ida e volta da palavra em igualdade, como exercício de atenção e escuta, não mediado por algoritmos, roteiros ou protocolos rígidos, mas sustentado pelos próprios participantes.
Espaços de conversa, de palavra recíproca, nem monólogo nem guerra entre posições fechadas, mas uma trama ao mesmo tempo comum e diversa, singular e coletiva. Uma conversa que se alimente das práticas de vida (ou que seja até capaz de suscitá-las), que ressoe com nossas experiências mais cotidianas e possa, assim, afetar nosso olhar sobre o mundo. Espaços de encontro, de pensamento, de deliberação, de participação autêntica.
Lá onde somos convocados a pensar a partir do que nos importa e nos toca, do que vivemos e nos implica vitalmente, desdobra-se sempre uma inteligência. Somos matéria que pensa. A confiança na igualdade das inteligências, na inteligência de qualquer um, é um pressuposto materialista. É possível dirigir-se ao outro, falar com o outro, não para convencê-lo ou seduzi-lo, mas para pensar juntos?
A batalha cultural em chave materialista é uma batalha do pensamento. Juan Manuel Aragües a pensa como construção de um conatus. O conatus é um conceito do filósofo Spinoza que designa o esforço que cada coisa e cada criatura faz para perseverar em seu ser. Mas esse conatus, que Spinoza considera uma força primordial, um ponto de partida, Aragües o pensa mais como um desafio, uma construção, um ponto de chegada.
O dado não é o conatus, como mostra o mundo atual, mas a pulsão suicida. A pulsão suicida do capitalismo em forma de guerra, de agressão à natureza, de cegueira voluntária diante de todos os sinais de alarme. A pulsão suicida de cada um de nós como indivíduos isolados, sem relação, atomizados. Idiotas, no sentido grego da palavra, autorreferentes, fechados em nós mesmos, incapazes de encontro com os outros. A pulsão de morte freudiana é redefinida em chave materialista como pulsão idiota.
Construir um conatus para sobreviver, para nos colocar um horizonte de sobrevivência humana em um planeta vivo. Para isso, é preciso escapar da idiotice, da superioridade moral, do identitarismo, de tudo o que nos torne incapazes de encontro e composição com os outros. Construir o conatus é construir o comum, uma saída e um êxodo da pulsão suicida do capitalismo neoliberal, hoje já brutalismo.
Contra a pulsão suicida, contra a pulsão idiota, contra a vida-mercado e sua falsa comunidade de indivíduos atomizados, a batalha cultural em chave materialista, a construção de um corpo coletivo, um espaço de conversa, um tecido de diferenças.
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